Douro das lendas e do vinho generoso - Portugal

O Douro e o vinho do Porto
Dos picos da serra de Urbión, na Espanha, ao Oceano Atlântico, na cidade do Porto em Portugal, o rio Douro – binacional – percorre uma região rica em termos agrícolas e historicamente interessante.

Fig. 1 A aldeia portuguesa de Masouco, aninhada bem no cimo das colinas, alcandorada sobre os meandros do rio Douro.

Ao viajar-se pela região do Douro (Portugal) – Duero em Espanha – pode-se reparar nas remolachas (beterrrabas), tomar um magnífico vinho do Porto 100 anos mais velho que nós, ou contemplar, do alto de rochedos graníticos, abutres voando nos desfiladeiros lá embaixo nos vales encaixados, enquanto águias-reais planam bem por cima das nossas cabeças.

Este rio impressionante é o terceiro mais longo da Península Ibérica, depois do Tejo e do Ebro. Nasce a uma altitude de mais de 2.000 m, nos picos da serra de Urbión, na região centro-norte da Espanha; corre para Oeste e Sul, ao longo de 927 km, através de pitorescas e férteis paisagens; e desemboca no Oceano Atlântico, junto à cidade do Porto, 313 km a Nor-Noroeste de Lisboa. A sua bacia hidrográfica, de 97.682 km2, é, a maior da Península Ibérica.
Ao subirmos em direcção à nascente do rio podemos ouvir o marulhar da água, observar a cascata gelada e os arroios de montanha, que desaguam num ribeiro, que vai aumentando até se transformar no caudal do rio Duero. Para as cidades de Duruelo de la Sierra e Covaleda de Duero, os pinheirais proporcionam florescentes estâncias de madeira, com pilhas e pilhas de tábuas.
Fig. 2 - Na parte superor do seu curso, o rio Duero pode ser atravessado quase a vau.
Ao descermos a serra; lá embaixo, a província de Soria é uma sossegada região de terra vermelha e paisagem suavemente ondulada. Embora pobre em indústria, é rica em história. Os romanos, que chamaram ao rio Durius , não foram bem recebidos pela população local. Em 134 A.C., a urbe de Numância, a Norte da actual cidade de Soria, resistiu durante meeses ao assédio das legiões romanas. Em vez de se renderem, os habitantes incendiaram Numância e suicidaram-se. Os sorianos sentem-se orgulhosos da sua herança - das igrejas românicas que enfeitam a sua capital e dos maravilhosos castelos mouriscos, enormes sentinelas de pedra guardando pacíficas aldeias medievais.
Esta região, ao longo do curso serpeante e ladeado de álamos do Duero, foi a fronteira Norte-Sul, protegida por ameias, entre o Islão e a Cristandade. Também aqui, reis cristãos lutaram e conspiraram uns contra os outros: Sancho II de Castela contra o seu irmão mais novo, AIfonso VI de Leão. Rodrigo Díaz de Bivar, o lendário Cid Campeador, combateu neste local pelos cristãos, pelos muçulmanos e por si próprio.
Muitas destas graciosas aldeias foram erigidas para defender uma fronteira e para proteger pontes vitais do Duero; algumas foram construídas pelos romanos. As cidades de Almazán e Aranda de Duero têm ainda sólidas muralhas. A arte perdura em magníficas igrejas, a arte divina da poderosa Igreja Católica.
A região de Castela-Leão, como é chamada actualmente - vasta região de planícies no coração de Espanha -, é a maior produtora cerealífera do país. Nos subúrbios de Valladolid, encontramos a única grande cidade industrial na bacia do Duero, onde Miguel de Cervantes escreveu trechos do D. Quixote, nos princípios do século XVII.
A Oeste, para lá de Simancas, onde um castelo cinzento com torreões guarda documentos espanhóis desde o século XVI, e para lá de, Tordesilhas, onde, durante 46 anos, a viúva de Filipe I, conhecida como Joana, a Louca, viveu confinada num convento, fica Toro. Aqui, em 1476, as duas nações ibéricas travaram uma sangrenta batalha. Actualmente, Toro é o coração de uma importante região vinícola, uma de várias, ao longo do Duero. Mais para Oeste fica Zamora. Com uma população de pouco mais de 60 mil habitantes, a cidade tem 16 cofradías, ou irmandades, uma das quais data do século XV. Durante a Semana Santa, pode-se assistir a sucessivas procissões, piedosas e fantasmagóricas.
Um desfiladeiro, através do qual o mais atrevido rio da Península Ibérica entra, no seu sinuoso curso, separa Portugal da Espanha, durante 135 km da sua extensão; é uma fronteira selvagem e remota. Altas paredes de granito erguem-se, às vezes a 300 m de altitude sobre o leito do rio. Este é o habitat de cerca de 80 espécies de aves, metade das quais migratórias. Grifos e abutres-do-Egipto, águias-reais, águias-de-Bonelli e cegonhas-negras nidificam nas saliências e fendas dos altos rochedos. É uma importante área de criação para várias espécies raras.
Entre as gargantas que o rio atravessa, existem várias barragens - umas espanholas, outras portuguesas. Tanto para Portugal como para a Espanha, o Douro é a maior fonte de energia hidroeléctrica. Alguns pescadores, em barcos de madeira a motor, lançam as redes ao longo da fronteira. Aqui, porém, não há multidões: estamos em Trás-os-Montes - literalmente, «atrás das montanhas» - uma região no Nordeste de Portugal Continental. Existem poucas cidades, as comunicações ainda são deficientes e nas muitas aldeias, de rara beleza, alcandoradas sobre o rio, o passar do tempo traz poucas mudanças.
Fig. 3 - Vale do Douro - vinhas em socalcos e belas quintas caracterizam a primeira região vitícola demarcada do Mundo, criada por instituição régia no tempo do Marquês de Pombal.
Os pequenos agricultores vivem em ruas de antigas casas de pedra, onde os animais são alojados no andar de baixo - constituindo o aquecimento central das mesmas - e as famílias moram em pequenos e asseados quartos no andar de cima. Geralmente o que se cultiva é para o autoconsumo. As amendoeiras, as oliveiras e as figueiras medram por toda a região. Apesar de em menor número, hoje ainda há quem fabrique o seu próprio sabão e mulheres que entendem de ervas medicinais para fins curativos.
Nas cidades antigas, as pessoas ainda se interessam pela história e pela tradição. Miranda do Douro tem uma catedral, no topo de um rochedo, que contém, entre outros tesouros, um minúsculo Menino Jesus comemorativo de uma vitória mirandesa sobre os espanhóis, no século XVII. Este Menino Jesus da Cartolinha é levado para o exterior da catedral uma vez por ano, no dia da festa do santo padroeiro de Miranda, em Agosto; trata-se de uma imagem que mais parece um boneco, elegantemente trajado, de gravata-borboleta e cartola, colocada sobre um andar que é carregado por quatro crianças.
O maior tesouro do Douro, porém, é um vinho rico em cor, aroma e sabor – o famoso e afamado vinho do Porto. Segundo se conta, em 1678 dois jovens exportadores naturais de Liverpool, ansiosos por estabilizar o vinho para ser transportado para Inglaterra, adicionaram-lhe um pouquinho de brande - e criaram o primeiro vinho do Porto. Esta região, de íngremes colinas em socalcos, é o lugar ideal de cultivo da uva de que se faz o vinho do Porto, tão valioso que, em 1756, o Marquês de Pombal, então primeiro-ministro de Portugal, criou uma companhia vinícola para demarcar as áreas nas quais se podia fabricar este vinho e para regulamentar o seu comércio.
Existem diversas espécies de vinho do Porto: safras notáveis que aparecem talvez três vezes numa década; portos envelhecidos em cascos de madeira - tintos, alourados, e um branco, que se bebe como aperitivo. Em 1986, a exportação de vinho do Porto rendeu a Portugal mais de 178 milhões de dólares.
Os exportadores de vinho do Porto envelhecem os seus vinhos a 80 km ou mais do lugar onde se encontram os vinhedos. As suas caves, em Vila Nova de Gaia, são uns armazéns escuros e húmidos, situados na margem sul do Douro, bem em frente à cidade do Porto; sobreviveram a guerras, inclusive uma guerra civil - e à filoxera que assolou as vinhas europeias, no século XIX. A vida nas caves decorre com todo o vagar: é uma questão de esperar, olhar, provar e misturar (lotar») os vinhos.
Durante a vindima, porém, os apanhadores da uva, na sua maioria mulheres e moças, trabalham activamente, e rapazes musculosos carregam cestos de 50 kg, repletos de cachos de uvas, pelos íngremes socalcos. No interior de uma fresca adega, em Vargelas, como noutros locais, homens descalços pisam a uva em tanques abertos, chamados lagares. Um acordeonista ajuda a tornar o trabalho menos duro. Os vindimadores, após o escurecer, vêm assistir ao pisar da uva, e dançar. Nas antigas adegas, nas montanhas, os pisadores eram cuidadosamente vigiados pelo técnico de cada companhia compradora. Dessas três semanas de vindima dependiam fortunas.
Os provadores de vinho enfiam a cabeça numa pipa vazia, cheiram-na e depois declaram com entusiasmo: «Que maravilha!» Não se enchem pipas sem a aprovação do comprador. Porto, o vinho; Porto, a cidade; Porto, o local onde o rio se encontra com o mar e onde um enorme banco de areia tem constituído um obstáculo desde antes de os Cruzados ali aportarem, em 1147, e serem persuadidos a aliar-se a Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, na reconquista de Lisboa aos mouros. Como porto, a cidade sempre foi fértil em azares - a maldição da areia e, pior ainda, as cheias súbitas do rio. Actualmente, o Douro é fechado a toda a navegação, excepto à das traineiras de pesca e pequenos barcos.
Alto potencial. Com mais de 300 mil habitantes, a capital nortenha e os concelhos limítrofes constituem a maior e mais movimentada zona industrial de Portugal. Construção naval, têxteis, madeiras, equipamento eléctrico, trabalhos em metal, mobiliário, agricultura, vinhos de mesa, incluindo o vinho verde, assim como o vinho do Porto, totalizam quase 60% da economia portuguesa. O Porto é uma cidade de telhados vermelhos irregulares, excelentes livrarias, cafés apinhados, palácios - o pomposo palácio da Bolsa) o encantador palácio do Freixo. É uma cidade cheia de degraus – ao subir-se a torre dos Clérigos normalmente perde-se a conta a tantos degraus. Nesta cidade ainda se podem escutar os risos, não lágrimas, mesmo nos bairros mais pobres caracterizados por fieiras de minúsculas casas em declive, onde habitam famílias numerosas, e onde, nas cordas, a roupa estendida adeja como bandeiras.

Fig. 4 - O rio Douro ea cidade do Porto - Terra natal do Infante D. Henrique (1394-1490). A cidade deu o seu nome ao vinho generoso produzido no Alto Douro e exportado para o Mundo inteiro.

São quatro as pontes que atravessam o Douro, no Porto; uma delas é a ponte D. Luís, com os seus arcos de metal rendilhado. Outra é a ponte Dona Maria, acabada de construir em 1877. Foi desenhada por Eiffel, antes da famosa torre parisiense, e é por ela que o intenso tráfego ferroviário atravessava outrora o rio; actualmente o tráfego ferroviário faz-se essencialmente por outra ponte recentemente construída. A quarta é a ponte da Arrábida.

Fig. 5 - A ponte D. Luís (em cima) e a cidade de Vila Nova de Gaia (em baixo).
Sob as pontes, foi tomando forma um projecto ainda mais importante: tornar o rio navegável. Dado o seu curso tumultuoso e o declive que percorre (quase 201 m ao longo de seus 195 km em Portugal), o Douro tem uma alta potencialidade para a produção de energia hidroeléctrica e, desde há poucos anos, em questões de navegabilidade (em parte do seu percurso) onde já se realizam fabulosos cruzeiros que mostram a beleza infindável desta magnífica região de Portugal.
Existem também consideráveis depósitos de minério de ferro em Trás-os-Montes, e existe carvão, granito e madeira bem perto das margens do rio. As dragas foram ao longo dos tempos abrindo caminho para estas riquezas, numa região das mais empobrecida de Portugal. Foram construídos portos fluviais e molhes. O povo do Nordeste de Portugal foi aos poucos entrando no mundo moderno ..

5 comentários:

  1. Very good Blog !
    Look from Quebec Canada
    http://www.wwg1.com

    WWG :)

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  2. Sempre q vejo alguma foto de Portugal, me transparece ser um pais tõa aconchegante.

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  3. Ainda sonho fazer a subida do rio Douro.
    Sem duvida um local magnifico !

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  4. Ainda piso nessa terra!
    Belíssima postagem viu. :) Parabéns!

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  5. Parabens pela belissima postagem,me deu vontade de conhecer Portugal,um grande abraço.

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