Abandono escolar

Introdução

O insucesso e abandono escolares tomaram-se um problema dos actuais sistemas de ensino. Não sendo novo, ele requer hoje uma reavaliação, devido às mudanças profundas que as sociedades têm vindo a registar, quer na socialização dos jovens quer nas exigências que estas fazem, cada vez mais, à participação destes em diferentes esferas sociais.
Em sociedades como a portuguesa, em que o sistema de ensino se universalizou mais tardiamente e em que o mercado de trabalho é pouco exigente em qualificações, a atracção pelo trabalho juvenil constitui um factor de peso para o abandono escolar. Um estudo recentemente realizado, cujo objectivo consistia em analisar, numa área rural (onde as taxas de abandono são mais acentuadas), as determinantes sociais desse abandono, permitiu retirar algumas conclusões que ajudam a compreender o problema, a sua gravidade e dimensão.
Verificou-se que o perfil dos jovens que abandonam a escola evidencia uma pertença a famílias com baixas habilitações, baixos rendimentos e dificuldades económicas. Se estas dificuldades empurram os jovens, desejosos de autonomia financeira, para o mercado de trabalho, também a escola assume uma parte da responsabilidade no abandono precoce pela incapacidade que ela mostra de motivar e de desenvolver o interesse dos jovens pela educação e pela formação. A análise dos motivos que levam os jovens a abandonar a escola constitui, assim, o cerne deste artigo e assenta num modelo complexo que procura relacionar entre si as variáveis Escola, Família e Mercado de Trabalho, todas elas concorrentes na determinação do fenómeno.
Diagnose da actual situação de abandono escolar

A desvalorização dos jovens, o insucesso e o desinteresse escolar constituem ainda hoje, nas nossas escolas fenómenos massivos cuja natureza e determinantes parecem ser de essência sócio-económica.
Estes fenómenos conduzem-nos essencialmente a dois tipos de situações que correspondem a outras tantas posições relativamente ao percurso escolar de muitos jovens e são as seguintes: à os que ficam retidos, uma ou mais vezes no mesmo ano ou em diferentes anos escolares; è os que, tendo transitado, terminam o seu percurso escolar quando atingem a escolaridade obrigatória.
No primeiro caso, o desinteresse manifestado por estes jovens, que muitas vezes desenvolvem atitudes de fracasso face à escola e ao ensino que dispensa, conduz a uma constante interrupção do seu percurso escolar e consequentemente ao abandono escolar. No segundo caso, encontram-se os alunos que, tendo sido aprovados, terminam no final da escolaridade obrigatória, o seu percurso escolar.
Aparentemente, estes alunos decidem eles mesmos, abandonar o sistema de ensino, mas na verdade, esta interrupção voluntária dos estudos, corresponde, também ela a uma forma de abandono escolar.
Nos últimos anos, com a revisão curricular da educação básica e com os currículos alternativos, tentou-se travar o abandono escolar nas nossas escolas mas, de facto, tal parece não se ter revelado suficiente, uma vez que não se conseguiu inverter esse sentido.
Características dos alunos

O universo dos estudantes, matriculados nas nossas escolas, é constituído maioritariamente, por jovens com idades que estão de acordo com o ano escolar que frequentam. No entanto, são igualmente muitos os alunos que, por terem já ficado retidos uma ou mais vezes, as suas idades encontram-se “desfasadas” face ao ano escolar que frequentam, tendo já idades que não se encontram abrangidas pela escolaridade obrigatória.
Este facto prende-se certamente com o número de alunos que já ficaram retidos uma ou mais vezes em anos lectivos anteriores. Contribuindo, igualmente para este facto, estão também os alunos que interromperam o seu percurso escolar, abandonando a escola antes das aulas terminarem, apesar de alguns poderem, porventura, regressar às aulas em anos lectivos seguintes.
Ser estudante parece assim, ser um atributo dominante dos jovens até aos 15 anos e que nunca ficaram retidos. A partir desta idade e também para aqueles alunos que, apesar de ainda se encontrarem dentro da escolaridade obrigatória, vivem uma ou mais retenções durante o seu percurso escolar, começa já a marcar-se uma ruptura, com alguma intensidade, com o mundo escolar.
Muitos dos alunos que abandonaram o sistema de ensino, antes de concluírem o 9° ano de escolaridade, encontram-se já totalmente inseridos no mundo do trabalho. Alguns apenas concluíram o 2° ciclo, confirmando-se, assim, a ideia de que os jovens que estão inseridos no mundo do trabalho têm baixas qualificações escolares. Dos jovens que frequentam actualmente o 9° ano, muitos pertencem a grupos etários superiores aos 15 anos. A maioria destes jovens, parecem assim, ter estabelecido uma ruptura definitiva com o mundo escolar, uma vez, que não prosseguem os seus estudos e preferem optar por iniciar uma actividade exterior ao sistema de ensino.
A questão das habilitações escolares é um assunto que preocupa a todos, pela natureza específica e delicada da situação. Apesar de se verificar que muitos jovens possuem baixas qualificações académicas, parece não haver interesse, por parte dos mesmos, em alterar essa situação. Esta “despreocupação” pode ser comprovada pelos seguintes factos:
-->muitos jovens afirmam que não pretendem continuar os estudos após a conclusão do 9° ano de escolaridade;
-->outros afirmam que não se revêem neste tipo de ensino, pelo que quando atingirem os 15 anos de idade, mesmo que não concluam o 9° ano, preferem abandonar a escola e ingressarem no mercado de trabalho.
Em muitas das escolas situadas em áreas rurais, alguns destes estudantes gostariam de ingressar numa das escolas profissionais existentes mas, devido à distância a que as escolas por vezes se encontram das suas residências e às dificuldades encontradas nas mesmas, essa possibilidade toma-se remota sendo praticamente posta de parte por muitos destes jovens.
Quanto aos jovens que têm sempre transitado de ano, apesar de muitos ainda não saberem que grau académico desejam ter, têm porém, consciência das dificuldades inerentes à frequência do ensino secundário e mesmo ao processo de ingresso na universidade.
Características do meio familiar

As características da família são muito importantes para entender as decisões e atitudes dos jovens, quer em relação à escola quer em relação mercado de trabalho. O meio familiar pode influenciar e determinar uma situação de abandono precoce do sistema de ensino.
As características familiares que mais influenciam o percurso escolar dos jovens parecem ser a escolaridade dos familiares mais próximos e o tipo de profissões e ocupações que estes desempenham. Estes pontos podem condicionar o estilo de vida de um grupo familiar e, consequentemente, manipular o estilo de vida dos jovens. Torna-se por isso, importante conhecer melhor as propriedades do meio familiar onde os jovens se inserem, dado que na maioria dos casos parece existir uma correlação positiva entre o nível de instrução dos pais e o nível de instrução dos filhos.
Nas áreas rurais, o 4º ano de escolaridade é o nível de habilitações mais comum entre os progenitores dos nossos alunos. A maioria dos pais e mães conclui apenas o grau académico referente à escola primária e são muito poucos os progenitores que detêm um diploma com habilitações superiores.
As baixas habilitações académicas dos progenitores correspondem, de certo modo, às profissões que desempenham. As profissões que predominam nesta população adulta encerram-se, na maioria das vezes, num conjunto de actividades que não necessitam de habilitações muito elevadas.
Abandono escolar: a situação insatisfatória

Muitos são os jovens que deixam a meio o ano lectivo e poucas são as vezes que se voltam a sentar numa sala de aula. As estatísticas colocam Portugal na cauda da Europa no que toca a abandono escolar, um dos mais extremos fenómenos de exclusão social que atinge as nossas crianças e jovens. Nos últimos anos mais de 15% do total dos alunos inscritos não obtiveram sucesso escolar.
Num futuro muito próximo, esta situação poderá agravar-se muito mais, se nada se fizer para inverter este sentido, uma vez que muitos dos jovens que não transitam de ano poderão sentir atitudes de rejeição face à escola, ficarem desmotivados, baixando a sua auto-estima ou até mesmo diminuir o seu empenho podendo contribuir para o insucesso e, consequentemente, o abandono precoce da escola.
Nesta perspectiva, o estatuto formal destes alunos constantemente retidos pode vir a modificar a relação futura com os seus colegas e mesmo com os professores, podendo originar futuras situações indesejáveis de indisciplina ou de abandono escolar.
Esta saída antecipada dos alunos é negativa mas ela torna-se, sobretudo grave, porque trata-se de uma saída desqualificada. Estes “exércitos” de jovens, que abandonam a escola, muitas vezes atraídos pelo mercado de trabalho, chegam na sua maioria aos meios laborais sem qualquer qualificação profissional. Esta desqualificação profissional constitui-se, essencialmente, como um factor de pobreza persistente. Trata-se de uma pobreza, se assim se pode dizer, precoce, de competências, de saber-fazer e de escolhas. Por tudo isto, torna-se urgente e desejável combater toda esta situação insatisfatória.
Objectivos que actualmente estão a ser prejudicados

São inúmeros os jovens que saem do ensino básico sem competências profissionais para assumirem uma profissão. Uma parte do abandono escolar é o agravamento desta situação. A qualificação destes jovens é importante para eles enquanto pessoas e para a sua dignidade mas, é também importante para o desenvolvimento da região onde vive e para o país em geral.
Nos últimos anos, Portugal desqualificou o ensino técnico e profissional. O desaparecimento das escolas técnicas foi feito por razões sociais, compreensíveis do não elitismo da educação mas, gerou pela sua ausência ou pela sua forte diminuição, uma espécie de “buraco negro” nas qualificações do tecido empresarial, sobretudo, de quadros médios, intermédios e de profissões técnicas diferenciadas. Certamente muitos jovens não gostam da educação formal, centrada no saber cognitivo mas, sim, de uma educação orientada desde o início para o saber-fazer.
Este “fazer” é assim uma forma de não só se evitar a saída precoce, como também de qualificar esses jovens por forma a orientá-los, de acordo com as suas vocações, para que tenham um futuro sem grandes contratempos. Muitos dos nossos jovens não encontram qualquer sentido na escola actual, não encontram, portanto, respostas, projecto de vida ou um projecto de aprendizagem.
Muitos são ainda os professores que dão as suas aulas, “desbobinando” conteúdos que, actualmente, por vezes, já não têm grande sentido. O modelo actual de ensino é, portanto, ainda muito centrado nos conteúdos, não que estes não tenham importância mas, penso que deve ser, igualmente, centrado em capacidades, destrezas e valores. É por tudo isto, que muitos dos nossos alunos não se revêem na escola actual.
Em muitas escolas não existe ainda componente extracurricular (clubes, ateliers, teatro, etc.) que envolva os alunos, ou seja que cativem o seu interesse, motivando-os e, se possível, preparando-os para o futuro em termos de qualificação profissional.
Julgo, assim, que é toda esta problemática, ligada ao saber-fazer como forma de preparar e qualificar, em termos profissionais, os nossos alunos, que os condiciona, prejudica e os deixa na dúvida entre prosseguir os estudos ou resistir a uma sociedade consumista que tanto os atrai. Muitos são os jovens que querem ter, rapidamente, acesso a bens de consumo, como roupas de marca, e, por via disso, se lançam no mercado de trabalho por qualquer apreço, de qualquer maneira, abandonando a escola.
São também muitos os empresários, sem escrúpulos, que acabam por beneficiar desta situação obtendo mão-de-obra desqualificada, mas barata e muitas vezes infantil.
Objectivos que deverão ser atingidos
O problema do abandono escolar afecta toda a sociedade portuguesa, no entanto, é nela que se encontra a solução: Escola, Família e Mercado de Trabalho são determinantes na escolha, dos jovens, entre deixar ou não deixar a sala de aula a meio de uma lição.
Nos últimos anos, com a revisão curricular da educação básica e com a introdução de currículos alternativos, tentou-se travar o abandono escolar, mas, tal parece não se ter revelado suficiente, uma vez, que a nível nacional, não se conseguiu inverter essa tendência. Para que tal venha a acontecer, julgo, que terá de haver um esforço enorme do Ministério da Educação, da família, das Associações de Pais e Encarregados de Educação, da comunicação social, das autarquias, dos sindicatos e de todos aqueles que, têm de certo, uma palavra a dizer sobre o futuro de Portugal. No entanto, todos sabemos que o sistema de ensino apresenta problemas mas, o modelo de desenvolvimento da sociedade parece estar com mais dificuldades que este.
Julgo, no entanto, que o papel dos pais, dos docentes e dos psicólogos torna­-se fundamental na escolha do percurso escolar e das opções a seguir pelos nossos alunos no final do ensino básico. Todos juntos, temos que possibilitar o aumento das oportunidades dos nossos jovens, em termos do seu futuro laboral. São ainda muitos os menores que saem da escola para irem trabalhar mas, também, são igualmente muitos os que vão trabalhar porque saem da escola.
Em que medida podemos contribuir para reduzir ou mesmo eliminar as situações que conduzem ao abandono escolar?
É contra o abandono precoce e a saída desqualificada sem competências profissionais que toda a comunidade escolar deve apostar, elaborando em conjunto projectos de intervenção com o intuito principal de reduzir ou mesmo eliminar este fenómeno das nossas escolas. Também o ensino ministrado deverá motivar, despertar o interesse e orientar os nossos jovens para a futura vida profissional de acordo com as suas vocações e aptidões.
Todos sabemos, que este não é um assunto de fácil resolução e que não existem planos óptimos, nem soluções mágicas, para combater o abandono escolar. No entanto, mesmo assim, todos juntos devemos apresentar soluções/respostas possíveis, por forma a atenuar ou eliminar este problema.
Comportamentos/atitudes que conduzem ao abandono/insucesso escolar
O fenómeno do abandono escolar tem merecido especial atenção nos últimos tempos. Sendo um acontecimento que não aparece por acaso, ele acarreta consequências nefastas para a sociedade em geral, pelo que se torna urgente identificar as causas da sua persistência. As elevadas taxas de abandono escolar que actualmente ainda se verificam, para além das consequências imediatas, têm consequências que só terão efeito no futuro.
O abandono escolar prejudica a produtividade de um país e representa um desperdício lamentável de vidas jovens. O abandono escolar não é só um problema social e educacional, ele é simultaneamente um problema económico.
A caracterização dos jovens que abandonam a escola é imprescindível para se identificar, atempadamente, o aluno em risco de abandono. Identificar o “aluno em risco de abandono” permite que se possa agir sobre ele a fim de evitar a situação real de abandono e conseguir que ele “volte” à escola.
Não existe uma causa única do abandono escolar. Este só recentemente começou a ser objecto de estudo, no entanto já existem várias tentativas de interpretação do fenómeno. São diversos os autores que, na esperança de encontrar uma solução para o problema, o analisaram tentando indicar as suas causas.
Segundo Boudon, a decisão de se continuar ou não no sistema de ensino depende de uma avaliação antecipada, baseada em cálculos que os jovens e as suas famílias fazem em termos de custos, riscos e vantagens. Estes cálculos dependem directamente da situação escolar do jovem e da forma como se avalia o interesse do mesmo em continuar ou não no sistema de ensino, bem como dos riscos que se terá de assumir no futuro. Esta decisão é, assim, fortemente marcada pela posição social da família.
A família exerce, assim, uma grande influência na decisão dos seus educandos em prosseguirem ou não os estudos. As precárias condições sócio-económicas de muitas famílias conduzem muitos dos nossos jovens a entrarem prematuramente no mercado de trabalho.
Segundo o modelo teórico de Ferrão (1995) as várias causas do abandono escolar tem três focos principais: Escola, Família e Mercado de Trabalho: para este autor numa das três entidades reside a explicação da maioria das situações reais e potenciais deste fenómeno. Com base nos estudos efectuados pelos autores supracitados, pode-se afirmar que existem factores de ordem social, cultural e económica que condicionam o sucesso escolar e, consequentemente, o abandono precoce do sistema de ensino. Realizando um cruzamento entre os vários estudos passa-se a enumerar os comportamentos/atitudes conducentes ao abandono escolar:
-->Desmotivação dos alunos - o ensino que a escola actual dispensa é ainda muito centrado em conteúdos, enquanto deveria se mais no saber-fazer, levando muitos alunos a revelarem um grande desinteresse pelas matérias leccionadas e falta de empenho na resolução das tarefas propostas pelos professores;
-->Desestruturação das famílias - famílias monoparentais, muitas desfavorecidas nos planos cultural e económico. A pressão familiar face às dificuldades económicas e perante uma sociedade consumista faz com que muitos jovens se lancem rapidamente no mercado de trabalho;
-->Problemas pessoais - estes problemas podem muitas vezes estar ligados directamente à falta de apoio dos pais ou à inexistência dos mesmos, à influência de más companhias que podem conduzir os jovens por caminhos ilícitos, como a droga e a indisciplina, por vezes aliada à revolta. A análise seguinte refere-se à opinião de professores acerca das possíveis causas do abandono escolar e as razões apontadas estão intimamente relacionadas com o sistema de ensino:
-->A desmotivação;
-->As dificuldades de aprendizagem;
-->Não gostar da escola;
-->O insucesso escolar.
A escola é assim responsável por muitos casos de abandono escolar, pois não consegue manter os jovens inseridos no sistema de ensino. A escola não consegue igualmente, motivar os alunos para os estudos, pois não consegue apreender as necessidades individuais de um aluno. A escola tem tendência para excluir os alunos que não se adaptam ao seu sistema uniforme e monolítico. No sistema de ensino existem desigualdades que a escola não consegue combater, sendo muitas delas as responsáveis pelo mau sucesso e, consequentemente, pelo afastamento do jovem do mundo escolar.
Efectivamente, o insucesso escolar contribui para que o jovem se sinta mal no ambiente escolar, ficando desmotivado e desgostoso com a escola, acabando por reprovar. Esta situação pode provocar a ruptura do jovem com a escola, pois o facto de ter de repetir o ano como forma de castigo, leva o aluno a afastar-se de quem o rotula com sentido perjurativo. Se a reprovação já era difícil, sendo marcada de “más notas” e “repreensão”, mais difícil ficará após lhe ser passado um atestado oficial de insucesso.
A motivação de um jovem na escola, que tem dificuldades de aprendizagem e de integração, diminui quando ele experimenta uma situação de reprovação. A própria auto-estima do jovem é afectada e isso pode ter consequências nefastas quer a nível do percurso escolar, quer a nível da vivência em sociedade.
O absentismo, o desinteresse pelas matérias leccionadas, o mau comportamento que não possibilita estar atento à aula, o pouco tempo dedicado aos estudos são algumas das razões que podem dar origem ao insucesso e, consequentemente, ao abandono escolar. A relação que o jovem estabelece com o professor, ou professores, tem muita influência no modo como os jovens encaram a escola. O facto de se gostar, ou não, da escola também vai condicionar o abandono da mesma. O gosto pela escola passa, muitas vezes, pela relação professor/aluno, embora não seja só nesta relação que se baseia o gosto pela escola e pelos estudos, mas pode-se dizer que esta relação é a base de tudo o que se passa na escola e que pode estar, portanto, na origem do abandono escolar.
Ainda envolvendo a escola temos que ter em conta a distância que o jovem tem de percorrer para chegar a ela. Quando a distância é grande, o jovem tem dificuldades acrescidas, pois o facto de estar longe de casa todo o dia e o tempo que gasta nos transportes são algumas particularidades que afectam quem não vive ao pé da escola. Deste modo fica, imperativamente, afectado o tempo que o jovem pode dedicar aos estudos, tendo implicações na sua vida estudantil, mas também retira tempo de lazer, traduzindo-se por um factor negativo, que pode conduzir ao abandono escolar. Para muitos dos alunos as condicionantes económicas parecem marcar fortemente a decisão de abandonar o sistema de ensino e são muitos os jovens que o fazem, sobretudo porque não t~em condições que permitam suportar as despesas escolares.
Neste campo, as principais razões apontadas por muitos destes alunos são:
-->Dificuldades económicas;
-->O desejo de ganhar dinheiro;
-->O desejo de independência, nomeadamente, autonomia financeira.
As características económicas das famílias condicionam a frequência escolar dos filhos, assim como as actividades desenvolvidas pelos pais.
A componente económica pode ter intervenção directa no prosseguimento dos estudos, uma vez que existem, apesar do ensino ser por lei gratuito, despesas escolares que os pais não podem evitar, nem suportar. Essas “pequenas” despesas podem ser incomportáveis para um grande número de famílias que concentram, maioritariamente, as suas actividades no sector industrial. Os empregos neste sector não permitem, na sua maioria, auferir um rendimento muito elevado, pelo que torna difícil corresponder às exigências económicas impostas pela escola.
Em relação ao meio familiar, as principais razões apontadas pela maioria destes alunos são:
-->Falta de apoio familiar - a falta de apoio extra e a ocorrência, por vezes, de conflitos familiares são factores que contribuem para a dificuldade de aprendizagem, uma vez que podem originar no adolescente problemas de ordem afectiva e, até mesmo, dificuldades de integração social no meio que o rodeia);
-->A desvalorização dos estudos. De facto é inquestionável a influência que as características do meio familiar tem sobre os modos de vida dos jovens e sobre as decisões que estes tomam. A escolaridade dos progenitores está intimamente relacionada com a escolaridade dos filhos, havendo uma relação positiva entre a da mãe e a dos filhos.
Muitos jovens cujos progenitores desenvolvem uma actividade por conta própria são levados a “ajudar” os pais nas suas actividades principais, ou nos conhecidos “biscates”, sobretudo de fim-de-semana.
A desvalorização que os progenitores demonstram pelos estudos também tem alguns efeitos sobre o jovem. Numa casa onde não se valoriza a formação escolar dificilmente o jovem se sentirá motivado para prosseguir os estudos. Se os pais pressionam o jovem para que este inicie uma profissão, este tenderá a responder positivamente à pressão.
Não é possível esquecer que a pressão que os pais exercem sobre o jovem para que este entre no mercado do trabalho tem origem exactamente no mercado de trabalho, pois este “luta” em duas frentes: pressiona o jovem e pressiona os pais. Ao jovem “mostra-lhe” as vantagens imediatas da inserção na vida activa (ganhar dinheiro, ter autonomia, ter um emprego) e “esconde-lhe” as desvantagens imediatas, ou seja que só se farão sentir num futuro “longínquo”. Aos pais “convence-os” de que um investimento a curto prazo nos filhos representa maior lucro, do que um investimento a longo prazo, pois os projectos de vida a longo prazo não têm sucesso neste tipo de famílias.
Ao empregar mão-de-obra desqualificada, em termos de formação escolar e profissional, o mercado de trabalho envolvente da área de residência é assim um óptimo chamariz para quem corresponde a tais características. Se o mercado de trabalho não recebesse jovens com instrução baixa, eles teriam que manter-se na escola, já que não tinham outro tipo de actividade para desenvolver.
As razões apontadas como geradoras do insucesso escolar e, consequentemente, do abandono precoce do sistema de ensino são inúmeras. Todavia, pode-se concluir que, de todas elas, a desmotivação é a mais importante.
A desmotivação aliada a um enorme desinteresse por parte dos alunos conduz, inevitavelmente, a uma inerente falta de estudo, falta de empenho na resolução das tarefas propostas e a dificuldades de concentração na sala de aula.
Outro problema é a falta de conhecimentos que deveriam ter sido adquiridos em anos transactos, origina, por vezes, um atraso dos alunos, conduzindo-os, na maioria das vezes, ao insucesso escolar. Outro problema é a deficiente utilização de estratégias de ensino-aprendizagem por parte de alguns professores, que se limitam a debitar conteúdos em detrimento do saber-fazer, bem como as suas atitudes levam ao aparecimento de dificuldades em termos de aprendizagem nos alunos.
Esta situação, aliada, na maioria das vezes, a turmas com um número elevado de alunos, contribui para uma crescente desmotivação dos jovens. Assim, se os alunos se sentirem 'agarrados' à escola, provavelmente sentir-se-ão mais motivados com uma maior auto-estima e mais predispostos a prosseguirem os estudos.
A procura de soluções/exequibilidade

A identificação anterior dos problemas que contribuem para a desmotivação dos nossos jovens leva-me a concluir que é importante uma educação orientada para o saber-fazer, de modo a qualificá-los para a sua futura vida laboral. A orientação escolar dos nossos jovens é importante e, para que tal aconteça, o papel dos pais, professores e psicólogos é crucial nas escolhas do percurso escolar e nas opções a seguir pelos alunos no final do ensino básico.
A qualificação dos adolescentes é importante para eles como pessoas e para a sua dignidade, mas reflecte-se de igual importância para o desenvolvimento de toda uma região e até mesmo do país.
Um aspecto muito importante na prevenção do abandono escolar é a criação de condições físicas nas escolas, tais como laboratórios, ginásios, bibliotecas e todo um conjunto de condições que são fundamentais para o sucesso efectivo dos nossos jovens.
É premente a criação de um conceito de escola completa, que tenha todas as condições para que haja uma educação global e plena dos nossos jovens. Mas, se as infra-estruturas são fundamentais, o mais importante são a qualidade pedagógica e a qualidade humana, ou seja a relação pedagógica daquilo que nós conseguimos dentro da escola e dentro da sala de aula.
Toma-se, assim, indispensável, por um lado, uma reorganização pedagógica da escola, que valorize a dimensão curricular/lectiva, constituída pelas disciplinas, os seus programas, as suas metodologias e os seus regimes de avaliação, mas também, por outro, uma reorganização estrutural das actividades extracurriculares que a lei de bases chama de complemento curricular. Esta necessidade prende-se com a preocupação e orientação vocacionais dos nossos alunos.
Se a certa altura dermos aos nossos jovens a possibilidade de, não apenas, frequentarem aquilo a que a sociedade os obriga, que são as aulas para aprenderem as diversas disciplinas mas, se lhes permitirmos que haja espaço devidamente organizado para eles se dedicarem a actividades culturais, desportivas e de formação profissional que considerem extraordinariamente importantes para a sua pessoa e para a sua reorganização pessoal, o que corresponde a vocações profundas que eles tenham, nós estaremos a combater a escola “chata”, a introduzir a alegria e a reconciliarmos os jovens com a ela.
Sei, no entanto, que nem sempre é fácil conciliarmos a concretização destes objectivos com os recursos físicos e humanos existentes nas escolas. Em termos de recursos humanos devemos sempre de ter em conta, por um lado, as experiências dos professores, do pessoal não docente e de outros intervenientes e, por outro, a sua disponibilidade em termos de tempo.
Quanto aos docentes desde que os seus horários sejam elaborados tendo em conta as actividades lectivas, mas também a possibilidade de contemplarem actividades extracurriculares, de acordo com as suas experiências, alguns dos obstáculos à prossecução de planos com vista à redução ou eliminação do abandono/insucesso escolar estarão decerto ultrapassados. Tudo deverá ser feito de modo a possibilitar que os nossos jovens se sintam compensados no sistema de ensino.

Autor: Professor Joaquim Madruga
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6 comentários:

  1. Amigo,parabéns pelo excelente artigo e obrigada!
    Abraço
    Miguxa

    ResponderEliminar
  2. se os professores esquecem os salarios pois sao contratados pelo estado que nao passa de um criminoso chinelo da pior especie e se superassem pelo alunos tudo mudaria.

    ResponderEliminar
  3. Adoraria saber o nome do escritor desse artigo,onde estuda ou trabalha, ou se está desenvolvendo alguma tese, pois está maravilhoso..........

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  4. Gostaria de utilizar alguma informação aqui exposta mas também preciso do nome do autor para utilizar como referência no meu projecto sobre GAP (Gabinete de apoio ao Aluno e à Família)... utilizando alguns pontos para o diagnóstico social ... Obrigado! Bom Trabalho! Keep up the good WORK! Licínia Torres CYW/AS

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  5. fumem esse e nao chateiem
    Ass HRAMOS2

    ResponderEliminar
  6. Boa noite, gostaria de saber o nome do autor para usar como referência num artigo académico que estou a desenvolver, se puder ser (:

    ResponderEliminar

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