Vila Franca de Xira: (Portugal)

A porta do Ribatejo
VILA Franca de Xira é rincão do Ribatejo.
É no século XII que apa­rece o nome de Xira, ou Cira, isto é, monte inculto. Quanto à designa­ção de Franca foi originado pelo facto de ter tido um primeiro povoamento por francos em 1147. Foi em Vila Franca de Xira que D. João II ordenou a construção de uma armada para uma expedição a África.
D. Manuel concedeu foral novo em 1510 e em 1823 ficou assi­nalada pelo movimento chamado «Vila-Francada» -revolta militar absolutista contra o reino liberal­ que veio pôr termo à Constituição Portuguesa de 1820. Tal motivo levou a que, durante certo tempo, fosse desig­nado por Vila Franca da Restau­ração.
Banhada pelo Rio Tejo, tornou-se uma progressiva cidade, centro de uma importante região industrial. Mas Vila Franca de Xira não é terra que se caracterize somente sob o ângulo do económico: pátria dos campinos e da «festa brava» é tam­bém valorizada pelas suas belas tra­dições e pelo valor arquitectónico de algumas antiguidades.

Nota: na figura (em cima) Vista panorâmica da cidade de Vila Franca De Xira.

São edifícios de evidente inte­resse, no concelho de Vila Franca de Xira, a igreja de S. Pedro, em Alverca do Ribatejo, reconstruída em 1867; a igreja matriz de Cachoeiras (freguesia rural), de invocação de Nossa Senhora da Purificação, a qual possui um res­saibo da época quinhentista; a igreja matriz de Alhandra (freguesia urbana do concelho), fundada em 1558 pelo cardeal D. Henrique, mas inteiramente reconstruída, depois de um grande incêndio, em 1887; o Convento de Nossa Se­nhora de Subserra, na freguesia de S. João dos Montes (freguesia rural), construído em 1525 por D. Fernando de Ataíde, embora em ruínas, conserva alguns vestígios de interesse para a sua história; a igreja de S. Bartolomeu, em Castanheira do Ribatejo (freguesia urbana) - o mais notável templo do concelho - que foi iniciativa do bispo D. Jorge de Ataíde, e possui uma só nave, ampla e alta, iluminada por frestas chanfradas, mantendo ainda o ambiente da igreja quinhentista; a igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Vialonga, possui valiosos azulejos do século XVIII e uma grande tela do final do mesmo século com a pintura representando a Assunção de Nossa Senhora; a igreja Matriz de Vila Franca de Xira, fundada em 1677 e reconstruída depois do ter­ramoto de 1755; a igreja da Miseri­córdia, também na sede do conce­lho, é um edifício, da 2.a metade do século XVI, forrado de painéis de azulejos do século XVIII, com cenas referentes às obras de miseri­córdia e possuindo um altar do século XVII: o Convento de Santo António, hoje propriedade particular, na posse de descendentes do grande navegador Vasco da Gama, conserva ainda recantos pitorescos, mas foi notável, sobretudo pela igreja quinhentista, panteão dos Ataídes, na qual existe também uma belíssima capela de estilo renascentista erigida pela mesma família; a capela do Senhor da Boa­-Morte, é templo modesto, mas com alguns motivos de interesse, nomeadamente os seus azulejos seiscentistas, em que se destacam alguns com figuras humanas.

Nota: na figura (em cima) coreto e vista parcial da estação ferroviária da cidade.

Outros monumentos são ainda dignos de ser visitados: o Monu­mento das Linhas de Torres, na freguesia de Alhandra, no Alto do monte que domina aquela vila; dois obeliscos - padrões do termo de Lisboa - marcam o termo da capital portuguesa (Lisboa) e foram cons­truídos para comemorar a inaugu­ração da estrada do tempo de D. Maria I; o pelourinho de Vila Franca de Xira, com as suas escadas da época manuelina, datando prova­velmente da concessão do novo foral, em 1510; o pelourinho de Povos (junto a Vila Franca de Xira), da época manuelina, - de coluna torsa lavrada com motivos florais e quatro brasões ao alto; o chafariz do Alegrete, em Vila Franca de Xira datado de 1797, com as armas reais; o chafariz de Povos, na freguesia da sede do concelho, construção de cantaria, formando grande nicho, coroado por pirâmides e ostentando, ao alto, o brasão dos Ataídes.

Nota: na figura (em cima) monumento das Linhas de Torres, Alhandra.

Algumas quintas e casas nobres merecem, também, referência, nomeadamente o Palácio do Sobralinho (perto de Alverca), rodeado de formosos e aprazíveis jardins; a Casa Galache, com especial interesse arquitectónico, possuindo na fachada belos azulejos do século XVIII; e a Quinta da Fábrica, em Povos, onde foi instalada em 1729, no tempo de D. João V, a primeira fábrica de curtumes. Se Vila Franca de Xira não se pode considerar uma terra com: património histórico excepcio­nal, quis a natureza compensá-la com uma autêntica rede de magní­ficos miradouros, tão interessantes são as paisagens que deles se avistam que quase valia a pena propor um passeio turístico para os visitar.

A poucos minutos do centro da sede do concelho, e excelente­mente servidos por estrada asfaltada de bom acesso, localizam-se os miradouros do Senhor da Boa Morte, Monte Gordo e da Boa­-Vista. No monte sobranceiro a Povos, situa-se o do Senhor da Boa Morte, de onde surpreende visão do Rio Tejo e a beleza das suas margens, o belo vale das Aguas Férreas e os afamados pomares de Povos e de Casta­nheira do Ribatejo, numa variante estonteante de tons e matizes de luz. A vetusta capela existente no monte é outro dos motivos de atracção, podendo dizer-se que é este um dos locais mais aprazíveis do concelho.

O Miradouro do Monte Gordo, situado na escarpa da elevação com o mesmo nome, debruça-se sobre o casario da cidade, que se esbate sobre a lezíria grande de Vila Franca. De grande interesse para o turista são também os moinhos de vento que se encontram no monte e arredores (alguns, mesmo a maior parte, caídos em desgraça), erguendo-se ainda como um desafio simbólico à era industrial.
Em região acidentada e pitoresca, muito próximo do lugar do Casal da Coxa, está o Miradouro da Boavista. Daqui se vislumbra um outro ângulo da paisagem, assim como o vale de Santa Sofia, e não muito ao longe, a ponte sobre o Rio Tejo. Mas a ronda dos miradouros não fica por aqui, pois termina no do Forte, na freguesia de Alhan­dra, a poucos metros da estrada nacional nº. 10 que liga Vila Franca a Lisboa. Recanto de alto valor turístico, foi construído para fazer parte das Linhas de Torres Vedras, aquando das invasões dos franceses.

Nota: na figura (em cima) barco varino e a ponte Marechal Carmona, no rio Tejo.

As esperas de touros e as touradas

Tirando a romaria ao Senhor da Boa-Morte, em quinta-feira de Ascensão, com missa, procissão e arraial ao redor da velhinha capela erguida no monte que ladeia Povos, ali às portas de Vila Franca, todas as outras manifestações que com­põem o calendário de festas desta cidade ribeirinha têm como prato forte e obrigatório as esperas e as touradas. Dizem as más línguas que as festas se realizam para dar azo a que o público aficionado tenha o pretexto de se reencontrar com a «festa brava».

Nota: na figura (em cima) as tradicionais esperas de gado nas festas seculares do Colete Encarnado, em Vila Franca de Xira.

Nas três estações do ano mais propícias aos festejos ao ar livre, os touros e os campinos fazem atrair a Vila Franca milhares e milhares de forasteiros.
Na Primavera, a Feira de Gados, que se realiza no 1º Domingo de Maio. Ao Campo do Cevadeiro (na cidade) começam a chegar, manhã cedo, os melhores exemplares das raças equídea, bovina e lanígera, que têm na Lezíria, para lá do rio, as pastagens mais suculentas; e, à tarde, na Praça de Toiros Palha Blanco - um nome que se distinguiu na região - tem lugar uma tourada à portuguesa, em que actuam os mais hábeis cavaleiros tauromáquicos e os mais des­temidos grupos de forcados.
Nota: na figura (em cima) entrada de toiros pelas ruas da cidade de Vila Franca de Xira.
Em pleno Verão, no primeiro sábado de Julho começam as típicas festas do Colete Encarnado, com esperas de touros e touradas e ainda a já tradicional «Noite da Sardinha Assada». Não se conhece outra terra portuguesa onde o público encha uma praça para assistir a uma corrida de touros, que começa às 3 horas da madrugada!
N o Outono, quando já quase todos os produtos da terra recolhe­ram aos celeiros e aos lagares, o 1º Domingo de Outubro é de festa rija em Vila Franca. A secular feira anual de Outubro começa nesse dia e estende-se até quinta-feira seguinte, havendo todos os dias esperas e touradas. A Feira de Vila Franca é a única das que se realizam no País, de carácter verdadeiramente tauro­máquico.
Nota: nas duas figuras (em cima) corrida de toiros na Praça Palha Blanco em Vila Franca de Xira.

A tendência para fazer da festa de touros o motivo principal do cartaz turístico desta terra, confirma em absoluto a afirmação que há muito se fez, ­de que «Vila Franca de Xira é, por direito e tradição, a terra portu­guesa de melhores pergaminhos tauromáquicos».

O Campino e a Lezíria
Por esta região andaram os árabes em correrias, na planura vasta das terras chãs, cavalgando os seus ginetes nervosos e ágeis como os ventos do deserto. Deles herdaram os campinos o porte galhardo do seu busto airoso, o segredo de domar corcéis e a valentia pimpona com que domi­nam os toiros. Ficou o saudo­sismo do seu olhar no veludo negro das moçoilas, e a tez bron­zeada das moçoilas ardentes, como canículas de Agosto - como diz Alves Redol (famoso escritor de Vila Franca de Xira). Dos ára­bes colheu o marnoto o saber das salinas e a candura das velas brancas poisadas nas ribas direitas.
Lazirat - ilha ou terra alaga­diça cercada de água - que a corruptela transformou em lezí­ria, lezira ou lizira, é ainda uma herança árabe. Por toda a Borda de Água, regra geral, os terrenos são lezirentos, criados à babu­gem das águas do Tejo, sempre disposto a galgar acima, se as chuvas engrossam ou a nordes­tia uiva, mastigando as praias num goivar constante, cobrindo ínsuas e mouchões pelas marés vivas, formando alvercas e lezi­rões.

Nota: nas duas figuras (em cima) o cavalo e os toiros, partes integrantes da paisagem vilafranquense.

A lizira do Galego, a lezíria da Atalaia, em terras da Scalabis Castrum, e a lezíria de Vila Franca, são as mais famosas. De tudo isto nasce o campino, e o toiro, que formam com a lezí­ria uma trindade indissolúvel. Campinos, raça distinta, emblema do Ribatejo. Vestem jaqueta negra ou castanha, com colete encar­nado, calção azul, meia branca, feita a agulha - obra de suas mulheres, noivas ou filhas - e sapato de bezerra. Na cabeça, o barrete verde, e nos dias de festa adornam o fato com botões de prata ou dourados, e o escudo da ganaderia, sobre o coração cheio de orgulho. Alguns vivem ainda - como reza a tradição - em cabanas armadas nos serrados onde pastam os toiros à sua guarda e, uma vez por semana visitam o «monte» ou a aldeia próxima, para levar o que hão-de comer na mansidão da sua soli­tude: azeite, feijão ou grão, fari­nha de trigo ou pão já amassado e cozido.
Nota: na figura (em cima) concentração de campinos na lezíria grande de Vila Franca de Xira.
Tudo isto salta para dentro do alforge que viaja aos ombros ou na sela do cavalo, assim como a pele de bezerro que o cobre e a manta que o defende do frio e da chuva. Baila ao desafio o fandango com os seus iguais, ao ritmo do harmó­nio, rendilhado figuras de prodí­gio com os pés, acto que os da conclava atribuem a vitória ao mais ágil e de maior fantasia de passes. Por hábito e instinto cavalei­ros, «campinam" em recortes e comandam, desafiam e castigam os toiros com a vara (reminiscên­cia da lança) que manejam habil­mente. Entusiasmam-se como os moiros quando correm toiros, «correndo a pólvora", excitam-se, eles, os cavalos e os toiros, numa cavalgada empolgante em que todos se confundem.
Nascidos entre choupos e sal­gueiros, nas lezírias e nos mou­chões, cedo aprenderam a arte de atirar pedradas certeiras aos toiros que se desmandam, en­quanto o maioral, seu pai ou avô, dorme a sesta no cabanão. Cres­cem temperados pelas chuvas, bailados pelo vento e secos pelo sol, lá longe das aldeias e dos homens. Ficam-se de poucas falas e amigos, que para estes lhe bastam as rezes que viram nascer. Conhecem-nas pelos nomes, quem os fez e as pariu, estudam-lhes os caracteres e sabem da bravura de cada uma.
Topam as reacções dos bezer­ros na apartação das mães, quando da desmama e depois quando os ferros os marcam com as letras das ganadarias. Cuidam­-se-lhes das feridas e mazelas que as lutas entre eles vão abrindo, na disputa da fêmea. Um dia partem para serem lida­dos. Saindo bravos são a alegria do campina. Quando mansos, na volta ao campo, metem-nos à charrua, na difícil «amansia da brocha" pois o que não pode ser touro passa a «boi da terra", e passa a ser olhado com desprezo e tristeza.
E quando a cheia vem num tropel de morte, o campino trata de salvar os bravos toiros, os seus ami­gos, empenhado pela sorte da ganaderia brava que é o seu orgulho e honra.
A terra onde o fandango é rei
A música e a dança de Vila Franca de Xira e de toda a região ribate­jana possuem características pró­prias, que as distinguem das dife­rentes regiões de Portugal. O povo ribatejano canta e dança nas suas festas e romarias, como nenhum outro.
Características são o verde gaio, vira, bailarico, fandango e saias «estas é que são as saias». Nas últimas décadas, algumas têm caído em desuso e somente graças ao esforço de colectividades e grupos regionais e folclóricos ainda vão sobrevivendo. Pena é que esses exemplos não frutifiquem mais, para que esta riqueza do patrimó­nio não só se não perca, como man­tenha uma pureza a todos os títulos necessária.
A dança típica de todo o Riba­tejo, é o fandango. Dança de agili­dade, sapateado, espécie de torneio no qual o homem pretende atrair as atenções femininas, salientando-se na presteza e na plasticidade dos seus movimentos, transformando os pés em bilros. Com a sua jaleca, calças apertadas, carapuças inquie­tas, ninguém ultrapassa os ribateja­nos no fandango. E capricham tais dançarinos, que, nos velhos tem­pos, ensaiavam diante das árvores. A quadra popular bem corrobora a afirmação:
Para tocar, o algarvio,
P'ró fandango, o Ribatejo,
P'ra campinos, Borda d’Água,
P'ra cantar, o Alentejo.
O fandango dança-se, ainda, para demonstrar perícia, com uma gar­rafa ou um copo equilibrado na cabeça, embora o sapateado seja forte. Apesar de ser a dança por exce­lência do Ribatejo, ela é oriunda de Espanha. Começou a dançar-se com intensidade, entre nós, no sécu­lo XVIII. O próprio Gil Vicente fez alusões ao fandango, na farsa de «Inês Pereira» quando o escudeiro canta o romance «Mal me quierem em Castilla».
Latão, já o sono é comigo
Como oiço cantar guaiado
Que não vai esfandangado.
O fandango, dança popular, tanto em Espanha como em Portu­gal, exibe notáveis diferenças entre uma e outra forma. Os nossos vizi­nhos dançam-no com castanholas e cantando, ao passo que o português é quase exclusivamente dançado, e as castanholas são substituídas por qualquer outro instrumento ou grupo de instrumentos, segundo as disponibilidades do momento, ou as características da região. O seu ritmo é ternário. Advertem-se, con­tudo, outras diferenças entre um e outro.
O espanhol é mais vivo e intercalado de ritmos complemen­tares; o português, é moderado, e de estrutura rítmica simples. No en­tanto, para se dançar o fandango só se atrevem as pessoas de grande fôlego.
O ribatejano, novo ou velho, sente-se sempre entusiasmado ao escutar ou ver dançar o fandango. Todas as camadas sociais o dan­çam, porque não há quem não saiba prender os polegares nas cavas do colete e, pior ou melhor, iniciar marcações, algumas destinadas somente àqueles que possuem per­nas e pulmões para as enfrentar, não só com elegância, mas, tam­bém, com a resistência suficiente para levar ao fim a dificultosa tarefa.

5 comentários:

  1. Viva o fandango, viva o campino, viva o Ribatejo!!!
    Sou campino fandanguista à muitos anos, sou um Borda d’Água com muito orgulho ...

    Não podemos acabar com as nossas origens nem com a nossa tradição, eu luto por isso!

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  2. Bom trabalho... Parabens porque trabalhos destes fazem falta para mantermos as nossas raízes.
    Apenas um pequenito promenor, a foto da pega não é na nossa querida Palha Blanco, mas ok é apenas um promenor... mais uma vez parabens

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  3. O Fandango,campino,Leziria,o Rio Tejo,o Barco Varino, Monumentos e a Vista Aérea de Vila Franca Xira è o Ribatejo!!!
    Parabéns pela vosso site e pela criação desta página à Porta do Ribatejo, está muito bem estruturada e não esquecendo das nossas origens.
    Castanheira do Ribatejo
    Jaime Pereira

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  4. podia dizer as características da agua do concelho de Vila Franca de Xira

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  5. Sou de Samora Correia,a minha meninice foi na Lezíria,no Juncal.
    O meu avô foi abegão do Ganadeiro Francisco dos Santos Alfaiate de Vila Franca de Xira.
    Aprendi muito sobre a vida, a observar o gado bravo, cavalos e sementeiras nos campos,que nessa altura transpiravam de vida.
    A nossa identificação não pode omitir o nosso passado.
    São as nossas origens.
    Jose romano

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