Daltonismo: ser diferente entre iguais

Daltonismo: olhar o mundo de modo diferente
Um olho saudável é capaz de distinguir 15 mil tonalidades, com a visão colorida a assentar na percepção de três cores fundamentais - o azul, o verde e o vermelho. Mas há pessoas cuja visão colorida sofreu uma modificação, pelo que apenas distinguem duas dessas cores. São pessoas daltónicas. O mais frequente é que não diferenciem o verde do vermelho, reconhecendo somente o amarelo e o azul-violeta. Mas também acontece que confundam o azul e o amarelo, embora esta forma de daltonismo seja mais invulgar.
Mais rara ainda é a incapacidade de distinguir qualquer das cores - a pessoa vive num mundo a preto e branco, pontuado por graduações de cinzento. É ao nível da retina que radica a explicação para esta perturbação da visão. Nesta membrana que cobre a face interna do olho localizam-se as células foto­ receptoras, os chamados cones, que nos permitem perceber as cores. São três os tipos de cones, tantos quanto as cores fundamentais: os vermelhos, os verdes e os azuis, cada um deles sensível a um pigmento específico.
O que acontece é que, numa pessoa daltónica, há cones que funcionam mal ou simplesmente não existem, pelo que o cérebro não recebe a informação que lhes permite descodificar a respectiva cor. Normalmente, apenas um tipo deles está ausente - quase sempre o vermelho, mais raramente o azul ou o verde. Excepcionalmente, podem faltar dois tipos, falando-se então em monocromatismo. Mais raramente ainda, acontece faltarem os três tipos - estamos perante um quadro de acromatismo, em que a pessoa está privada de cor.
As "culpas" por esta anomalia devem ser apontadas à hereditariedade. E ao cromossoma sexual X. Nas mulheres, que possuem dois destes cromossomas, a presença de um gene anormal é, quase sempre, compensada por um gene normal existente no segundo cromossoma. O que significa que a mulher pode ser portadora do gene do daltonismo e passá-lo aos seus filhos, sem, contudo, ser afectada. Para ela própria ser daltónica era preciso ter recebido dois cromossomas alterados, um da mãe e outro do pai, o que é raro.
Já nos homens, que possuem um cromossoma X e outro Y, não é possível compensar o gene anormal transmitido hereditariamente. Daí que o daltonismo predomine no sexo masculino (calcula-se que afecte oito por cento dos homens, contra 0,45 por cento das mulheres). Porém, não passam o gene para os filhos, apenas para as filhas, precisamente através do cromossoma X.
Como viver com o daltonismo
Se pelo menos uma das cores principais lhes está vedada, ou se a apercebem com grande dificuldade, como vêem os daltónicos? Desenvolvem o seu próprio sistema de referência, substituindo as tonalidades ausentes por diferentes tons de cinzento. E aprendem a conviver com esta diferença cromática, que não lhes afecta a saúde mas condiciona o dia-a-dia. Conduzir, por exemplo, não será tarefa fácil. Pelo menos à primeira vista: se uma pessoa não distingue o vermelho, ou se não distingue o verde, como saberá se deve parar ou avançar num semáforo? Na verdade, pode recorrer ao seu próprio esquema cromático, em que a cor em falta se apresenta disfarçada de cinzento. Porém, para desenvolver uma actividade profissional relacionada com os meios de transporte, ou com as forças de segurança, este recurso pode ser insuficiente - ser piloto de avião, maquinista de comboio ou agente da polícia e não conseguir distinguir claramente todas as cores é uma combinação inviável.
Aliás, aqui radica uma das razões para se fazer o despiste precoce do daltonismo: acontece que, ignorando ser portadores desta anomalia da visão, os jovens percorrem um determinado caminho escolar, com destino a uma profissão que correm o risco de não exercer. Mas o daltonismo pode ser despistado na idade escolar, aquando da primeira visita ao oftalmologista, normalmente por volta dos seis anos, embora se possa efectuar um despiste rudimentar com testes de cores, como nas duas figuras presentes. Mas só pelos dez anos é possível realizar testes que permitem detectar com acuidade o défice cromático da criança. E, uma vez identificada a anomalia, não há necessidade de qualquer vigilância particular, até porque não interfere nas outras funções da visão. E porque, por enquanto, não existe qualquer tratamento que permita restabelecer a percepção normal das cores.
Sinais precoces do daltonismo
Há alguns sinais que denunciam daltonismo numa criança. Cabe aos pais estarem atentos: porque o mais provável é o filho errar na atribuição das cores, nomeadamente quando desenha ou quando se veste. Normalmente, o verde torna-se cinzento e o vermelho mascara-se de verde. Na escola nem sempre é fácil a vida de um pequeno daltónico. Quando a actividade que lhe é proposta implica escolher cores, ele sente certamente dificuldade e baralha-se. Nos cadernos e lápis é sempre possível colar etiquetas, para que ele não se engane. Mas nas aulas de geografia, de química ou de expressão artística poderá ser mais difícil, pelo que os professores devem ser alertados.
Também na rua, a confusão entre cores pode dar origem a incidentes, nomeadamente a atravessar uma passadeira: como uma criança daltónica não distingue o vermelho do verde, convém fazê-la memorizar a posição das cores no semáforo ou identificar a figura luminosa e guiar-se pelos respectivos movimentos.

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Nefrose e Hidronefrose: causas e terapia

O que é a Nefrose
A nefrose, ou síndroma nefrótica, é uma perturbação renal aguda ou crónica que consiste numa lesão degenerativa do rim.
Os rins contêm um grande número de pequenos canais, cuja função é recolher os produtos residuais transportados pelo sangue. Estes canais, denominados nefrónios, são compostos por um glomérulo, enovelamento de vasos sanguíneos enrolados à volta de um túbulo.
O líquido recolhido nos túbulos renais contém vários tipos de sais e produtos residuais transportados pelo sangue; pode conter também proteínas, que no caso de nefrose atravessam o glomérulo e passam para a urina, provocando a albuminúria (presença de albumina na urina). Quando o sangue é pobre em proteínas, existe uma tendência à acumulação de líquido nos tecidos, com consequente aparecimento de edemas.
As causas da nefrose
A nefrose pode ser a consequência de um estado inflamatório do rim após infecção bacteriana ou viral.
Esta, também, pode ser uma reacção a substâncias tóxicas. As mordeduras de serpentes e algumas picadas de insectos venenosos podem deteriorar os rins provocando uma nefrose. As afecções do tecido conjuntivo e as doenças auto-imunes podem ter repercussão semelhante nos rins.

Fig. 1 - A síndroma nefrótica é uma doença que altera o funcionamento dos rins. O rim é constituído por numerosos nefrónios, pequenos canais que recolhem os produtos residuais transportados pelo sangue. Os vasos sanguíneos enrolam-se à volta dos túbulos formando unidades nas quais se efectua a troca sangue-urina.

SINTOMAS:

-->Albumina na urina;
-->Edemas;
-->Sequestração de líquido no abdómen;
-->Dificuldade respiratória;
-->Fraqueza muscular;
-->Cansaço;
-->Anemia.
Terapêutica da nefrose
Quando se deve consultar o médico
Deve-se consultar o médico em caso de dificuldade de micção, moinha na região lombar, pálpebras inchadas ou edemas.
O trabalho do médico
Para diagnosticar a nefrose, o médico requisita várias análises do sangue e da urina, ecografia e, eventualmente, outros exames de imagem. A biopsia do rim pode ser necessária para confirmar definitivamente o diagnóstico.

Fig. 2.

Terapêutica da Nefrose
Só os sintomas podem ser tratados. Quando a urina tem um conteúdo demasiado elevado de albumina, verifica-se uma carência de proteínas no sangue, pelo que se pode prescrever uma dieta com elevado conteúdo proteico. O mau funcionamento do rim, muitas vezes, é tratado com uma dieta pobre em sódio para evitar a retenção de água. No mesmo sentido, também, podem ser usados alguns diuréticos. Quando a nefrose está associada a um estado inflamatório, pode estar indicada a administração de corticóides. Os imunossupressores só podem ser administrados sob controlo médico rigoroso.
Evolução da Nefrose
Quando existem grandes perdas de proteínas, sucede o edema (inchaço) que se pode generalizar. O paciente manifesta dificuldade respiratória, anemia e hipertensão. A evolução da nefrose varia de acordo com a causa da doença. Nas formas primárias, em princípio, a cura requer algumas semanas de terapêutica. A evolução nas formas secundárias a outra doença é determinada pela evolução da causa originária.
A nefrose é grave?
A nefrose pode levar à insuficiência renal crónica, uma perturbação grave que pode obrigar a diálise ou a transplante renal.
O que é a Hidronefrose
A hidronefrose é uma doença dos rins que compreende a dilatação dos canais evacuatórios de urina. A função destes canais é aquela de recolher a urina e encaminhá-la em direcção às vias urinárias. Estes atravessam o rim e formam os cálices que desembocam na pélvis renal, ponto de junção entre o rim e o uréter.
A dilatação manifesta-se quando um obstáculo ao longo das vias urinárias impede o defluxo normal do líquido: determinam-se assim um aumento da pressão e o consequente crescimento do volume da pélvis, dos cálices e dos canais internos do rim, que podem danificar seriamente o tecido renal. O rim, que se tornou um saco inchado de urina, já não pode desempenhar a sua função de depurador.
Geralmente, a hidronefrose atinge somente o rim afectado por uma obstrução e pode ser envolvido todo o órgão ou só uma parte deste. Mas existem também - sobretudo nas crianças ­ algumas formas nas quais uma anomalia congénita ou uma falta de tónus e de mobilidade da pélvis provocam uma hidronefrose bilateral.

Fig. 3 - (1) Secção de um rim são. O tecido renal é indemne. (2) Secção de um rim afectado por hidronefrose: as vias de defluxo da urina (cálices e uréter) estão dilatadas. Esta dilatação pode danificar gravemente o rim e se é bilateral pode levar a insuficiência renal.

As causas da Hidronefrose

A causa mais frequente é um obstáculo ao longo das vias urinárias, entre o rim e a bexiga: um cálculo, a obstrução ou a torção de um uréter, uma doença da bexiga. O obstáculo também pode ser representado por uma anomalia congénita das vias urinárias.
SINTOMAS:
-->Dores lombares;
-->Sangue na urina;
-->Anemia;
-->Cansaço;
-->Hipertensão;
-->Dores gástricas e intestinais;
-->Náusea;
-->Perda de peso;
-->Infecções urinárias repetidas.
Terapia da Hidronefrose
Quando se deve consultar o médico?
Numerosos sintomas podem induzir a consultar o médico: dores lombares imediatamente por baixo da arcada costal, presença de sangue na urina, infecções urinárias recidivantes, anemia e cansaço. Por vezes, são alguns exames de screening ou de controlo a chamar à atenção: anomalias químicas da urina ou do sangue, por exemplo, o exame de controlo de cálculos renais precedentemente diagnosticados.
O trabalho do médico
O médico prescreve análises do sangue e da urina e uma radiografia ou uma ecografia e eventualmente uma TAC para conhecer a extensão exacta da hidronefrose, a sua eventual causa e os seus efeitos sobre o funcionamento do rim.
A terapia da Hidronefrose
A primeira tentativa deve ser aquela de remover a causa: pulverizar ou evacuar um cálculo ou um outro obstáculo ao defluxo da urina, corrigir uma anomalia das vias urinárias. Isto permite parar a evolução e preservar as funções renais restantes.
Se já se manifestou uma insuficiência renal, com uma taxa de ureia ou de creatinina demasiado elevada, é necessário seguir uma dieta pobre de sal e proteínas. Uma hipertensão arterial secundária à destruição do tecido renal requer uma terapia específica. Se não se trata a causa, a hidronefrose desenvolve-se levando à destruição do rim e tornando por conseguinte necessárias a nefrectomia (remoção do rim) e a diálise, sobretudo nas formas que afectam ambos os rins. Nos casos particularmente graves pode recorrer-se a um transplante renal.
Evolução da Hidronefrose
Presente desde a infância nas formas congénitas, a hidronefrose manifesta-se sobretudo no adulto. Enquanto que as causas são muitas vezes dolorosas, a hidronefrose por si mesma desenvolve-se geralmente as sintomaticamente durante anos antes de ser diagnosticada. Nestes casos, o tecido renal é progressivamente e irremediavelmente destruído.
A insuficiência renal que aparece sucessivamente, com reduzida eliminação dos produtos residuais do sangue, pode ser grave em ausência de uma terapia adequada. A hidronefrose é perigosa? Sim, porque destrói os rins, que são indispensáveis para a purificação do sangue e a manutenção do equilíbrio hidrosalino. No entanto, um diagnóstico tempestivo, favorecido pelo lento progredir da doença, pode evitar esta complicação.

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Delirium Tremens: sintomas e terapia

O que é o delirium tremens?
O delirium tremens é uma perturbação da consciência que se acompanha por diversos sintomas psíquicos e físicos. À origem do delirium tremens encontra­se o desenvolvimento inesperado de uma síndroma de abstinência de álcool ou então, mais raramente, de medicamentos com efeito sedativo­hipnótico.
Causas do delirium tremens
Os factores desencadeantes do delírio não são ainda completamente conhecidos. Supõe-se que se trata fundamentalmente de perturbações do equilíbrio electrolítico, por exemplo uma carência grave de magnésio.
Considera-se também que o centro cerebral que governa a respiração, quase anestesiado pelo uso de substâncias que deprimem o sistema nervoso central, se torne hiperactivo no caso de tentativa de desintoxicação. Se explicariam desta maneira a sobreexcitabilidade do sistema nervoso central e a tendência a ter cãibras. Por fim, também a insónia e o cansaço, que se acompanham normalmente pelo uso de estupefacientes ou de álcool, contribuem para o aparecimento do delírio. A angústia, o stress provocado por um paciente ou uma mudança brusca da própria existência podem ser outro tanto factores desencadeantes.
SINTOMAS:
-->Angústia
-->Confusão mental
-->Alucinações
-->Tremores
-->Cãibras
-->Febre
-->Suores
-->Insónia
-->Agitação
Terapia do delirium tremens
O delirium tremens é um acontecimento relativamente frequente entre os alcoólicos que interrompem bruscamente o consumo de bebidas alcoólicas. Se o paciente está na sua casa, é necessário chamar imediatamente um médico. O delirium tremens necessita de cuidados médicos urgentes. O médico providencia, em princípio, ao internamento hospitalar do paciente.
As causas da doença não podem ser tratadas no momento no qual se manifesta a crise de delírio. Procede-se à terapia sintomática através da hidratação abundante e subministração, em infusão intravenosa, de polivitamínicos e ansiolíticos, a fim de evitar complicações muitas vezes fatais, como o colapso e actos de violência suicida. Superada a crise, enfrentam-se as causas profundas do alcoolismo ou da toxicodependencia. O paciente, a este ponto, pode recorrer à ajuda do médico ou de grupos de apoio.
IMPORTANTE:
O alcoólico é uma pessoa doente que, no caso de delirium tremens, necessita de socorro médico urgente, como qualquer doente grave.
Como se desenvolve o delirium tremens
Irritabilidade, nervosismo, agitação motora, insónia ou perturbações do sono com pesadelos podem ser sinais de uma crise. Durante a crise o paciente sofre de angústia e de confusão, por vezes não sabe onde se encontra e não reconhece as pessoas mais íntimas. Vítima de alucinações sobretudo visuais, olfactivas e tácteis, o doente pode ter a impressão de ver e ouvir animais como ratos e aranhas ... As alucinações auditivas são mais raras.
Os discursos do doente, que integra as diversas alucinações por ele sentidas, resultam incoerentes e angustiantes. As ideias de persecução e a sensação de ameaça pela própria vida levam-no muitas vezes a cometer actos violentos considerados por ele como simples autodefesa. Por quanto é possível, por conseguinte, é necessário tranquilizar o doente, mas sobretudo protegê-lo, e proteger as pessoas que rodeiam, desta violência.
É muito importante saber reagir nestas situações de crise para evitar que outras pessoas, como muitas vezes acontece, permaneçam vítimas de actos de violência por vezes homicida. O doente treme e pode sofrer de crises de tetania. Manifestam-se febre e suores. O batimento no pulso é acelerado, superficial e irregular. A respiração é superficial. As pupilas dilatadas reagem lentamente à luz. A funcionalidade hepática pode ser comprometida assim como as toxinas presentes no organismo são eliminadas só em parte. A crise pode durar de um dia a uma semana.
Uma crise de delírio pode pôr em perigo a vida do paciente. Na ausência de terapia, cerca de 15% dos doentes não sobrevive ao coma que segue ao choque circulatório. As terapias permitem que se diminua a taxa de mortalidade a percentagens muito baixas.
Como evitar o delirium tremens
A causa principal do delirium tremens é o alcoolismo crónico. Os indivíduos que sofrem deste problema e os seus familiares devem tentar combater o abuso de bebidas alcoólicas a tempo.
Obs: O álcool não é a única causa do delirium tremens. Sem dúvida; o álcool está na origem da maior parte dos casos de delirium tremens. Para além disso também a suspensão brusca de medicamentos sedativos pode constituir um factor causal de tal perturbação.

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Broadway - um mundo de sonhos

A magia da Broadway
Quando se visita Nova Iorque pela primeira vez, torna-se imprescindível visitar a Broadway, o símbolo mundialmente famoso da magia do teatro. Antes dos espectáculos começarem, acendem-se milhões de lâmpadas que transformam a noite em dia; nessa hora, a Broadway torna-se verdadeiramente um local encantado.
Em plena Manhattan, nesse bairro dos teatros e cinemas encontram-se mais de 30 casas de espectáculos, localizadas a Leste e Oeste da longa avenida em diagonal chamada Broadway, entre as ruas 41 e 53. Um passeio por essas ruas equivale a percorrer a história do teatro. Por exemplo, no Nederlander, na rua 41, outrora chamado National, Orson Welles, então com 22 anos, encenou em 1937 a sua controversa produção do Julius César, na qual os soldados de César envergavam uniformes fascistas.
Grande parte da mística da Broadway deriva da lendária rua 42, exaltada no musical de 1980, do mesmo nome. Essa comédia musical, de ritmo contagiante, apresentava a Broadway como o objectivo máximo daqueles que aspiravam tornarem-se estrelas do palco. Praticamente todos os anos, jovens desconhecidos tornam-se famosos. Há mais de meio século, um jovem cantor magrinho fez sua grande estreia cantando no show de Benny Goodman, no agora desaparecido Paramount Theater, na rua 43. O seu nome, evidentemente, era Frank Sinatra.
E a corista de The Pajama Game, de 1954, que era suplente de Carol Haney, a protagonista número dois? Carol adoeceu, a corista entrou em cena e dançou e cantou maravilhosamente bem. Ela chamava-se Shirley MacLaine; havia um produtor cinematográfico assistindo ao espectáculo, e foi assim que ela se tornou uma grande estrela do palco e da tela.
A Times Square nasceu em 1904, quando o New York Times edificou o prédio e mudou o nome da praça, que dantes se chamava Long Acre Square; é ali que a Broadway bifurca com a Sétima Avenida. Para Oeste, ficava naquele tempo a chamada «Cozinha do Inferno» (Hell's Kitchen), desordeiro bairro operário frequentemente retratado nos melodramas de Jimmy Cagney. A um quarteirão para Leste, ficava a linha férrea elevada da Sexta Avenida. Passado pouco tempo, na Times Square e nas ruas vizinhas foram construídos novos e elegantes teatros, com os elaborados letreiros de néon que deram à Broadway o cognome duradouro de «Grande Caminho Branco» (The Great White Way).
Em 1908, Florenz Ziegfeld, produtor das famosas Ziegfeld Follies, colocou o maior painel luminoso jamais visto até então (com 24 m de comprimento e 14 m de altura) na fachada do seu New York Theater. Continha 2.973 m2 de vidro, pesava oito toneladas e levou 18 km de fio eléctrico. Em torno das suas letras gigantescas, um desenho em ziguezague de raios faiscantes parecia explodir, num irromper de chamas que lambiam o título da peça, Miss Innocence, e o nome da estrela, Anna Held, famosa por banhar-se em leite como a lendária Cleópatra.
Se a Times Square é o coração da Broadway, então uma estátua de George M. Cohan na sua extremidade norte simboliza o seu pulsar. Este extraordinário empresário, compositor, director, cantor e bailarino morreu em 1942, mas continua presente; é conhecido no mundo inteiro através de um filme de Hollywood, Yankee Doodle Dandy, e de um musical da Broadway, George M.! Os que nunca conheceram o verdadeiro George M. Cohan viram Jimmy Cagney, Joel Grey ou Mickey Rooney no papel dele.
A rua 44 é uma das ruas da Broadway preferidas por muitos turistas, onde têm lugar as lendárias festas de estreia no Sardi's, «a renomada sala de jantar das artes do teatro». Há seis teatros na rua 44, incluindo o Helen Hayes, uma sala internacional, o Majestic, cenário de 42nd Street, o Broadhurst, onde a comédia de Neil Simon, Broadway Bound, muito naturalmente conquistou a Broadway. E há o Shubert, onde A Chorus Line, uma exaltação aos musicais da Broadway, esgotou lotações durante vários anos.
A maravilhosa continuidade do teatro mundial está ilustrada na rua 45. Aqui fica o Booth Theater, assim baptizado em honra ao grande actor do século XIX, Edwin Booth, cujo Hamlet esteve em cena durante 100 representações consecutivas. John Barrymore estreou no Hamlet em 1922, mas já falava em abandonar o papel após umas 60 actuações. Uma delegação de personagens do teatro pressionou-o para desistir ao fim da 90.a actuação, pois ninguém devia bater o recorde de Booth. «Cavalheiros», replicou Barrymore. «Parem de viver no passado. Representarei o Hamlet exactamente 101 vezes.» E assim fez.
No Imperial, Drood, a versão musical do romance que Charles Dickens deixou inacabado ao morrer, mostrava uma abordagem inglesa de music-hall ao enredo gótico do romance, rematada por um número irresistível: a cena era interrompida em plena actuação para assinalar o ponto em que ficou o romance de Dickens. Os actores dirigiam-se então ao público, solicitando uma votação para determinar quem era o assassino e, consequentemente, qual seria o fim. «A atmosfera do teatro», disse o Times, «fica tão divertida como se se tratasse de uma audiência composta exclusivamente por ginasiais.»
Uma marca de qualidade da Broadway são os bons elencos. Em 1986, Arsenic and Old Lace, uma comédia acerca de duas velhinhas que serviam vinho envenenado aos seus hóspedes, esteve em cena no Teatro da rua 46, com Jean Stapleton, a Edith Bunker da televisão. Quando estreou, em 1941, o papel do sobrinho louco e homicida das velhas foi desempenhado por Boris Karloff, o monstruoso Frankenstein do famoso filme de 1931. Isso deu a Karloff, 10 anos mais tarde, uma deixa imortal: «Matei-o porque ele disse que eu era parecido com Boris Karloff.»
O Biltmore, o Atkinson, o Edison, o Barrymore e o Palace estão na rua 47. Para aqui têm vindo grandes peças de todo o mundo. Da França, Red Claves, de Jean-Paul Sartre, pro­tagonizada por Charles Boyer, veio para o Mansfield, cujo nome foi substituído em 1960 em homenagem ao crítico de teatro do New York Times, Brooks Atkinson. No Edison estiveram duas peças do dramaturgo sul-africano Athol Fugard, Sizwe Banzi is Dead e The Island.
O Barrymore deve o seu nome a Ethel, que com os seus irmãos Lionel e John formou um formidável trio de actores. Isso porque os irmãos Shubert prometeram a Ethel dar o seu nome a um teatro, se ela assinasse um contrato com eles. Ela assim fez, e eles cumpriram o prometido; Ethel inaugurou o teatro a 20 de Dezembro de 1928, com The Kingdom of God. O recorde do teatro, porém, foi detido de 1947 a 1979 pela peça de Tennessee Williams, A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo), que estreou a três de Dezembro de 1947, com Jessica Tandy, Kim Hunter, Karl Malden e Marlon Brando, que tinha na época apenas 23 anos, num inesquecível desempenho como Stanley Kowalski. (Em 1979, este recorde foi finalmente batido pelas 872 representações de I Love My Wife.)
Há 55 anos, o Palace arriscou em Judy Garland, que estava com 29 anos e tinha sido despedida pela MGM, pois as suas depressões nervosas haviam atrasado demasiados filmes. Judy tentara suicidar-se, e os seus amigos não estavam seguros de que ela tivesse suficiente autoconfiança para voltar ao palco. Mas o Palace passou a ter lotações esgotadas em todas as sessões; os fãs de Judy estavam decididos a encorajá-la, com vibrantes aplausos.
O último dia de Judy Garland no Palace, 24 de Novembro de 1951, foi um momento alto na história da Broadway. Judy terminou o espectáculo cantando A Couple of Swells, de Irving Berlin, vestida de mendiga, exactamente como cantara com Fred Astaire no filme Easter Parade. Chamada a bisar, sentou-se simplesmente na beira do palco e cantou Over the Rainbow. Houve momentos em que chorou, e momentos em que foi o público quem se emocionou até às lágrimas. Foi três vezes chamada ao palco pelos aplausos, mas mesmo assim a plateia não se ia embora. Judy estava manifestamente exausta, de modo que alguém gritou: «Agora somos nós que vamos cantar para Judy!» Com a orquestra tocando Auld Lang Syne, os espectadores começaram a cantar, com a voz de ouro do grande tenor lírico Lauritz Melchior soando acima das outras todas. Numa sala apinhada, 1.686 pessoas, incluindo muitas que adoravam Judy Garland desde os tempos em que ela era a Dorothy do filme O Feiticeiro de Oz, aplaudiam e soluçavam abertamente.
No Teatro Cort, na rua 48, a peça »O Diário de Anne Frank», em 1957, transportava-nos instantaneamente àquele sótão em Amesterdão, onde uma adolescente de 12 anos e a sua família se escondiam dos nazistas. Nessa história verídica, os nazistas conseguem descobri-los, é claro, e levam Anne, cujo papel era desempenhado por Susan Strasberg, para um campo de concentração, onde ela morre. Quem não se lembra de Joseph Schildkraut no papel do pai de Anne, lendo a sua derradeira anotação no diário: «Apesar de tudo, continuo acreditando que as pessoas no fundo são boas.», mas «Ela me deixa envergonhado.» O rio Mississippi foi evocado no palco do Teatro Eugene O'Neill, na rua 49, em Big River, peça baseada no Huckleberry Finn, de Mark Twain. Show Boat, o melhor musical sobre o rio Mississippi, estreou em 1927, mas foi constantemente levado novamente à cena inúmeras vezes. Basta dizer «He just keeps rollin' a!ong» e o mundo inteiro saberá que se está falando de «Ol'Man Riven».
No inverno de 1986-1987, a peça de Bernard Shaw, You Never Can Tell esteve em cena no Circle In The Square, na rua 50. A presença de Shaw na Broadway data de Arms and the Man, de 1894. Em 1957, My Pair Lady, adaptado do Pigmaleão, de Shaw, no Mark Hellinger Theater, na rua 51, foi outra peça que esteve em cena e que fez igualmente grande sucesso. Quando se visita pela primeira vez Nova Iorque, deve-se visitar obrigatoriamente o American National Theater and Academy (ANTA), na rua 52. Neste local emblemático, passaram peças como: Our Town, com Henry Fonda no papel de director de cena, e Harvey, com James Stewart como Elwood P. Dowd e Helen Hayes como Veta Louise Simmons.
Também no teatro da Broadway na esquina da rua 53, a peça Les Miserables, versão musical do romance clássico francês de Victor Hugo, que fora o sucesso londrino de 1986, ao estrear nos Estados Unidos da América em Março de 1987, primou por um sucesso extremo. As suas vendas adiantadas de entradas, que totalizaram uma soma de 11 milhões de dólares, registaram o maior recorde de todos os tempos da Broadway. Todas as noites, multidões de espectadores reuniam-se sob a bandeira tricolor francesa, gigantesca e esfarrapada, suspensa na entrada do teatro, e entravam na fila para ver as barricadas de rua e os esgotos de Paris, evocados num palco da Broadway. Também no começo da década de 1980, estava em cena aqui, a peça Evita, com Patty LuPone cantando, noite após noite, Don't cry for me, Argentina ...
Mas para visitar aquele que é, por muitos, considerado como a quintessência dos teatros da Broadway, dever-se-á visitar o Winter Garden, no nº 1634 da Broadway. Al Jolson inaugurou-o a 20 de Março de 1911. Nesse palco, abriu ele inúmeras vezes os braços, com as mãos calçadas de imaculadas luvas brancas, e gritou a frase histórica: «Pessoal! Vocês ainda não ouviram nada!»
Na década de 1980, o Winter Garden tornou-se palco de um belíssimo musical britânico da autoria de Andrew Lloyd Webber, extraído de Old Possum's Book of Practical Cats, de T. S. Eliot. O musical chama-se Cats, e a Broadway chorava, bem como os diversos locais do mundo por onde esta peça tem passado, quando a gatinha maltratada, chamada Grizabella, pára diante do holofote e principia a sua canção. Com Cats, chega ao fim este breve artigo dedicado às cerca de três dezenas de salas de espectáculos numa dúzia de ruas, que no seu conjunto se chamam Broadway. É aqui o mundo dos sonhos!

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