Como tornar a sua escrita mais eficaz
Experimente adoptar um estilo descontraído e verá como a sua escrita se torna mais eficaz.
Muitas pessoas nasceram sem jeito para redigir e nunca conseguiram melhorar essa aptidão. Para elas escrever foi sempre uma tarefa desagradável, e a perspectiva de responder a uma simples carta é-lhes tão insuportável como ter de ir ao dentista. Mas nos empregos são obrigadas a fazê-lo.
Tenho a certeza de que, quando pensa em escrever melhor, pensa logo em gramática, retórica, composição - ou seja em todas aquelas coisas aborrecidas que lhe foram ensinando na escola. O mais provável, no entanto, é que não seja esse o seu problema e que domine essas áreas relativamente bem. O que está a precisar é de aprender os princípios básicos da escrita profissional.
Escrita profissional porquê? Por que escreve como se ainda estivesse na escola, a tentar inconscientemente agradar ao professor seguindo as regras da «composição», e esquece-se de que está a redigir uma carta para um destinatário ou um relatório para o seu patrão. Embora a linguagem escrita não seja igual à linguagem oral, os profissionais (redactores, jornalistas, romancistas, e todos os que ganham a vida a escrever) há muito aprenderam a usar o português coloquial e a fugir do português literateiro como da peste.
Fale para o papel.
O segredo de uma escrita mais eficaz é simples: fale para o seu leitor. Faça de conta que a pessoa que vai ler a sua carta ou o seu relatório está sentada à sua frente ou a falar ao telefone consigo. Adopte um tom informal, descontraído. Fale com a sua voz normal, usando vocabulário, pronúncia e ex pressões comuns. Quando está a falar, decerto não usa expressões como: «Venho por este meio trazer ao conhecimento de V. Ex.ª que ... » Em vez disso, dirá qualquer coisa como: «Passa-se o seguinte», ou então: «Deixe-me explicar-lhe.»
Por isso, fale - fale para o papel.
Leia o que escreveu. Parece e soa como conversa? Não? Então altere o que está escrito até parecer. A sua carta, para convencer e conquistar, tem de ser como uma conversa agradável.
Abrevie o que puder.
Para melhorar a sua escrita, nada é mais importante do que a concisão. Não perca o seu tempo nem faça o seu correspondente perder o dele. Lembre-se de que «tempo é dinheiro». Por isso, evite o supérfluo. Uma vez dominada a arte de ser conciso, a sua prosa tornar-se-á mais clara, informal e eficaz.
Veja esta frase clássica de muitas cartas: «Tomo a liberdade de enviar em anexo ... )} Uma maneira mais simples de dizer a mesma coisa? «Aqui vai ... )}
Omita as palavras desnecessárias.
Muitas expressões de uso comum infringem este princípio: «tomar a decisão de)} (decidir); «chamar a atenção, para o facto de)} (lembrar que).
E correcto o uso de abreviaturas na correspondência comercial, mas não abuse; recorra apenas às mais conhecidas, como «n/» (nossa), «p. f.,> (próximo futuro), «c/c» (conta corrente).
Simplifique a abertura e o fecho das cartas.
Um estilo pretensioso pode soar a falso, enquanto a simplicidade é reflexo de sinceridade e propósitos honestos. Uma carta com esta introdução: «Temos a honra de acusar a recepção do muito prezado favor de V Ex.a, com data de 15 de Fevereiro próximo passado, a que vimos dar resposta» indispõe o leitor, não acha? Diga simplesmente: «Em resposta à sua carta de 15 de Fevereiro passado ... »
Veja o seguinte fecho de carta:
Sem outro assunto, somos, com os protestos da nossa maior estima e consideração,
De VV. Ex.ªs At.ºs Ven.res Obg.dos
Se não tem outro assunto a tratar, não é preciso dizê-lo. E se se despedir com uma frase simples: «Com os meus melhores cumprimentos», não deixa de ser cortês e estará a adoptar um estilo muito mais moderno.
Corte a palha (o que não interessa).
Temos uma tendência natural para começar pelo princípio e ir até ao fim. Mas esse tipo de escrita nem sempre é agradável para o leitor. Se ele tem um problema ou fez uma pergunta, quer saber logo se a resposta é sim ou não. Se tiver que esperar até você estar disposto a dizer-lho, ficará impaciente e o seu ressentimento subconsciente crescerá a cada palavra.
Antes da cortesia inicial, faça referência à carta recebida (Ref.: s/ carta de 95-02-15) e poderá abordar directamente o assunto que o levou a escrever a carta. Da mesma forma, em vez de perder-se numa introdução mais ou menos desajeitada, comece logo pela informação mais importante. Mergulhe de cabeça.
Ref.: ...
Ex.mos Senhores
Relativamente ao artigo em epígrafe, o qual, e de acordo com as vossas instruções, foi mantido à disposição do beneficiário, vimos por este meio comunicar-vos que o Sr. Pereira não veio visitar-nos nem recebemos qualquer consulta em seu nome. Esta informação é-vos prestada a fim de que, caso o queiram, nos possam dar mais instruções sobre o assunto.»
Corte tudo até «o Sr. Pereira». A carta (com outras pequenas alterações) mudará logo de aspecto:
Ref.: ...
Ex.mos Senhores
O Sr. Pereira não veio visitar-nos nem recebemos qualquer consulta em seu nome. Têm mais instruções para dar-nos?
Vê o resultado? Cortada a verbosidade desnecessária, a carta fica muito mais elegante.
Evite repetições e redundâncias.
As repetições, quando desnecessárias, tornam os textos monótonos e deselegantes. Se for preciso, refaça a frase para evitá-las: «Cumpriremos todo o programa obedecendo a todos os requisitos»; ficará melhor: «Cumpriremos o programa na íntegra.»
Muitas vezes, o pronome relativo «que» pode ser suprimido sem alterar o sentido da frase. Veja este enunciado: «Recebemos o catálogo que nos enviou e que muito agradecemos.» E agora: «Muito agradecemos o envio do seu catálogo.» A frase não ficou mais clara?
Na maior parte dos casos, os pronomes pessoais sujeitos podem ser eliminados; as terminações verbais bastam para indicar a pessoa a que se refere o predicado. Um exemplo: «Eu não conheço pessoalmente esse comerciante, nem sei se ele goza de bom nome nesta praça.» Sem os pronomes: «Não conheço pessoalmente esse comerciante, nem sei se goza de bom nome nesta praça.» Não fazem falta, pois não?
Sempre que a clareza não os exigir, os artigos podem igualmente ser omitidos, sobretudo nas enumerações.
Cuidado com os pleonasmos, isto é, a repetição de palavras com o mesmo sentido. Não diga que «fez uma breve alocução» ou que «tem o monopólio exclusivo». «Alocução» é um «breve discurso», e não existe «monopólio» que não seja «exclusivo». No trecho: «Estamos convictos de que conseguiremos atingir o objectivo que nos propomos alcançar», um «objectivo» é «uma meta que uma pessoa se propõe alcançar». Basta dizer assim: «Estamos convictos de que conseguiremos atingir o nosso objectivo.»
Use perguntas directas.
Uma conversa não é unilateral Quando uma pessoa está a falar, é normal ser interrompida pelo interlocutor com perguntas como: «A sério?» ou «E depois?», Uma conversa sem perguntas é praticamente inconcebível. Pois então, sempre que puder, meta uma pergunta no texto. Verá como ele se parecerá mais com uma conversa. Não é preciso esforçar-se muito para isso. Leia o que escreveu: vai, com certeza, encontrar perguntas indirectas, introduzi das normal mente por um «se»: «Agradecemos que nos comuniquem se estão de acordo que procedamos ao pagamento contra a entrega das encomendas.» Muito complicado. Escreva antes: «Podemos pagar contra a entrega das encomendas?»
Vejamos outro exemplo: «Escreva-nos se tiver alguma dúvida.» Mais uma vez, trata-se de uma pergunta: «Tem alguma dúvida?» Nada como uma pergunta directa para se receber uma resposta.
Evite ser demasiado formal.
Numa conversa estamos sempre a usar «eu», «nós», «tu», «você», «vocês» - pronomes que surgem naturalmente durante uma troca de ideias. Mas as pessoas que escrevem em nome de uma organização ou de uma empresa agarram-se desesperadamente à voz passiva, evitando assumir a mais ínfima parcela de responsabilidade. E por isso que encontramos frases como: «Parte-se do princípio de que ... », «Será dada a maior atenção a esse assunto ... », «Recomenda-se que ... ». Ou até frases como: «Foi feita uma investigação sobre o assunto e ser-lhe-á enviado um relatório.» Escreva antes: «Investigámos o assunto e vamos mandar-lhe um relatório.»
Quando se escreve em nome de uma firma, a maior parte das vezes utiliza-se a primeira pessoa do plural. No entanto, não hesite em recorrer à primeira pessoa do singular sempre que exprimir os seus sentimentos ou ideias. Em geral, é preferível dizer «Lamento» ou «Agradou-me» do que «Lamentamos» ou «Agradou-nos».
Já agora evite os pronomes de tratamento muito cerimoniosos. Dão um ar antiquado à sua correspondência e não é de certeza essa a imagem que pretende dar da empresa. Em vez de «V Ex.ª» ou «V Sª», trate o seu correspondente por senhor ou até pelo nome: «Como o senhor sabe ... » ou «Como sabe, Joaquim ... ». O objectivo é transformar a sua escrita num acto o mais personaliza do possível.
Escreva frases curtas e vigorosas.
O leitor comum só consegue ler umas tantas palavras até os seus olhos descansarem um instante num ponto final. Se uma frase tiver mais de 40 palavras, há grandes possibilidades de ele não ser capaz de assimilar todo o seu conteúdo. Parta as frases compridas em frases mais curtas, de 20 palavras no máximo.
Um texto muito compacto também é cansativo. Torne-o mais leve abrindo parágrafos; em geral, é fácil perceber onde acaba uma ideia e começa a seguinte. Depois, tente escrever frases curtas sempre que possível. Use o ponto e vírgula, se necessário: «Ficámos com a representação do produto; a nossa filial, com a sua distribuição.» Vai ver: as suas cartas e actas deixarão de ser aborrecidas.
Use palavras simples.
As palavras rebuscadas são uma praga. Ergue-se como uma cortina entre o escritor e o leitor. Eis uma frase que encontramos habitualmente nas cartas comerciais: «Promoveremos todas as diligências necessárias à boa resolução deste assunto.» Escreva: «Tentaremos resolver este assunto da melhor forma» e compare com a frase anterior.
Todas as pessoas têm as suas pomposidades de estimação. Risque-as do seu vocabulário. Percorra o seu texto e substitua, por exemplo, «rogar a fineza» por «pedir», «missiva» ou «favor» por «carta», «na eventualidade de» por «se». Depois, tente cortar adjectivos como «prezado», «honroso» e «estimável» ou as ligações que se usam abusivamente, como «efectivamente», «em boa verdade» ou «tanto mais». Verá que, simplificando-a, a sua escrita se torna mais enérgica.
Escreva para as pessoas.
O mais importante é, sem dúvida, dar o toque humano certo às suas cartas. Exprima os seus sentimentos com naturalidade. Se as notícias são boas, diga que ficou contente; se forem más, diga que lamenta. Seja tão cortês, educado e interessado com o seu correspondente como se ele estives se sentado à sua frente. A sua carta vai ser lida por um ser humano que, consciente ou inconscientemente, ficará aborrecido com uma carta fria ou satisfeito com uma carta amável e atenciosa.
Um cliente escreveu ao advogado a comunicar-lhe que ia passar uma temporada nas Caraíbas e informava-o de onde poderia ser contacta do caso fosse necessário. A resposta começava assim: «Muito agradeço a sua carta, na qual me participa a sua nova morada.». Francamente! Até que ponto é possível ser-se tão indiferente? No mínimo, poderia ter dito: «Anotei a sua nova morada e estou cheio de inveja.»
Melhorar a sua escrita vai trazer-lhe vantagens. Estamos na era das grandes empresas, onde é mais fácil atrair a atenção de um superior com o que se escreve do que com o que se diz ou faz. Se escrever como este artigo lhe sugere, conseguirá destacar-se. E as recompensas serão tanto a nível material como pessoal. Quando conseguir escrever um parágrafo especialmente vivo e elegante ou uma carta que transmita os seus pensamentos com clareza e simplicidade, sentirá uma grande satisfação.
Goze-a bem. Merece-a.










4 comments:
Suas dicas são ótimas, realmente o mais simples atinge melhor o destinatário.
Parabéns.
As suas noticias são sempre oportunas.
Parabéns
Parabéns pelas dicas. Achei sensacional. Estou tentando melhorar minha escrita a décadas. Suas dicas são essenciais.
Abraços,
Monthiel
As dicas do post são ótimas para quem escreve e não tem muita prática, pois acabam produzindo textos que são difíceis de ler. Concordo com as orientações sobre simplicidade, objetividade e um certo grau de informalidade,mas é imprescindível também escrever corretamente.
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