O que sabemos sobre a memória

Por que nos esquecemos? O que fazer para melhorar a memória?
Só por volta das três da tarde é que o alarme lhe soa na cabe­ça. Sente-se corar e começa a remexer os papéis que estão na secretária. Esqueceu-se de que ti­nha combinado um almoço. Pior ainda. Não se lembra com quem. E pior ainda: como não sabe dos ócu­los, não consegue procurar o nome da pessoa na agenda.
Por que é que a memória nos trai?

Será um prenúncio da doença de Alzheimer? Haverá formas de refres­cá-la? Em primeiro lugar, tenha con­fiança: um perda momentânea de memória não é forçosamente um sinal da doença de Alzheimer. En­tre os 65 e os 75 anos, a probabilidade de contrair a doença é apenas de 4 a 10%, contra 20 a 48% para as pessoas com mais de 85 anos. Mas, à medida que se vai envelhecendo, quase ninguém escapa às falhas de memória. A memória pode começar a ficar um pouco abalada logo por volta dos 40, mas o declínio é tão lento que só começaremos a falhar por volta dos 50.

Nos últimos anos, alguns inves­tigadores de neurociências come­çaram a prestar mais atenção a esta situação, conhecida como esqueci­mento benigno do envelhecimen­to (EBE). Mas devido à extensão do problema, muita coisa continua a desconhecer-se acerca da memória. O cérebro possui milhares de mi­lhões de neurónios (células nervo­sas), muitos dos quais com milha­res de ligações que servem para en­viar sinais aos neurónios vizinhos. E nem os supercomputadores mais avançados seriam capazes de traçar o mapa das vias de transmissão potenciais.
A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA
Sabe-se, no entanto, o seguinte: digamos que o neurónio n.o 28 dis­para uma espécie de sinal eléctri­co e que na sinapse em que um dos dispositivos de ligação do 28 toca num receptor do neurónio n.o 29 se dá uma reacção química que de­sencadeia um sinal eléctrico neste último. Esse sinal é transmitido ao neurónio n. ° 30, e assim por diante. Se a ligação entre os neurónios 28 e 29 se fizer o número de vezes sufi­ciente, o elo entre os dois neurónios torna-se mais forte. Crê-se que esta relação crucial seja a matéria de que é feita a memória.
Muitos cientistas pensam que a nova informação, depois de absor­vida, é transformada em memória no hipocampo, um órgão em forma de cavalo-marinho, no centro do cé­rebro. Aparentemente, os nomes das coisas naturais, como as plantas e os animais, alojam-se numa parte do cérebro; os nomes de cadeiras, má­quinas e outros objectos criados pe­lo homem alojam-se noutra. Pen­sa-se que os substantivos estão separados dos verbos. A idade não é o único factor que afecta a capacidade de evocação. Entre os idosos, os que têm menor es­colaridade, menor actividade físi­ca e menor capacidade de contro­lar a vida no dia-a-dia tendem a so­frer maior perda de memória que os mais instruídos, que controlam me­lhor as situações.
CINCO TIPOS
Embora a maioria das pessoas fa­ça a distinção entre memória a lon­go e a curto prazo, muitos cientistas pensam que há, de facto, cinco tipos de memória, cada um com uma probabilidade diferente de deterioração ao longo do tempo. Ei-los, por ordem de durabilidade:
Semântica.
A memória do signi­ficado das palavras e dos símbolos é altamente elástica (com capacidade de recuperação); cerca de me­tade dos doentes de Alzheimer re­tém muito da memória semânti­ca. É pouco provável esquecer o sig­nificado de «passeio» e «refeitório», mesmo que há anos não se usem es­tas palavras. De igual modo, não se esquecem os símbolos religiosos nem as marcas registadas ou o que dis­tingue um gato de um cão. Podem acrescentar-se palavras à memória semântica até à morte.
Implícita.
O mais certo é nunca nos esquecermos de como andar de bicicleta, nadar ou conduzir um au­tomóvel, capacidades que depen­dem da evocação de uma série de movimentos aprendidos. As respos­tas condicionadas, como procurar um lenço ao sentir um espirro, tam­bém têm poucas probabilidades de desaparecer. A perda da memória im­plícita é um indício seguro de de­terioração mental grave.
Remota.
E o tipo de memória que faz ganhar dinheiro nos concursos da televisão. São os dados recolhidos ao longo dos anos, nas escolas, nas revistas, nos filmes, nas conversas, onde calha. Tudo indica que, nas pessoas normais, a memória remo­ ta vai diminuindo com a idade, em­bora o, declínio possa ter recupera­ção. É possível que sejam as interferências. À medida que envelhecemos, temos que continuar a classificar a informação constantemente recebi­ da e acumulada.
Activa.
Entramos agora no terri­tório que sofre desgaste na maior parte das pessoas, uma memória de prazo extremamente; curto, não mais que uns segundos. E o patrão do cérebro a indicar-lhe aquilo a que de­ve apegar-se. Na conversação, a me­mória activa permite dar atenção à primeira parte da frase da outra pes­soa enquanto ela a acaba; mantém várias coisas na mente em simultâ­neo, o que nos permite remexer o correio, falar ao telefone e prestar atenção ao colega que vai a entrar, tudo sem sair do mesmo sítio.
Num grande número de pessoas, esta memória começa a diminuir en­tre os 40 e os 50 anos. Certos am­bientes tornam-se mais difíceis, por exemplo a sala de transacções da Bolsa de Valores, onde é preciso rea­gir com rapidez a uma série de in­formações. Claro que pilotar aviões de combate também está fora de questão.
Episódica.
E a memória da expe­riência recente, desde o filme visto na semana passada até ao sítio onde estão os óculos. Esta memória tam­bém diminui com o tempo, e a sua perda perturba muitas pessoas. Não faz esquecer como se conduz um carro. O pior é saber o lugar onde ele ficou estacionado. A memória episódica pode come­çar a falhar por volta dos 40 anos, mas o declínio é tão suave que o mais provável é não se notar duran­te uns vinte anos. Aos 50, contudo, é provável experimentar-se uma cer­ta ansiedade ao ver as pessoas mais jovens do escritório aprender a tra­balhar mais depressa com os novos programas do computador.
NOVAS LIGAÇÕES
Ao contrário das outras células do corpo, os neurónios não se dividem. Envelhecem e uma certa percenta­gem atrofia-se ou morre. Aos 65 ou 70 anos, o neurónio n.º 28 e alguns dos seus vizinhos podem estar mor­ tos ou tão debilitados que deixaram de transmitir eficazmente as cargas eléctricas. Mas ainda restam milhares de mi­lhões de neurónios. E embora o cé­rebro não consiga produzir mais, é provável que os neurónios possam fazer brotar novas sinapses até ao fim da vida e criar novas ligações entre si. William Greenough, inves­tigador da Universidade do Illinois, fez a seguinte experiência: todos os dias dava brinquedos novos a ratos de laboratório,. alterando as rampas e os túneis das gaiolas. Quando lhes abriu os cérebros, contou muito mais sinapses do que nos dos ratos que não tinham tido brinquedos novos nem um novo décor.
Crê-se que o cérebro, se estimu­lado e desafiado, também cria mais sinapses, sendo capaz, mesmo em fase de atrofia, de abrir caminho pa­ra armazenar memória. Caso a via do neurónio n.º 28 não esteja mui­to transitável, o número de rotas al­ternativas pode ser ilimitado. O tru­que consiste em obrigar o cérebro a abri-las.
Os hábitos das pessoas muito in­teligentes oferecem uma pista sobre a maneira de fazê-lo. A memória depende da forma como é trabalha­da. Quan­to mais inteligentes são as pessoas, mais profundamente processam a informação. Relacionam, por exem­plo, um artigo de uma revista sobre a memória com um livro sobre in­teligência artificial e uma peça so­bre os sobreviventes dos campos de concentração. Deste modo, poderão estar a abrir redes de vias neuronais que tornarão muito mais acessível a evocação do artigo, do livro ou da peça.
Isto poderá explicar o motivo porque algumas pessoas famosas se or­gulham de memórias extraordinárias. O maestro Arturo Toscanini sabia de cor todas as notas de mais de 400 partituras. Winston Churchill conhe­cia tão bem grande parte da obra de Shakespeare que, durante as repre­sentações, da plateia, ia declaman­do as palavras do poeta. Bill Gates, o presidente da Microsoft, ainda se lembra de centenas de linhas de có­digo de fonte para a sua linguagem de programação Basic original. Poderá a memória fotográfica ex­plicar alguns destes feitos? Não, por­ que tal memória não existe, dizem os investigadores. Embora muitas pessoas saibam de cor listas de números ou repitam conversas palavra por palavra, ninguém, consegue gravar os dados de uma forma crua e sensorial com o pormenor da fotografia. A memó­ria é sempre selectiva.
TRUQUES PARA RECORDAR
É bom saber que, com esforço, as pessoas de nível intelectual médio poderão reforçar substancialmente a memória. Por exemplo, a maior parte das pessoas tem dificuldade em lembrar-se de números com sete ou mais dígitos, uma limitação que as companhias telefónicas há muito conhecem. Mas os investigadores da Universidade Carnegie Mellon trei­naram estudantes universitários nor­mais na memorização de números com uma centena de dígitos. Con­centrando-se naquela longa fiada de dígitos, os estudantes descobriram padrões que podiam relacionar com séries de números com significados para eles, por exemplo as datas de aniversários.
À medida que o tempo passa, as pessoas cada vez se sentem mais ator­mentadas por esquecerem os nomes. Os estudantes universitários con­seguem memorizar melhor, não só porque os seus neurónios são jovens, mas também porque têm o hábito de criar truques de mnemónicas pa­ra sobreviver aos exames. E uma ma­neira fácil de recapitular. Por exem­plo, a memória pode ser AIRES -­ activa, implícita, remota, episódica e semântica. Segundo muitos especialistas, ou­tra forma de melhorar a memória é exercitar o cérebro. Escolha com­panhias estimulantes e de raciocínio rápido. Ou embrenhe-se num no­vo campo de estudo: contabilidade, zoologia ou uma língua.
Talvez um dia surja a pílula da memória.

3 comentários:

  1. Muito bom artigo esse sobre a memoria,gostei,meus parabens,grande abraço.

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  2. Otimo artigo, muito interessante, valeu muito ter lido... parabens

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