A saga do Santo Sudário

Os enigmas do Santo Sudário
Durante mais de 600 anos, o Sudário foi venerado como sendo a mortalha de Cristo. Agora, a ciência revelou que se trata tão-somente de uma misteriosa obra de arte.
Num cinzento dia de Outubro passado, em Turim, no Norte de Itália, o cardeal Anastasio Ballestrero dirigiu-se à multidão que enchia o santuário para fazer uma declaração que iria abalar a Igreja Católica: uma das mais veneradas relíquias da cristandade, o Santo Sudário de Cristo, era uma obra de arte medieval.
Como uma bomba, a notícia atin­giu milhões de fiéis. Durante séculos, aquele simples lençol tem vindo a ser venerado como a mortalha em que Jesus foi envolvido depois da Sua morte na Cruz, e os católicos adora­vam-no como uma ligação palpável com o Cristo ressuscitado. Mas, para o Vaticano, muito mais estava em jogo: a dissociação da Igreja das len­das, dos mitos e do folclore, que, por vezes, ameaçam obscurecer as verdadeiras raízes históricas do cristia­nismo. A aceitação sem reservas do veredicto da ciência, por parte do papa João Paulo II, constituiu mais um passo importante na «política de abertura» iniciada no Segundo Con­cílio do Vaticano, que teve lugar de 1962 a 1965.
Relíquia valiosa.
Até à data, o caso mais controverso foi o do Santo Su­dário - um puído pedaço de linho tecido em espinha, medindo 4,36 m de comprimento por 1,10 m de lar­gura, no qual se podem ver duas si­lhuetas esbatidas, cor de ferrugem, unidas cabeça com cabeça, de um corpo de homem nu, visto de frente e de costas. Segundo a lenda, esta se­ ria a imagem milagrosa do corpo tor­turado e crucificado de Jesus, deposi­tado ao comprido no lençol, o qual teria sido depois dobrado por cima da sua cabeça.
Caso fosse genuína, aquela relí­quia teria, na realidade, um poder milagroso extraordinário. Cristo não nos legou nenhum documento es­crito, nem nenhum objecto pessoal, apenas um túmulo vazio. O Sudário preenchia este vazio, ao corroborar a própria essência histórica da salvação: a morte e a ressurreição do Salvador. Além disso, a Bíblia não nos descreve qual o aspecto de Jesus Cristo, e, através daquele Sudário, a cristan­dade dispunha de um retrato autên­tico de corpo inteiro.
As relíquias são objectos de devo­ção popular que remontam à Anti­guidade; respondem a um instinto básico do homem: o prazer de ver e tocar objectos que nos ligam a uma pessoa querida que morreu. Um dente de Buda é venerado no Sri Lanka, e um pêlo da barba do pro­feta Maomé, na Caxemira. Durante a Idade Média, os cristãos europeus tornaram-se ávidos coleccionadores de ossos, crânios, corpos de homens e mulheres santos e objectos que su­postamente lhes pertenciam. Foram atribuídos poderes curativos milagro­sos a numerosas relíquias, e as lendas nasceram sempre que não era possí­vel comprovar a sua autenticidade.
Embora a crença nas relíquias nunca tenha feito parte integrante da doutrina da fé, a Igreja encorajou a sua veneração, transformando-as num aspecto fundamental da cultura ocidental. Alguns dos mais gloriosos marcos do mundo cristão devem a sua existência ao culto de que são alvo. Entre eles contam-se a Sainte­-Chapelle, em Paris, erguida para re­ceber a presumível coroa de espinhos de Jesus; a Igreja do Apóstolo Tiago, em Santiago de Compostela, Espa­nha; a catedral gótica de Colónia, na Alemanha Ocidental, que alberga os alegados restos mortais dos Três Reis Magos do Oriente, e, finalmente, a lindíssima Capela de Turim, cons­truída entre 1668 e 1694 por Gua­rino Guarini, sob cujo delicado tecto se encontra o Santo Sudário, guar­dado numa urna de prata.
Como é que milhões de fiéis pas­saram a aceitar este lençol de linho como sendo a mortalha de Jesus? Os seus antecedentes não estão bem ex­plicados: uma alegada mortalha de Cristo foi venerada em Jerusalém no século VII (uma das primeiras referências) e, mais tarde, levada para Constantinopla (actual Istambul), tendo desaparecido quando a cidade foi saqueada pelos cruzados em 1204. Só 150 anos mais tarde é que um cavaleiro francês, Geoffroy de Charny, colocou um «santo sudário» na igreja da vila de Lirey, próximo de Troyes, no Leste da França. Como e onde o terá encontrado, ninguém sabe.
Décadas depois, a neta de Geof­froy, Marguerite de la Roche, doou-o aos condes de Sabóia, que, durante a sua longa ascensão à realeza, o consi­deraram sempre como um talismã. Em 1532, foi danificado por um in­cêndio que deflagrou na capela do Palácio dos Sabóias, na sua capital, Chambéry, onde o Sudário tinha sido colocado. A caixa que o conti­nha já estava a derreter-se quando um valente guarda pegou na relíquia e a pôs a salvo, mergulhando-a em água. Umas freiras remendaram os buracos e coseram um pedaço de lona forte ao seu verso. As marcas das queimaduras e as manchas de água ainda hoje são bem visíveis. Em 1578, os proprietários do Sudário atravessaram os Alpes e levaram-no para a sua nova residência, em Tu­ rim. O último monarca da dinastia, o rei Humberto II de Itália, legou-o em testamento à Santa Sé, e o papa João Paulo II tornou-se o seu pro­prietário legal quando o rei Hum­berto faleceu, em 1983.
No entanto, nunca a Igreja afir­mou a autenticidade do Sudário. Com efeito, mal surgiu em Lirey, por volta de 13 56, gerou logo controvér­sia. Henri de Poitiers, bispo de Tro­yes, proibiu a sua exposição; e o seu sucessor, Pierre d'Arcis, alertou o seu superior, o papa Clemente VII, para o facto de que se tratava de uma pin­tura «bem imaginada» e ordenou que o Sudário fosse mostrado apenas como uma imagem do Senhor crucificado. Mas tanto o público como o clero ignoraram a ordem, e o Sudário continuou a ser venerado com fervor.
Em 1898, um advogado de Turim, Secondo Pia, fotografou o Sudário pela primeira vez e fez uma desco­berta espantosa: o negativo revelava uma imagem muito mais nítida do que a que podia ser observada a olho nu. A própria «impressão» era um negativo com as áreas de luz e som­bra invertidas, um fenómeno estra­nho para o qual não foi até hoje en­contrada nenhuma explicação.
Provas circunstanciais.
«Eles toma­ram o corpo de Jesus e o envolveram em panos de linho com aromas, como os Judeus costumam sepultar.» (Evan­gelho Segundo São João, 19:40). A dupla imagem no pano representa o corpo estendido de um homem de meia-idade, de barba, com as mãos cobrindo os órgãos genitais. Os pulsos (dos quais só um é visível) e os pés pa­recem ter sido atravessados por pre­gos. O corpo apresenta marcas prova­velmente causadas por flagelação e na cabeça são visíveis pequenos ferimen­tos (provocados por uma coroa da es­pinhos?). Os ombros parecem ter sido macerados por um grande peso (a cruz?) e no corpo pode observar-se, do lado direito, um golpe (causado por uma lança?).
Até aqui, a imagem ajusta-se à história do Evangelho, à excepção de dois pontos fundamentais: o após­ tolo João conta-nos que, quando Cristo ressuscitou e subiu aos céus, a sua mortalha de linho ficou cá, mas não faz qualquer referência a imagens Impressas, o que teria constituído, sem dúvida, um milagre digno de registo. E afirma expressa­mente que «o lenço que estivera so­bre a Sua cabeça não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte». Por outras palavras, o Sudário tinha envolvido o corpo de Jesus, mas não a Sua cabeça, «à maneira dos Judeus». Como é que a imagem sagrada teria sido impressa na morta­lha foi uma questão que se tornou objecto de conjectura.
Uma nova ciência.
Nos anos 30, o Sudário começou a ser alvo da curio­sidade internacional. Começaram a surgir, em ambos os lados do Atlân­tico, clubes e sociedades de pessoas que o queriam estudar; organiza­ram-se conferências de especialistas, publicaram-se livros e artigos e nas­ceu uma nova ciência, a sindonologia (da palavra grega sindoné, que signi­fica «sudário»). Nos anos 70, face às crescentes pressões para que fosse efectuada uma análise imparcial da relíquia, a fim de concluir da sua au­tenticidade ou falsidade, o Vaticano acabou por autorizar que fosse sub­metido a alguns simples testes físicos e químicos.
Cientistas de vários países exami­naram o Sudário. Roma permitiu mesmo que fossem removidas algu­mas fibras para análise laboratorial. Como estes especialistas, por seu turno, consultaram outros especialis­tas, calcula-se que o projecto tenha envolvido cerca de 400 peritos. Em 1974, um investigador interessado no enigma do Sudário, fez uma visita ao responsável pela sua guarda, o arce­bispo de Turim, cardeal Michele Pel­legrino. Quando lhe perguntou se acreditava que o Sudário era a morta­lha de Cristo, respondeu com um sorriso forçado: «Não há qualquer re­gisto do Sudário anterior a 1356, mas vamos esperar pelo que os cientistas têm a dizer.»
A maioria dos especialistas concor­dou que os resultados das investiga­ções eram inconclusivos. O único teste que poderia pôr fim à questão, sem qualquer margem para dúvida, era a determinação da data através do carbono 14. Este teste é assim de­signado porque se baseia no estudo do isótopo 14 do carbono radioac­tivo, que tem uma vida média de 5730 anos e se encontra presente em toda a matéria orgânica. O seu ritmo de decomposição, lento e regular, que tem início com a morte do ob­jecto, faz dele o melhor indicador para determinar a idade dos objectos que o contêm.
Em 1968, o papa Paulo VI já tinha concordado que uma das mais esti­madas relíquias do catolicismo, a «ca­deira de São Pedro», ou trono do bispo, fosse submetida a este teste. A cadeira, uma antiga peça de mobiliá­rio de carvalho com embutidos de marfim, foi colocada em 1657-66 dentro de uma sumptuosa armação de bronze dourado, da autoria do eminente escultor-arquitecto Gian Lorenzo Bernini. Sustentada por quatro colossais estátuas dos Douto­res da Igreja (Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santo Atanásio e São João Crisóstomo), tem dominado, desde então, a abside iluminada pelo sol da Basílica de S. Pedro, em Roma. Du­rante séculos, foi considerada como a prova da presença do apóstolo na Ci­dade Eterna e do seu papel como pri­meiro papa, mas o teste do carbono 14 revelou que se tratava de uma obra do século IX.
No entanto, quando chegou o mo­mento de determinar cientifica­ mente a idade do Santo Sudário, os membros da Igreja começaram a le­vantar obstáculos. Realçaram o facto de que, para realizar o teste, era ne­cessário destruir um pedaço do Sudá­rio do tamanho de um lenço grande. Se se chegasse à conclusão de que a relíquia era genuína, uma mutilação dessas seria um sacrilégio. O Vati­cano só autorizaria o teste quando a evolução da técnica do carbono 14 permitisse reduzir bastante a dimen­são das amostras necessárias.
Finalmente, no dia 21 de Abril de 198-8, cónegos da Catedral de São João Baptista, em Turim, onde fica situada a capela de Guarini, cortaram cuidadosamente, de um dos cantos do Sudário, um fragmento medindo 7 por 3 em e dividiram-no em três amostras do tamanho de um selo de correio, que foram colocadas em ci­lindros de aço inoxidável selados com a chancela do arcebispo e enviadas para laboratórios especializados da Universidade do Arizona, Tucson, Estados Unidos, da Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha, e do Insti­tuto Federal de Tecnologia de Zuri­que, na Suíça. «Analisámos a nossa amostra du­rante cerca de 50 horas, utilizando um acelerador semelhante a uma cal­deira de uma máquina a vapor anti­quada», afirmou o Prof. Willy Walfli, chefe da equipa de Zurique. «Porções da amostra foram submetidas a numerosos testes e, durante o processo, ficaram reduzidas a carbono.» «E ficaram surpreendidos com o resultado?», perguntamos nós. «Não. Tendo conhecimento das provas históricas, não podia acreditar que o Sudário tivesse 2000 anos de existência. O teste veio apenas con­firmar a minha impressão.»
Às 10 horas da manhã do dia 13 de Outubro de 1988, o cardeal Balles­trero revelou os resultados dos testes a várias centenas de jornalistas no vasto Santuário de Maria Ausiliatrice (Auxiliadora), em Turim. Lendo um relatório oficial, o cardeal declarou que as três equipas de cientistas ti­nham chegado à mesma conclusão: com uma margem de erro de 5 %, o Sudário tinha sido produzido entre 1260 e 1390, datas que se referem não à altura em que terá sido tecido, mas sim à época de colheita do linho utilizado no seu fabrico. A Igreja Ca­tólica, acrescentava o comunicado, não temia a ciência. A saga do Sudá­rio tinha terminado.
O mistério continua.
No entanto, o Sudário, embora despojado de santi­dade, continua a encerrar um mistério. As análises efectuadas incidiram apenas sobre o tecido, e não sobre a imagem. Encarado como uma pin­tura - e uma obra-prima -, o re­trato duplo de um cadáver torturado suscita algumas perguntas. Qual o truque utilizado para lhe conferir um aspecto milagroso? Não há qualquer indício de ter sido desenhado com um pincel. Terão utilizado uma es­ponja ou um trapo para produzir esta tosca pintura? Ou terá sido passado para o linho, como alguns aventaram, a partir de um desenho original, à semelhança de um decalque obtido a partir de uma inscrição na pedra? Este processo pode explicar o aspecto de «negativo» da imagem, com as áreas de sombra e luz invertidas. A revelação final terá de esperar até que os especialistas de arte mun­diais se debrucem sobre a despromo­vida relíquia, que permanece encer­rada na sua urna de prata na Capela de Turim. Hoje em dia, com a complacência de um clero compreensivo, os fiéis que se ajoelham na Capela do Sudá­rio são tão numerosos como antes do doloroso veredicto. «A Igreja», afir­mou o cardeal Ballestrero, «reafirma o seu respeito e reverência por esta venerável imagem de Cristo.»

4 comentários:

  1. Eu gostaria de saber como você criou o endereço http://km-stressnet.blogspot.com/search/label/Actualidade, eu uso o blogger, mas não encontro essa opção. O meu e-mail é marcelo_huszcz@hotmail.com.

    Agradeço a atenção.

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  2. As pessoas precisam de um simbolo, algo para acreditar.

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  3. A polêmica história do santo sudário nada mais é que um dogma a mais criado pela igreja católica e na qual faz com que nós pobres seres humanos com sentimentos e esperança de um dia ter uma vida melhor e sem problemas, acreditar.

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  4. Que nos importa se é ou não o linho que envolveu o Corpo Santo de Jesus...Importa-nos sim relembrar e vivenciar a cada instante de nossa tão fugaz vida, os ensinamentos maravilhosos de Perdão, Igualdade e Fraternidade que por estarem hoje, tão esquecidos nos colocam no caos social onde "pai" matar o próprio filho, "picar" e pôr no lixo ou jogá-lo do alto de um prédio como um objeto de estorvo e outras tantas barbaridades que só não vê quem não quer que estamos vivendo os últimos tempos...É hora da escolha entre o Bem e o mal, a Luz ou as trevas, Deus ou o Demônio...Ainda somos livres para optar,resta-nos um tempo mas qdo Cristo voltar em glória, o tempo já terá se esgotado e inútil será pedir compaixão...
    Dar a nossa vida por tantos sofredores bem do nosso lado não é favor nenhum, é nossa oportunidade de alcançarmos o Paraíso sonhado por Deus para nós, suas criaturas tão amadas e, por isso mesmo tão livres para optar entre o comodismo e a luta constante, entre o Amor e o ódio.

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