A última Ceia de Cristo: a reconstituição exacta

A última Ceia

Numa representação humana eivada de patético e profético, Cristo envia-nos a sua mensagem de esperança.

«Tomai e comei; isto é o Meu corpo. Bebei dele todos, porque este é o Meu sangue.» Estamos em Jerusalém no mês de Nisan - Abril, aproxima­damente. A atmosfera à ceia está car­regada de presságio. Ouvem-se insi­nuações misteriosas e perguntas tí­midas. A traição paira no ar. Jesus, «com o espírito perturbado», celebra a Páscoa com os seus 12 Apóstolos. Pela última vez, a vítima e o traidor partilham uma refeição. Ambos te­rão morrido no espaço de 48 horas. Eis a representação humana ence­nada nessa fatídica noite de quinta­-feira, como prelúdio do julgamento, morte e ressurreição de Cristo. Regis­tada nos Evangelhos e na Primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios, a Ceia do Senhor ocupa um lugar crucial na nossa Páscoa. Serve de cenário à instituição da Eucaristia - do grego, «acção de graças» -, que prevaleceu como o rito central do culto cristão.
Consciente de que é procurado por blasfémia - uma ofensa capi­tal -, Jesus «já não anda aberta­mente entre os Judeus». Permanece em Betânia, perto de Jerusalém. Os preparativos para a Páscoa são cuida­dosamente efectuados. «Ide à ci­dade», ordena Ele a dois dos seus dis­cípulos, «e lá encontrareis um ho­mem com uma bilha de água. Segui-o e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: «O Mestre manda di­zer: onde está a sala em que hei-de comer o cordeiro pascal com os Meus discípulos? Mostrar-vos-á uma grande sala no andar de cima, mobi­lada e já pronta.»
É impossível localizar com precisão o local onde se desenrola o aconteci­mento. Mas tem sido sugerido que a sala no andar de cima ficaria algures no Bairro dos Essénios, a seita judaica que deu ao Mundo os Pergaminhos do Mar Morto. Os hóspedes, quer pagassem ou não, eram em regra aloja­dos no andar superior de uma habita­ção de dois pisos do Médio Oriente. Se a «grande sala» foi emprestada ou alugada, como é de supor, era sem dúvida um local respeitável. No sé­culo I usavam-se linhos de qualidade, belos pratos e travessas e requintados copos de vidro. Não eram necessários talheres; as pessoas comiam com as mãos delicadamente.
A festa da Páscoa era celebrada na primeira lua cheia da Primavera em memória do êxodo dos Judeus do Egipto, onde tinham estado prisio­neiros. A refeição, no tempo de Jesus, tinha um cunho familiar, não sendo admitidos estranhos. Embora o jantar, regra geral, ocorresse a meio da tarde, a Páscoa tinha início ao cre­púsculo. A ementa típica incluía um cordeiro assado servido com pão ázimo e quatro taças de vinho mistu­rado com água. Os Evangelhos não nos dizem se Cristo e os 12 se senta­vam direitos ou reclinados em pe­quenos canapés, prática frequente na Terra Santa. Num gesto de humildade, referido apenas por S. João, Je­sus a certa altura interpõe-se aos cria­ dos, humedece a túnica e lava os pés dos Apóstolos. Eles estão profundamente tristes.
Sabem que este é o jantar de despe­dida do Senhor e que o seu mundo acolhedor e familiar se desfaz em pó. «Tenho desejado comer convosco este Cordeiro Pascal antes de padecer», dissera-lhes Jesus. Nunca menciona a cruz, instrumento desprezado de tortura física e mental. Mas sabe que no dia seguinte terá de sofrer a morte prolongada da crucificação, uma das mais cruéis punições jamais concebi­das, reservada aos escravos e súbditos coloniais de Roma. Nesse entardecer, Ele não se esforça por ocultar a Sua tristeza: «Não voltarei a beber do fruto da videira.» Irá partir em via­gem? Quando Pedro exprime o de­sejo de acompanhá-lo onde quer que Ele vá, Jesus diz-lhe: «Para onde Eu vou não podes tu seguir-Me, por agora; seguir-Me-ás depois.» E Ele es­colhe este momento de tensão para instituir o ritual que dotará de uma essência duradoura a embrionária re­ligião do Mundo.
Este acto formal dificilmente po­derá ser espontâneo. Na realidade, todo o banquete parece estar conce­bido em torno do sacramento do pão e do vinho. A sequência é iniciada com uma simplicidade tocante: «Jesus tomou um pão e, depois de o abençoar, partiu-o e entregou-o aos discípulos, dizendo: «Tomai e comei; isto é o Meu corpo.» Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-o, di­zendo: «Bebei dele todos, porque este é o Meu sangue, sangue da aliança que vai ser derramado por muitos para remissão dos pecados.» Desde tempos imemoriais, o sangue era a tinta que selava um pacto sagrado. Portanto, o que emerge da última Ceia do Senhor é um novo con­vénio - uma nova aliança entre Deus e o homem selada com o san­gue do sacrifício do Salvador.
A Eucaristia enraizou-se imediata­ mente no culto cristão. «Fazei isto em Minha memória!» E embora persis­tam diferenças tanto no conceito como na forma de ministrar a Comu­nhão, o mistério da Ceia do Senhor permanece uma força vital para a unidade cristã. «Rezo», diz Jesus à mesa da ceia, «para que todos pos­sam ser um.» «Em verdade, em verdade vos digo que um de vós há-de entregar-Me.» O acto sublime deste acontecimento bíblico é mesclado de uma atmosfera arrepiante. Sabemos, tal como Jesus, que Judas Iscariotes O vendeu aos príncipes dos sacerdotes e aos Fariseus por 30 siclos de prata, o sufi­ ciente para comprar um pequeno terreno. Mas os 11 bons Apóstolos não suspeitam do negócio e a calma declaração de Jesus atinge-os como um raio, quebrando a solenidade da reunião. «Senhor, porventura sou eu?» «Porventura sou eu?»
Ao escutarmos as suas interroga­ções, a nossa atenção centra-se na fi­gura enigmática do traidor. Já o co­nhecemos como o elemento do grupo com dedo para o dinheiro. «Ele era um ladrão e estava na posse da bolsa.» Seis dias antes da Páscoa, durante a visita de Jesus à casa de Lá­zaro em Betânia, ele insultara Maria, uma das duas irmãs de Lázaro, por usar um dispendioso unguento para untar os pés de Jesus. Mas embora saiba que Judas é um traidor, Jesus não o entregará. Consciente de que, segundo o grande desígnio do Pai, Judas desempenha um papel essen­cial, Ele toma-o sob a Sua protecção; seja feita a vontade de Deus. Por isso, quando é a vez de Judas perguntar: «Porventura sou eu, Mes­tre?», Cristo olha para ele e responde: «Tu o disseste.» Só então Pedro faz si­nal ao jovem João - o «discípulo que Jesus amava» e que, tomado de tris­teza, repousa a cabeça no peito do Senhor - para saber, em particular, quem tinha Jesus em mente.
Jesus repara no que se passa. «É aquele», diz a João num sussurro, «a quem eu der um bocado depois de o molhar.» (O «bocado», molhado num prato de ervas amargas, recordando a amargura do exílio no Egipto, é até hoje uma faceta da Pás­coa judaica.) Mal recebe o bocado, Judas Iscariotes dirige-se para a porta. «O que tens a fazer fá-lo depressa, sem demora!», diz-lhe Jesus. Nenhum dos presentes compreende o significado desta súplica.
Quando Judas desaparece na noite, interrogamo-nos sobre o que o leva à denúncia. Mateus relata que, quando Judas viu que Jesus estava condenado, arrependeu-se de «ter entregue sangue inocente», atirou ao chão do templo o dinheiro man­chado e enforcou-se. Tem-se espe­culado bastante quanto à culpa de Judas. Se ele foi um mero instru­mento na mão de Deus, poderemos condená-lo? O próprio Jesus atribui a Judas suficiente livre vontade ao chamar-lhe «o filho da perdição». O Seu veredicto, por Ele pronunciado ainda à mesa, é sintomático: «Ai da­quele por quem o Filho do Homem vai ser entregue; melhor seria para esse homem não ter nascido!» Deixados sós, Cristo e o seu fiel re­banho usufruem um momento de descontracção. «Filhinhos, ainda es­tou um pouco convosco.» São nova­ mente uma família unida. Jesus chama «filhos» aos discípulos, roga a Deus para que os preserve e trans­mite-lhes um último mandamento: «Amai-vos uns aos outros assim como Eu vos amei.» Mais uma vez Ele fala da sua verdadeira missão: «Saí do Pai e vim ao Mundo; de novo deixo o Mundo e vou para o Pai.»
«Vê», responderam em uníssono, «agora falas abertamente e não dizes parábola alguma.» O maravilhoso e derradeiro discurso de Jesus é trans­crito integralmente por S. João no Quarto Evangelho. Mas dirigiria o orador as suas palavras apenas aos Apóstolos? Ao revermos o aconteci­mento, quase parece que a Humani­dade inteira se introduzira naquela sala e que Ele deixou a cada um de nós o Seu legado de esperança: «Digo-vos isto para terdes paz em Mim; no Mundo tereis aflições, mas tende confiança! Eu venci o Mundo.» A celebração chega ao fim. Cristo e os 11 entoam em uníssono um hino - provavelmente, um dos salmos do rei David - e dirigem-se para o Monte das Oliveiras, caminhada de meia hora desde a cidade velha, atra­vés da abrupta torrente de Cédron. Aí, no Horto de Getsemani, onde ti­nham muitas vezes passado a noite, Jesus ora angustiado, o suor caindo­-Lhe ao chão como «grossas gotas de sangue».
«Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice; não se faça, contudo, a Mi­nha vontade, mas a Tua.» A sua hora aproxima-se. Assim, a Última Ceia é a linha divisória do Novo Testamento. Assinala o fim do ministério de Jesus e o início da Sua paixão. Quando Judas, à cabeça de um bando armado, se aproxima para O saudar com o beijo do traidor, Jesus é preso e le­vado. Dentro de horas, despontará um dia funesto no deserto oriental.
Fonte: Selecções Reader's Digest

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