Pogonotomia: sabe o que é?

O suplício de fazer a barba todos os dias
Amanhã de manhã, tão certo como o nascer do Sol, mi­lhões de homens vão levan­tar-se da cama a bocejar; na casa de banho, diante do espelho, vão mirar o rosto barbudo. De mau­-humor, olharão para aqueles 15 500 pêlos (mais pêlo, menos pêlo), ri­jos como fios de cobre. Está de novo na hora da pogonotomia ­ palavra esquisita, de origem gre­ga, que significa fazer a barba.
Muitos irão fazê-la com uma má­quina eléctrica; outros ensaboarão o rosto, desde a maçã-de-adão até à base dos olhos; com uma lâmi­na de aço, irão raspar de 0,12 cm3 a 0,5 cm3 de epiderme. Se a co­lheita for boa, poderão tirar 65 mg de pêlos, mas, findo o trabalho, nos seus olhos não haverá muita alegria. É que, como qualquer pogonotomista sabe, chova ou faça sol, aqueles malditos 15 500 pê­los lá estarão de novo no dia seguinte, à espera de serem ceifados.
Por que é que os homens insis­tem neste ritual diário? Porque a barba, embora possa aquecer um pouco o pescoço no Inverno ou dar-lhes um certo ar de dignida­de, é uma coisa que dá comichão, denota desleixo e é anti-higiéni­ca. Por tudo isso e porque, depois de barbeado, um homem sente-se melhor.
Além do mais, há indícios de que, ao longo dos séculos, o sexo opos­to tem gostado mais dos rostos es­canhoados que dos barbudos. «Se­nhor, eu não suportaria um ho­mem com barba!», desabafa Bea­triz, em Muito Barulho por Nada, de Shakespeare. Não há dúvida de que o barbear tem sido sempre um martírio desde que o homem pré- histórico começou a depilar-se com a conchas de moluscos ou a rapar os pêlos da barba com dentes de animais afiados. Por volta de 4000 a. c., o os Egípcios amenizaram parte deste tormento ao inventarem lâminas de ouro, de cobre e, mais tarde, de bronze, que podiam ser afiadas.
Durante séculos, os Gregos e os e Romanos não ligaram a menor importância a isso e continuaram barbudos (para eles, a barba era sinal de maturidade); mas, lá pelo ano 300 a. c., para um jovem aristocrata romano fazer a barba pela primeira vez passou a ser uma cerimónia de iniciação no estado de adulto.
No decurso do século XVII, um génio desconhecido lançou a primeira grande inovação desde os tem­pos mais primitivos: uma navalha recta, de bom aço, com lâmina fina, gume cortante e faces côncavas que podia ser afiada numa tira de couro. Mais tarde, surgiu um outro mo­delo, que podia ser dobrado para dentro de um cabo oco, de mar­ fim, prata ou madeira. Em princípios do século XVIII, a barbearia tornou-se um ponto de encontro dos homens. Ir lá fazer a barba todas as manhãs era coisa comum, mas não isenta de dor ou hemorragias, consoante a perícia dos barbeiros.
Então, finalmente, o barbear fácil ficou ao alcance de qualquer ho­mem. Um caixeiro-viajante norte­ -americano chamado King C. Gillette, cansado de afiar constante­ mente a sua navalha, inventou um aparelho seguro, cuja finíssima lâ­mina de aço, com gume de ambos os lados, era descartável. Em 1903, os primeiros desses aparelhos (que traziam 20 lâminas cada um) fo­ram vendidos a 5 dólares. No Mun­do inteiro, os homens alegraram-se: acabariam as navalhas para afiar ... e as hemorragias para estancar. Den­tro de uma década, a Gillette vendia anualmente mais de 300 000 apa­relhos e 84 milhões de lâminas.
Hoje há aparelhos de barbear descartáveis; outros têm lâminas du­plas e outros cabeças oscilantes, que se adaptam aos contornos do ros­to. As máquinas de barbear eléc­tricas, descendentes de uma inven­tada em 1928 por um coronel do Exército dos EUA, Jacob Schick, actuam por movimento rotativo ou oscilante; existe uma que barbeia a seco ou com espuma. Mesmo assim, o pêlo facial apre­ senta diversas peculiaridades que podem dificultar o barbear. A bar­ba rija não é um mito; o diâme­tro dos pêlos do rosto pode variar de 0,091 mm a 0,23 mm, e algumas barbas embotam as lâminas oito vezes mais depressa que outras.
Um pêlo de barba cresce cerca de 0,38 mm por dia, ou 14 cm por ano. Se nunca for feita, ao fim de uma vida a barba pode atingir 9 m. Os pêlos crescem mais rapi­damente depois de barbeados. Se o homem ficar uns tempos sem se barbear, a rapidez desse crescimen­to decresce. Há maneiras de se barbear me­lhor, e isso não depende do tipo de aparelho que usa, mas da for­ma como o utiliza. Primeiro con­selho: nunca se barbeie logo depois de se levantar. Durante a noite, os fluidos do organismo acumu­lam-se no rosto, deixando-o intu­mescido, o que o torna mais sensí­vel aos cortes durante o barbear e deixa os pêlos mais rijos. Uns 10 ou 15 minutos depois de se ter le­vantado, o rosto volta ao normal.
Para quem usa lâminas:
1) Lave muito bem o rosto, com água quente e sabonete; depois en­xagúe.

Deste modo, remove a trans­piração, a poeira (que pode em­ botar a lâmina) e a gordura (que impede a absorção da água atra­vés dos pêlos).

2) Deixe a pele e os pêlos fica­rem humedecidos.
Alguns barbei­ros colocam no rosto dos clientes uma toalha húmida e quente; tam­bém pode utilizar esse processo. A água que penetra nos pêlos reduz­ -lhes a resistência e a rigidez em cerca de 60% e a elasticidade em aproximadamente 90%. Em testes, num rosto barbeado sem qualquer preparação, uma lâ­mina nova não deu sequer para uma única barba; se o rosto estivesse humedecido há 15 segundos, dava para duas barbas; há 3 minutos, para quatro barbas. Com 10 mi­nutos de pré-humedecimento (co­mo, por exemplo, um banho de chuveiro), deu para cinco barbas.
3) Ensaboe com creme ou es­puma de barbear, porque servem de lubrificante para a lâmina, pro­piciam um meio de apoio à haste do pêlo e amaciam a pele; e o mais importante de tudo é que impe­dem a evaporação da água.
Aplique bem a espuma contra o correr dos pêlos. Faça por ficar pelo menos dois ou três minutos a en­saboar; as barbas rijas precisam de mais. Estes preparativos que ante­ cedem o barbear são a parte mais importante do seu ritual diário.
4) Molhe a lâmina em água quen­te e passe-a por água frequente­ mente. Mantenha sempre no ros­to uma espessa camada de espuma.
5) Barbeie primeiro as partes me­nos difíceis: as patilhas e as bo­chechas.
Os pêlos mais rijos cres­cem em torno do queixo e dos lábios e a sua densidade é maior (até 120 pêlos por centímetro quadrado no queixo, em comparação com 40 na parte inferior da bochecha). Por isso, precisam de mais tempo para amaciar. Barbeie no sentido do crescimento dos pêlos, com movimen­tos longos e suaves. Esticando li­geiramente a pele, oferece à lâmi­na uma superfície mais lisa; se esticar muito, pode cortar-se.
6) Use uma loção para depois da barba: amacia a pele e sentir­-se-á melhor e perfumado.
Que é melhor, fazer a barba com lâmina ou com máquina: É tudo uma questão de gosto. A máquina é mais rápida e exige menos operações, mas há quem diga que a barba não fica tão bem feita. A máquina não descasca a epiderme nem retira a gordura da superfície da pele, o que é importante para quem tenha a pele seca; mas, mesmo com máquina eléctrica, pode cortar-se se houver saliências na pele. Barbear com máquina pode dei­xar uma sensação de ardor.
Por­ tanto, para quem usa máquina:
1) Lave o rosto com água e sa­bonete e depois enxugue-o muito bem; a pele húmida poderá difi­cultar o deslizar da máquina.
Se nessa fase aplicar loção para antes da barba ou talco, isso ajuda a secar a pele e a levantar os pêlos.
2) Barbeie-se contra o correr dos pêlos, mantendo a máquina per­pendicular à pele e fazendo uma ligeira pressão.
As vezes é conve­niente barbear-se com movimen­tos circulares, porque em certas áreas os pêlos crescem em direcções diferentes. Estique um pouco a pele para levantar os pêlos encaracola­ dos ou deitados.
3) Limpe a máquina depois de usá-la.
As lâminas precisam de ser mudadas periodicamente. Estas técnicas dão resultado. Acre­ dite em alguém que, durante boa parte da vida, lutou com proble­mas ao barbear-se e que agora, de­ pois de tê-las experimentado, lamenta todos aqueles anos de so­frimento inútil. Esta manhã, depois de ter o meu rosto descongestio­nado, barbeei-me com lâmina; às 5 da tarde, dei mais um retoque com a máquina eléctrica. De ambas as vezes fiz a barba sem dor e o meu rosto ficou tão macio como o de um bebé. Só há um senão: amanhã vou ter de fazer tudo de novo.

4 comentários:

  1. Excelentes as suas dicas!
    Sou um pouco relapso com a barba, mas embora seja funcionário público, não lido propriamente com o público, porque sou biólogo e cuido de epidemias, mas vou aproveitar suas dicas sim, que são muito boas.
    Um abraço e um ótimo domingo!

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  2. Olá!

    Por acaso, desconhecia o significado dessa palavra.
    Trata-se de uma palavra que não aparece nos dicionários que costumo consultar mas existe: «pógon», prefixo grego que designa barba + «tomia», sufixo grego que designa corte.
    Como curiosidade, «pogoníase» é a palavra que designa o desenvolvimento da barba numa mulher.

    Parabéns pelo post!

    Um abraço!

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  3. Este é tipo de problema que não tenho. Pouca barba.

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  4. Felizes são o Índios... eu odeio fazer barba...

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