Os medos e as fobias de andar de avião

Técnicas para acabar com o medo de viajar de avião
A Ptesiofobia é o termo científico para designar o medo de viajar de avião. É um mal comum. São muitos os milhões de adultos que têm medo de viajar de avião. Esse medo muitas vezes surge dias ou semanas antes da viagem, provocando mal-estar contínuo, insónia, náusea e diarreia. Algumas pessoas chegam mesmo a cancelar as reservas. Outras vão para o aeroporto, mas voltam para casa. E depois que se encontram a bordo, o voo é sempre um pesadelo.
Muitas pessoas confessam sentir pânico, vontade de chorar e uma sensação acabrunhante; algumas não conseguem mexer-se nem falar. Por exemplo: em tempos houve uma mulher que cravou as unhas no braço do marido com tanta força que chegou a fazer sangue.
A verdade é que esse medo é inteiramente desproporcionado em relação ao perigo. Viajar de avião em voos normais é seguro. É certo que as estatísticas sobre segurança a bordo pouco ajudam a tranquilizar o passageiro medroso. Como dizia Einstein: «A imaginação tem mais força que o conhecimento.» Se você tem medo de viajar de avião, o medo torna-se um hábito subconsciente, que o aprisiona ou pelo menos o limita. Cresce insidiosamente, acabando por tornar-se algo insuperável.
Felizmente, o medo de viajar de avião é uma das fobias mais fáceis de tratar; mas primeiro é preciso que compreenda que o problema não é exterior a você. Andar de avião é uma das maneiras mais seguras de viajar, por isso não é o avião, ou a tripulação, ou os controladores aéreos que lhe causam medo. O problema são as emoções que você próprio criou. Depois, deve entender que voltar as costas à origem do problema só faz com que o medo aumente. A única maneira de superar uma fobia é deixar de evitá-la.
Eis um método para você enfrentar esse medo e derrotá-lo:
1º - Visite os aeroportos. Num qualquer ponto da área de todos os aeroportos existe um local de onde se podem ver os aviões aterrando e levantando voo. Observe as diferentes marcas e tamanhos; saiba em que tipo de avião vai viajar e aprenda a reconhecê-lo;
2º - Chegue ao aeroporto cedo. Conte com uma hora no mínimo para fazer o check-in e passar o controle da segurança. As correrias só servem para aumentar a sua ansiedade;
3º - Considere a hipótese de Viajar com uma pessoa que compreenda seu problema. Saiba que vai estar nervoso, excitado e pouco à vontade. Respire fundo, para sentir uma sensação de autodomínio. O movimento é um outro antídoto, por isso levante-se e espreguice-se, mexa-se de um lado para o outro.
4º - Escolha um lugar o mais na frente possível do avião; é mais sossegado e balança menos. Esforce-se por agir em vez de reagir; tente puxar conversa com outro passageiro; 5º - Mesmo quando já estiver sentado e de cinto apertado, pode fazer muita coisa para aliviar a tensão. Boceje; sorria para o vizinho do lado. Preste atenção à demonstração de como agir em caso de emergência.
6º - Respire fundo no momento em que o avião se alinhar para a descolagem. Recoste-se na cadeira, mantendo-se de olhos abertos. Não agarre os braços da cadeira; isso ainda o porá mais tenso. Mova os dedos dos pés cada vez mais depressa com a aceleração, o que o ajudará a relaxar-se. E reflicta: a descolagem só demora de 35 a 40 segundos.
7º - Depois da descolagem, preste atenção ao ruído do trem de aterragem sendo recolhido e ao toque da campainha que indica que o aviso de não fumar foi desligado. Considere os sons e movimentos do avião como sendo normais. Se aprender a relaxar, a sua procura constante de sons sinistros desaparecerá;
8º - Não deixe que os seus receios aumentem devido à turbulência do ar. Um voo turbulento é como andar num barco veloz num lago agitado, ou guiar um carro numa estrada esburacada. Desde que o cinto esteja apertado, a turbulência não tem a mínima importância, nem para você nem para o avião, que é tão forte como um navio de guerra. Se, devido ao seu nervosismo, você começar a tremer, acelere o ritmo dos tremores: isso fará com que volte ao seu estado normal. Depois de estar controlado, vai deixar de tremer gradualmente;
9º - Familiarize-se com as técnicas de voo. Se, por exemplo, viajar através de nuvens o enerva, porque você pensa que há perigo de colisão com outros aviões, informe-se o melhor possível sobre o trabalho dos controladores aéreos; isso vai acalmá-lo. Saiba que os aviões que vão em direcção a oriente voam a uma altitude de 8.100 m, 8.700 m, 9.900 m e 11.000 m; os que vão para ocidente voam a uma altitude de 7.800 m, 8.400 m, 9.300m e 10.500m. A distância que separa os voos, a altitudes inferiores a 8.700 m, é de 300 m; e de 600 m para voos a altitudes superiores a 8.700 m. Em geral, a distância mínima na horizontal entre os aviões que estão controlados pelo radar é de 9.300m;
10º - Viaje sóbrio. Muitos passageiros medrosos bebem demais antes do embarque; beber é contraproducente. Essa conclusão foi tirada por pessoas que começaram a viajar sóbrias, porque a bebida não as ajudava. Por exemplo: em tempos houve um homem, um bebedor moderado, que bebeu demais num voo e acabou por perder a noção das coisas. Depois acordou na manhã seguinte sem saber em que cidade ou hotel estava. Os calmantes também só servem para agravar o problema.
Quando tiver superado o seu medo, aprecie a liberdade que isso lhe proporciona!
Viajar de avião é praticamente indispensável no século XXI.
Jogue para trás das costas esse medo e essa limitação e tenha uma óptima viagem!

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O ouvido e a audição: funções e doenças

O aparelho auditivo
As funções do ouvido
O ouvido desenvolve duas funções importantes: aquela da audição e aquela do equilíbrio. É também uma parte das vias respiratórias. O ouvido recebe as vibrações sonoras e transforma-as em impulsos nervosos que são transmitidos ao cérebro que, por sua vez, interpreta a mensagem sensorial.
O equilíbrio encontra-se à base dos movimentos do corpo. Este depende essencialmente do ouvido interno, mas um papel muito importante é desempenhado também pelo olho, pelos receptores tácteis da pele, pelos músculos e pelos membros. Todas as informações destes órgãos são organizadas no cérebro, que coordenando-as assegura o equilíbrio.
Estrutura do ouvido
O ouvido externo:
O ouvido externo contém numerosos nervos e vasos sanguíneos. É constituído pelo pavilhão auricular, a parte visível e mais externa do ouvido, e pelo canal auditivo. O canal auditivo parte do pavilhão auricular e chega até à parte compacta (rochedo) do osso temporal.
O canal auditivo contém numerosas glândulas, ceruminosas e sebáceas, e folículos pelíferos. As glândulas ceruminosas segregam uma substância (o cerúmen) que captura as poeiras e outras partículas microscópicas. O cerúmen é por conseguinte empurrado em direcção ao pavilhão auricular através do canal auditivo. O sebo segregado pelas glândulas sebáceas lubrifica o ouvido. No fundo do canal auditivo encontra-se o tímpano, constituído por tecido conjuntivo muito resistente. A espessura é de apenas um milímetro e o diâmetro de um centímetro.
O ouvido médio:
Chamado também caixa do tímpano, o ouvido médio é uma cavidade escavada ao interno do osso temporal, que canaliza, amplificando-as, as vibrações sonoras recolhidas pelo ouvido externo. O ouvido médio encerra três ossículos ligados entre eles. O mais próximo do tímpano é o martelo, seguem a bigorna e por fim o estribo. O estribo adere através da sua base à janela oval, uma membrana situada à entrada do ouvido interno. No fundo do ouvido médio começa um longo canal de 4 centímetros, a trompa de Eustáquio, que termina na faringe. A trompa de Eustáquio é circundada por muitos músculos e a sua mucosa encerra glândulas que segregam um líquido viscoso.
O ouvido interno: O ouvido interno, chamado também labirinto, é constituído por uma parte auditiva e por uma parte que preside ao equilíbrio. É formado por numerosas cavidades localizadas ao interno do osso: a cóclea (ou caracol), o vestíbulo e os canais semicirculares. Estas cavidades encerram um líquido, a perilinfa, e são forradas por um saco membranoso, formado por tecido conjuntivo que assume a forma do osso. Também o labirinto membranoso contém um líquido viscoso, a endolinfa.
A parte auditiva do ouvido é constituída pelo caracol membranoso, pelo canal coclear e por um pequeno saco membranoso, o sáculo. O nervo auditivo, ao interno do caracol, decifra os movimentos do líquido do qual está emprenhada esta estrutura. O sistema que controla o equilíbrio é constituído por um saco membranoso, o utrículo, do qual partem os três canais semicirculares. Estes canais estão forrados por células sensoriais que registam os movimentos da endolinfa. Os impulsos são sucessivamente transmitidos ao cérebro através do nervo auditivo coclear.
Como funciona o ouvido
A audição:
O ouvido capta as ondas sonoras e analisa-as. O som é uma vibração física do ar cuja frequência audível pelo ouvido humano situa-se entre os 16 e os 16.000 Hertz. Alguns animais podem ouvir frequências mais baixas (o elefante, por exemplo, pode ouvir sons de 12-14 Hz) ou mais altas (os ultra-sons perceptíveis pelos cães, pelos mamíferos marinhos ... ).
As ondas sonoras são captadas pelo pavilhão auricular e transmitidas ao tímpano através do canal auditivo. O tímpano é uma membrana elástica que vibra á mesma frequência das ondas sonoras, amplificando proporcionalmente a intensidade dos sons. Os ossículos transmitem as vibrações através do ouvido médio até à janela oval.
Os sons, no decurso desta transmissão, são amplificados por um fenómeno puramente físico devido à estrutura anatómica do ouvido médio, dando-nos assim a possibilidade de captar também aqueles muito fracos. Quando a base do estribo exerce uma pressão sobre a janela oval, a perilinfa, o líquido que se encontra na cavidade do ouvido interno move-se e oscila com a mesma cadência das ondas sonoras.
Os movimentos da perilinfa transmitem-se ao líquido dos sacos membranosos, cujas oscilações são decifradas pelas cerca de 20.000 células sensoriais (células ciliadas) presentes ao interno do caracol. As células ciliadas são estimuladas pelos movimentos da endolinfa que provocam os impulsos nervosos. Na ausência de rumores, as células ciliadas encontram-se em estado de repouso e carregam-se electricamente. Quando as ondas sonoras alcançam o ouvido interno, a electricidade é transformada em impulsos nervosos que, através do nervo auditivo, alcançam o cérebro.
A profundidade da penetração das ondas sonoras no caracol é em função da sua frequência. Os sons com uma frequência alta não penetram muito profundamente no caracol, enquanto que aqueles com baixa frequência penetram em profundidade. Desta maneira, o cérebro pode diferenciar os vários sons conforme a sua localização no caracol. O cérebro determina a intensidade de um som em função da quantidade de impulsos transmitidos pelas células ciliadas. Quanto mais o som é forte, maior é o número de impulsos nervosos que estas enviam.
A pressão:
Para que o ouvido médio possa funcionar da melhor maneira, é necessário que a sua pressão interna seja igual à pressão atmosférica. Se a pressão é demasiado forte ou demasiado fraca, as vibrações do tímpano são estorvadas, a transmissão das ondas sonoras não é boa e a audição é fraca.
A trompa de Eustáquio, que desemboca na faringe, está em contacto com o ar externo através da boca e do nariz. Esta configuração permite à trompa de Eustáquio de regular a pressão entre o ouvido médio e o ar externo.
O equilíbrio entre estas pressões é regulado a cada deglutição de saliva ou de comida; daqui a utilidade de chupar rebuçados ou mastigar chewing-gum num avião no momento da descolagem e da aterragem, num automóvel na montanha, ou durante uma descida com os esquis. A obstrução da trompa de Eustáquio, causada por uma infecção ou por uma inflamação das vias respiratórias, impede o equilíbrio entre a pressão interna e externa, provocando então dores no tímpano e abaixamento da audição.
Os órgãos do equilíbrio:
Os órgãos do equilíbrio do ouvido interno constituem o aparelho vestibular. As duas partes do ouvido denominadas utrículo e sáculo são muito ricas de células sensoriais. Quando o corpo se move, a endolinfa coloca-se em movimento e actua sobre as células sensoriais provocando alguns impulsos nervosos. Graças a estes impulsos, o cérebro pode determinar a posição do corpo.
Os movimentos da cabeça não são registados nos dois sacos membranosos mas nos canais semicirculares. Estes canais partem do utrículo e terminam nas bolsas dilatadas, as ampolas, que contêm numerosos corpos tácteis providos de células sensoriais. Estas células apresentam-se sob a forma de um único cílio terminante num grânulo ou otólito. Quando movemos a cabeça, o líquido que enche os canais semicirculares derrama-se nas ampolas.
O deslocamento do líquido curva os órgãos tácteis que transmitem impulsos nervosos ao cérebro. Os sinais emitidos pelas células ciliadas não chegam somente ao cérebro, mas alguns destes alcançam directamente os músculos do pescoço, permitindo-nos de manter a cabeça direita. Graças a estes reflexos, os músculos conferem estabilidade ao corpo. Os movimentos da cabeça actuam também sobre os olhos. Quando a cabeça roda numa direcção, os músculos oculares reagem simultaneamente e o olho move-se na direcção oposta para conservar uma imagem fixa.
Exame do ouvido
O ouvido externo:
O médico examina o ouvido externo com o auxílio de um pequeno funil e de uma lâmpada ou com um pequeno microscópio introduzido no ouvido. Desta maneira, podem-se ver o canal auditivo e o tímpano.
Exame audiométrico:
Para examinar a audição de um paciente, o médico pode efectuar quer uma audiometria vocal, ou seja fazer-lhe ouvir uma voz humana, quer uma audiometria tonal, que consiste em fazer ouvir ao paciente sons de frequências e intensidades diferentes. Os resultados são registados num diagrama que a seguir é analisado.
Para completar a audiometria tonal, pode-se também fazer um exame do aparelho auditivo com o auxílio de um diapasão aplicado alternativamente em frente do canal auditivo externo e contra os ossos do crânio, frontal e temporal. Estes exames são denominados teste de Rinne e teste de Weber. A diminuição do ouvido pode ser causada por uma lesão do tímpano. Em tal caso a membrana é examinada com técnicas que medem os seus movimentos quando é submetida a um estímulo.
O equilíbrio:
As doenças que têm repercussões sobre o equilíbrio podem provocar lesões quer ao interno dos próprios órgãos do equilíbrio quer a nível do nervo auditivo. Para poder identificar estas lesões, o médico verifica o equilíbrio em posição erecta, controla a precisão dos gestos e verifica a ausência de movimentos oscilatórios anómalos e involuntários do globo ocular (nistagmo).
As doenças do ouvido
O ouvido, como todos os órgãos, pode ser a sede de doenças infecciosas, inflamatórias, tumorais, mas também de perturbações funcionais específicas.
As doenças do ouvido externo:
Afectam em princípio o canal auditivo. As três afecções mais frequentes são a impetigem, o eczema e a obstrução. Esta última pode ser causada por um corpo estranho introduzido acidentalmente no ouvido ou por um rolhão de cerúmen formado pela acumulação de cera endurecida. Por vezes, para a extracção de um rolhão, toma-se necessária uma lavagem médica do canal auditivo.
As doenças do ouvido médio:
Afectam o tímpano, a cadeia de ossículos, as paredes da caixa do tímpano e a trompa de Eustáquio. As doenças infecciosas que podem causar uma otite média são frequentes. A inflamação da trompa de Eustáquio, ou catarro auricular, compreende a presença no ouvido médio de um líquido que não pode defluir e exerce uma pressão dolorosa sobre o tímpano. Os ossículos podem ser afectados pela otosclerose, uma espécie de anquilose mecânica que diminui notavelmente a audição.
As doenças do ouvido interno:
As afecções virais do vestíbulo e da cóclea comprometem seriamente a audição, sem possibilidade de recuperação quando são afectadas as células sensoriais. As perturbações vasculares do ouvido interno estão à origem de vertigens, zumbidos, perturbações do equilíbrio e da síndroma de Méniere, que se manifesta com estes sintomas. Também um tumor particular do nervo auditivo, o neurinoma do nervo acústico, provoca a surdez.
Os traumatismos:
Os traumatismos do ouvido externo, pavilhão e canal, são pouco perigosos. Aqueles do ouvido médio, provocados em princípio por um traumatismo sonoro ou por uma explosão, são mais graves: tímpano perfurado, forte risco infeccioso, lesões dos ossículos.
Outras doenças
Muitas outras doenças afectam o ouvido: tumores do canal auditivo, herpes­zóster, lesões vasculares, arteriosclerose, lesões degenerativas causadas por uma intoxicação farmacológica, muitas vezes a seguir ao consumo de certos antibióticos. Existem também alguns tipos de surdez de natureza congénita, associadas em princípio ao mutismo, que necessitam de uma assistência médica precoce.

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Serpa Pinto: o cruzador de África

O explorador africano
"Assim como só o homem que, sendo pai, pode compreender a dor pungente da perda de um filho, assim também só o homem que foi explorador pode compreender as atribulações de um explorador."
Militar e explorador africano, Alexandre Alberto da Rocha Serpa Pinto nasceu em 1846, em Cinfães (Portugal). Aluno do Colégio Militar, alistou-se na arma de infantaria em 1863, sendo promovido a alferes no ano seguinte. Participou em acções em Moçambique, no âmbito das campanhas de ocupação da Zambézia, em 1869, ano em que se vê promovido ao posto de tenente. Em finais de 1877, já capitão, integrou com Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens (autores das obras "De Angola à Contra-Costa" e "De Angola às Terras de Iacca"), a supracitada expedição científica, autorizada pelo ministro da Marinha e Ultramar, José de Melo Gouveia, e subsidiada com um crédito de 30 contos de réis. Os encargos da missão eram vários: observações quanto à topografia, sistemas fluviais e clima, agricultura, zoologia, costumes e raças dos povos indígenas. De tudo isto fez Serpa Pinto registo, como homem do seu tempo, figurando na obra que nos deixou vários mapas e desenhos.
Portugal pretendia confirmar os direi­ tos de soberania sobre as terras onde, há séculos, exercia efectivo domínio, valorizando-as, assim como aos povos que as habitavam. O interior de Angola e Moçambique passou a interessar os vários governos que, para além de desejarem conhecer a fronteira exacta dos nossos domínios, temiam a ambição estrangeira sobre esta zona. A verdade é que Portugal queria para si os territórios compreendidos entre Angola e Moçambique (o célebre projecto do Mapa Cor-de-Rosa que os ingleses acabariam por destruir com o seu ultimato de 1890, crise que ajudou ao descrédito da monarquia) e olhava apreensivo para um Livingstone, calcorreador da zona dos Grandes Lagos, descobridor da nascente do rio Congo, um Stanley, que lhe seguia as peugadas ("Dr. Livingstone, I presume?"), percorrendo o mesmo rio até à foz e muitos outros estrangeiros que "mordiscavam" a zona por nós pretendida. A consciência nacional despertou, então, para o perigo que rondava as nossas possessões africanas. Graças ao entusiasmo de alguns bravos, nomeadamente, Luciano Cordeiro, fundou-se a Sociedade de Geografia de Lisboa, destinada a defender os nossos interesses em África, foi sob os seus auspícios que partiu a expedição dos nossos três homens.
A bifurcação da expedição
Os três exploradores rumaram para Angola munidos de boa aparelhagem científica adquirida em Paris e Londres e de grandes do­ ses de quinino. Chegaram a Luanda no dia 6 de Agosto de 1877, no vapor "Zaire". Os três decidiram começar por fazer o reconhecimento dos sertões, apesar de, ao longo de toda a viagem, sofrerem inúmeros problemas com os carregadores. Em Cabinda, avistaram Stanley, explorador anglo-americano, ao serviço do terrível Leopoldo II da Bélgica, o qual acabara de descer o Zaire: "Foi comovido que apertei a mão de Stanley, homem de pequena estatura, que a meus olhos assumia proporções de vulto colossal"
Na figura (em cima): As viagens portuguesas na África Austral, na 2ª metade do século XIX.
Reconhecendo a impossibilidade de subir o curso do rio, optaram por Benguela como via de penetração para o Bié, a primeira grande etapa da viagem. Antes de chegarem ao Bié, os exploradores com as tarefas divididas - Ivens encarregado dos trabalhos geográficos, Capelo de meteorologia e ciências naturais, e Serpa Pinto do pessoal auxiliar da expedição - passam por Quilingires e Caconda, registando Serpa Pinto dados curiosos: "Nos Quilengues, o adultério é coisa de grande estimação para os maridos, sendo que por lei fazem pagar ao amante multa que se traduz em gado e água-ardente. A mulher que não tem cometido algum adultério é mal vista do marido, que não aumenta o seu haver por esse meio."
Em Caconda, fica decidido que Serpa Pinto partirá para o Huambo, com a finalidade de obter carregadores. Durante o percurso, recebe uma carta dos companheiros que o deixa angustiado: "Diziam-me que tinham resolvido seguir sós ( ... ) Só o pouco ou nenhum conhecimento do sertão africano que então tinham os meus companheiros podia desculpar um tal proceder. ( ... ) Que seria de mim, logo que se soubesse que toda a minha força consistia em dez homens? ( ... ) Devia seguir avante? Tinha o direito de arriscar as vidas dos dez homens que me cercavam e que dormiam tranquilos junto de mim?"
O intrépido explorador decidiu avançar e, depois de 20 dias sofridos, Serpa Pinto chegou ao Bié, onde, na povoação de Belmonte, se instalou na casa de Silva Porto. Aí reencontra os seus companheiros de viagem: "Eles, confirmando o que me tinham escrito, disseram-me que iam continuar sós e que me deixariam uma terça parte de fazendas e material, salvo as coisas indivisíveis que guardariam."
Coberto de sanguessugas, Serpa Pinto achou-se muito melhor e, enquanto Ivens e Capelo seguem para o Norte, explorando a zona do Cuango e procedendo ao levantamento de toda a região entre os rios Zaire e Zambeze, ele dirige-se para sul, insistindo na travessia de África de modo a alcançar a costa oriental, essa sim, importante para o reconhecimento da soberania portuguesa entre as duas possessões. I vens e Capelo, com muita dificuldade, vão até às nascentes do Cuanza, encontram o rio Lucala e atingem a Fortaleza do Duque de Bragança. A sua primeira expedição termina na terra de Iacca.
A falta de meios e as condições adversas impedem-nos de atingir a meta por eles estabelecida (a segunda expedição de Capelo e Ivens realizou-se em 1884-85 e destinou-se à tentativa de ligar Moçâmedes a Quelimane). Serpa Pinto lá se dirigiu para o Zambeze, anotando no seu diário, a par dos registos científicos, o dia-a-dia de um explorador.
Rumando para o Sul
Mais uma vez, a doença (paludismo) e as febres altas acometem Serpa Pinto, esmorecendo-lhe o ânimo. São as cartas de Silva Porto que o animam: "Estou velho, mas rijo e forte; se o meu amigo se vir num desses trances, vulgares no sertão, em que a esperança se perde, faça-me chegar às mãos uma carta sua porque no mais curto espaço possível eu serei consigo e comigo irão todos os recursos, todos os socorros".
Restabelecido, Serpa Pinto lançou-se à aventura, prosseguindo por caminhos difíceis, através do Alto Cuanza e do Alto Cuango. Chegou ao Zambeze muito doente e, não podendo continuar pelo curso do grande rio, que o levaria à costa moçambicana do oceano Índico (a sua meta), rumou pelo Calaári, ladeando o lago Makarikari, até Pretória. Daí, foi completar a viagem em Durban, onde chegou a 19 de Março de 1879. Uma travessia de quatro mil quilómetros chegava ao fim, embora também ele tivesse falhado, uma vez que não conseguira estabelecer a ligação entre Angola e Moçambique. Contudo, a sua odisseia foi acolhida na pátria com grande entusiasmo, pois muitos julgavam-no morto.
Transformado em herói nacional, Serpa Pinto é solicitado pelas Sociedades de Geografia europeias a conferenciar sobre a sua experiência em África. Nomeado cônsul português em Zanzibar, aí permanece pouco tempo. Em 1889, comandou uma missão científica ao Alto Chire, a fim de preparar a implantação de uma via férrea que estabelecesse a comunicação entre o lago Niassa e o oceano Índico, através do Chire e do Zambeze. Os ingleses não suportam Serpa Pinto naquelas paragens, acusando-o de ter atacado as tribos de Macolos (rebeldes apoiados e armados pela Inglaterra) e, no seu ultimato de 1890, exigem a retirada do major Serpa Pinto do Chire, assim como a retirada de toda e quaisquer forças militares portuguesas. Caso contrário, ameaçam, Portugal teria de se haver com o poderio militar dos "velhos aliados" ... A nação sofreu um grande choque, aproveitado pelos republicanos para desacreditarem a monarquia.
Serpa Pinto mereceu as mais altas condecorações nacionais e foi ainda ajudante de campo do rei D. Carlos. A sua popularidade começou a declinar, sobretudo entre os meios republicanos, mas hoje, volvidos 100 anos sobre a sua morte, o grande explorador oitocentista é lembrado pela tenacidade com que atravessou, ainda que doente e com poucos carregadores, o inóspito continente africano. Como ele próprio escreveu: "Vencer as suas paixões indómitas, vencer os seus hábitos materiais e morais da vida civilizada, são os dois grandes trabalhos do explorador. Aquele que o conseguiu atingirá o seu fim, cumprirá a sua missão." E Serpa Pinto cumpriu a sua .
Um portuense em África
António Francisco Ferreira da Silva acrescentou ao seu nome o apelido Porto, aos 18 anos, por ter sido a cidade onde nasceu. Silva Porto terminou os seus dias no Bié, justamente no ano do ultimato inglês. Este "velho sertanejo", como lhe chamava Serpa Pinto, foi o fundador da povoação de Belmonte, em 1847 (depois chamada Silva Porto e actual Cuito, capital da província angolana do Bíé). Percorreu os mais "longínquos sertões africanos, tendo de sustentar cruento combate com um gentio ávido de rapina", a ele se ficou a dever um melhor conhecimento do Bié. Também Silva Porto tentou uma travessia para alcançar a costa oríental africana, acompanhando mercadores árabes.
Durante a viagem, encontrou o Dr. Livingstone, com o qual trocou informações. O portuense acabou por desistir da travessia quando se encontrava no Alto Zambeze. No entanto, pombeiros seus (chefes dos carregadores) atingiriam Moçambique. Regressou a Portugal mas a saudade fê-lo voltar a África, constatando que um grande incêndio lhe tinha destruído todos os seus haveres. Sozinho, sem os apoios da Sociedade de Geografia ou do rei D. Luís, aos quais pedira ajuda, reconstruiu as instalações de Belmonte. Já capitão-mor do Bié, uma revolta de indígenas contra os colonos portugueses levou-o ao desespero. Não conseguindo demover os chefes da rebelião, envolveu-se na bandeira nacional, sentou-se em cima de um barril de pólvora e fê-lo explodir. Um estranho suicídio de um sertanejo determinado, explorador destemido e autor de vários relatos, nomeadamente "Apontamentos de um Portuense em África".

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Úlcera Gástrica

O que é a úlcera?
A úlcera é uma ferida, uma erosão mais ou menos profunda da parede do estômago. Esta ferida provoca dores mais fortes quando se está em jejum do que com estômago cheio pois os alimentos servem como uma camada de protecção. Na sua fase aguda, ou num estágio avançado, a úlcera sangra.
Esta doença afecta sobretudo os homens, mais do que mulheres, e raramente se manifesta antes da adolescência.
Na maioria dos casos a úlcera é precedida por moléstias gástricas como azia, eructações ácidas e digestão difícil. Os ataques de úlcera gástrica aparecem principalmente durante a primavera e o Outono.
SINTOMAS:
-->Dores no abdómen que se podem irradiar para as costas, mais fortes se em jejum, mais leves com o estômago cheio;
-->Falta de apetite;
-->Eructações ácidas;
-->Enjoo;
-->Vómito;
-->Garganta irritada.
Quais são as causas da úlcera?
A acidez do suco gástrico desempenha um papel importante. Propiciada pelo stress, pelo estilo de vida, pelo álcool e pelo tabaco, a acidez aumenta quando se tomam remédios anti­inflamatórios ou aspirina.
A regulação da secreção ácida depende do sistema neurovegetativo, cujos mecanismos podem ser alterados. A camada do muco que forra e protege a parede do estômago pode ser modificada ou desaparecer. Quando junto com uma acidez excessiva há uma produção de muco insuficiente, pode aparecer uma úlcera.
Na maioria dos casos de úlcera constatou-se a presença de uma bactéria, a Helicobacter pylori, que, provavelmente, é responsável pelo desaparecimento da camada mucosa facilitando assim a sua agressão. A destruição da bactéria mediante um antibiótico elimina o perigo cavidade do de reincidência e reduz o risco de cancro gástrico.
A úlcera gástrica é uma doença causada por muitos factores: predisposição familiar, sistema neurovegetativo desregrado, hábitos alimentares, estilo de vida pouco saudável e Helicobacter pylori.
Tratamento da úlcera
Normalmente, a úlcera é tratada com medicamentos específicos. Há vários, incluindo os que neutralizam a acidez do suco gástrico. A eficácia sempre maior destes remédios torna inútil, na maioria das vezes, uma intervenção cirúrgica.
Importante é também modificar o próprio estilo de vida tentando evitar o stress, o álcool, o tabaco e alimentar-se e dormir regularmente.
Quando é necessário consultar um médico?
No caso em que haja, há muito tempo, uma gastrite ou se reconhecerem os sintomas. Não perca tempo pois a úlcera pode piorar e tornar-se perfurante. A perfuração produz hemorragias e requer tratamento imediato.
O que faz o médico?
Confirma o diagnóstico mediante uma radiografia ou endoscopia - um tubo muito fino que, através da boca, desce até ao estômago. Este instrumento, o endoscópio, permite ao médico explorar a mucosa, fazer pequenas excisões do tecido e tirar fotografias. Depois de algumas semanas faz-se outra endoscopia para observar a evolução da mucosa e verificar a eficácia do tratamento.
O que podemos fazer?
Consultar um médico, que irá ordenar um tratamento, e seguir os seus conselhos a respeito da alimentação e do estilo de vida.
Como evitar a úlcera?
Evitando stress, fadiga, tabaco, álcool e café. Procure viver de maneira saudável e comer e dormir regularmente.
Qual é a evolução da úlcera gástrica?
Uma úlcera pode não dar sintomas mas, na maioria dos casos, provoca fortes dores sobretudo antes das refeições mas estas diminuem após ter-se alimentado. As dores acompanham-se à irritação da garganta e a eructações ácidas, às vezes a vómito com resquícios de sangue. Após um ou dois meses de tratamento, a chaga sara e apenas em alguns poucos casos é necessária uma operação. Mas se o paciente continuar com os seus maus hábitos alimentares, a úlcera pode reaparecer.
A úlcera é perigosa?
Uma úlcera normal não cria preocupações. Mas, no caso de perfuração da parede do estômago ou do duodeno, as complicações são graves: hemorragia forte, peritonite.

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