Aviadores portugueses

Os pioneiros dos Céus
Na figura (em cima) partida do "Lusitânia" junto à Torre de Belém, em Lisboa.
Quando se fala nos grandes feitos da aviação portuguesa, dois nomes se destacam, os de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral, navegador e piloto, respectivamente, que efectuaram pela primeira vez a travessia aérea do Atlântico Sul. A 30 de Março de 1922 saíram de Lisboa e foram necessários três aviões para que, a 17 de Junho, amarassem com êxito no Rio de Janeiro. Esta primeira travessia, baseada somente na navegação astronómica feita a partir do avião, encheu de orgulho os portugueses. Mas na realidade, nessa década e na seguinte, muitas outras viagens pioneiras foram realizadas.
Os relatos das suas viagens, em edições amarelecidas pelo tempo, revelam toda a aventura e dramatismo que viveram, os dias de incerteza e inquietude, o desafio de uma luta árdua contra os elementos e as limitações tecnológicas da época nos céus africanos e asiáticos. Impressões pessoais, escritas com grande entusiasmo, quase todas dedicadas a companheiros ausentes, vítimas de desastres de aviação. Livros cuja venda revertia para os familiares desses mesmos mortos. Como se todos os homens que tivessem voado juntos pertencessem à mesma e única família.
Viagem até Macau no aeroplano "Pátria"
José Manuel Sarmento de Beires (1892­ -1974) nasceu em Lisboa. Em 1916, terminou o curso de engenheiro militar na Escola de Guerra. Um ano mais tarde, com o posto de alferes, fez o primeiro curso de pilotagem militar efectuado em Portugal. Em Julho desse ano, promovido a tenente, partiu para França, onde frequentou cursos de aperfeiçoamento e se especializou como piloto de caça. Em 1919, regressou a Portugal para o Grupo de Esquadrilhas de Aviação "Repúbbica".
Sarmento de Beires foi o primeiro piloto a efectuar uma missão de voo nocturno em Portugal, a 22 de Janeiro de 1920. Nesse ano tentou alcançar a Madeira a bordo do avião "Cavaleiro Negro". Com ele, ia António Jacinto da Silva Brito Pais (1884-1934), outra figura grada dos primeiros tempos da aviação nacional.
Nascido em Vila Nova de Milfontes, também Brito Pais havia ingressado na Escola de Guerra em 1907 para cursar Infantaria. Promovido a alferes em 1910, participou em operações militares no Sul de Angola, regressando em 1912 à metrópole, por doença. Devido à sua acção brilhante nas trincheiras da Flandres, recebeu a Cruz de Guerra e a Torre e Espada.
Detentor de um "brevet" de piloto­ aviador desde 29 de Novembro de 1917, distinguiu-se em combate nos céus de França, incluído em esquadrilhas francesas. No fim da I Grande Guerra foi colocado no comando do Grupo de Esquadrilhas de Aviação "República". É então que, com Sarmento de Beires, irá tentar a malograda ligação aérea à Madeira, em 1920. O naufrágio dá-se a 400km de Lisboa, depois de 1.500km de viagem e de o nevoeiro - o terrível inimigo dos aviadores de então - ter feito abortar a aterragem na ilha. Foram recolhidos no mar pelo navio "Gambia River".
Em 1924, os dois homens, acompanhados do então oficial-mecânico Manuel Gouveia - o qual, pouco depois, terminaria o curso de piloto-aviador, atravessando em 1927, com Jorge Castilho e Sarmento de Beires, o Atlântico Sul, num voo nocturno pioneiro, a bordo do "Argos" - realizaram a primeira viagem aérea Lisboa-Macau.
Sobre Manuel Gouveia (1890-1966), Sarmento de Beires teceu elogiosas palavras: "( ... ) no meio da indiferença e da desconfiança quase gerais, o seu gesto constitui um exemplo raro de fé, de idealismo e de dedicação".
Em Junho de 1921, o aeroplano "Breguet XVI", com motor Renault de 300 cavalos, estava nos hangares da actual cidade da Amadora. Enquanto os mecânicos o preparavam para a grande viagem, Brito Pais escolhia o nome e mandou inscrever na tela da fuselagem o verso dos "Lusíadas": "Esta é a ditosa PÁTRIA minha amada".
O "Pátria" efectuou os primeiros voos nos arredores de Lisboa e, o facto de Gago Coutinho e Sacadura Cabral estarem a realizar a viagem Lisboa-Rio de Janeiro, levou Sarmento de Beires e Brito Pais a colocarem de parte o projecto inicial de tentar a travessia do Atlântico Sul.
Assim, somente em 1924 o "Pátria" descolou da actual cidade da Amadora rumo a Vila Nova de Milfontes (Sul de Portugal – Alentejo). Ali chegados, a aeronave foi baptizada pelo bispo de Beja, D. José do Patrocínio Dias. Maria do Céu (a irmã de Brito Pais) quebrou no cubo da hélice a tradicional garrafa de champanhe. As palavras de Sarmento de Beires: "O pai tirou do dedo o anel brasonado da família e entregou-o ao filho que vai partir. No capitão Brito Pais, concentrava-se naquele instante a tradição impoluta de uma família inteira."
Na figura (em cima) - Sarmento de Beires e Brito Pais juntos ao aeroplano "Pátria" em Rangum (Índia).
A 7 de Abril, partem decididos a estabelecer a ligação a Macau. Manuel Gouveia, viajaria de barco até Tunes, onde se juntaria à tripulação. A viagem começou mal, devido a um forte temporal. Indiferentes ao perigo, fazem descolar o "Pátria" em direcção a Tunes, mas o mau tempo obrigou-os a escalar Málaga e depois Oran: "As cordas zunem, as asas estalam, tudo range. Mãos crispadas nas alavancas de comando, sentimos o aparelho que se despenha, se furta debaixo de nós, que nos abandona no espaço, que parece ir despe­daçar-se em pleno voo. O pesadelo dura alguns segundos."
Embarcado Manuel Gouveia em Tunes, o voo decorre sem problemas de maior, passando por Tripoli, Homs, Bengazi e Cairo.
Viagem a Timor
Humberto Cruz (1900-1981), natural de Coimbra e detentor dos cursos de artilharia, de piloto aviador e de piloto de voo sem visibilidade exterior, serviu, a partir de 1927, em várias esquadrilhas da Força Aérea e chegou mesmo a comandar a base aérea de São Miguel. Entre 1930 e 1931, na companhia de outro aviador, Carlos Bleck, Humberto Cruz realizou, aos comandos do avião "Jorge Castilho", a primeira viagem aérea Lisboa-Guiné-Angola e regresso, numa distância de 20.160km. O percurso foi feito num total de 167 horas.
Humberto Cruz escreveu a propósito: "O glorioso navegador (Jorge Castilho) do Atlântico Sul, a quem a Pátria tanto deve; aquele que soube marcar no Grande Oceano a rota do 'Argos', o hidroavião que, pela primeira vez, navegou uma noite inteira ligando os dois continentes e duas pátrias, estabelecendo um recorde durável que nós não soubemos perpetuar na memória do mundo; o sábio aviador iria acompanhar-nos na nossa empresa", escreveu. Mas foi em 1934 que, juntamente com o primeiro-sargento mecânico da Aeronáutica Militar, António João Gonçalves Lobato (1909-1935), na avioneta Leopard Moth "Dilly" fez a viagem Lisboa­Timor-Lisboa.
Este é um dos maiores feitos da aviação portuguesa e o facto de o avião ser relativamente frágil enobrece ainda mais a façanha. A 25 de Outubro de 1934, saíram da Amadora com destino a Timor, a bordo do "Dilly". No dia do regresso, a 21 de Dezembro de 1934, haviam percorrido 42.670km, voando 268 horas e 25 minutos.
O voo de ida atravessou a África do Norte, com paragens em Argel, Tripoli, Bengazi e Tobruk, o Médio Oriente, com passagem por Gaza e Basra, internando-se depois pelo actual Paquistão e Índia, com as etapas a terminarem em Jask, Karachi, Allhabad, para finalmente rumar ao Sudeste Asiático e às Índias Orientais Holandesas, passando por Akyab, Banguecoque, Prachuab, Singapura, Soerabaia, Rambang e Díli, onde foram recebidos com grande entusiasmo, a 7 de Novembro de 1934: "Os indígenas de Timor são mais dóceis e subordinados do que geralmente se acredita ( ... ) Não existia já um português em Timor, há tantos anos que a nossa força naquelas ilhas é nula, pois a força que existe é tirada deles mesmos", comenta.
Os aviadores saíram de Díli a 13 de Novembro e aterraram na actual cidade da Amadora (Portugal) a 21 de Dezembro, pouco antes do Natal, como desejara Humberto Cruz. Galardoado com a Torre e Espada, publicou diversas obras sobre aviação, tendo falecido a 10 de Junho de 1981. António Lobato foi escolhido como companheiro de viagem por Humberto Cruz, devido à sua competência, carácter alegre, correcção, aprumo e camaradagem. No ano seguinte ao da viagem, em 1935, morreu num desastre de avião perto de Viseu. "Morreu o Lobato!". A mensagem que ecoou, na sua simplicidade, transmitia a memória e o carinho colectivos que o País conservava de tão jovem e corajoso ás da navegação aérea.

2 comentários:

  1. Puxa, legal conhecer essa história...

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  2. Que belo trabalho ...
    Que blog fantástico para quem ama a aviação!!! Parabéns!!!
    Visitem também este blog português relacionado com a aviação e a Fotografia Aérea de Portugal:
    Terceira Dimensão - Fotografia Aérea de Portugal
    Obrigado

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