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A cultura nos Estados Unidos da América (EUA) - (USA)

Os Estados Unidos da América e a cultura
A cultura dos Estados Unidos da América (EUA) tem uma profunda influência no resto do mundo, particularmente no mundo ocidental. Os seus filmes e programas televisivos podem ser vistos em quase todos os países e a sua música é ouvida em todo o mundo. Entre os maiores exemplos que caracterizam a cultura norte-americana, destacam-se o cinema, pela sua massificação mundial, e o desporto, pelo seu carácter muito próprio sendo composto por determi­ nadas modalidades menos relevantes nos restantes países.
Para além de ser uma forma de expressão cultural do seu povo, o cinema dos EUA tornou-se numa das mais bem sucedidas indústrias de entretenimento do mundo. Apesar de nem todos os filmes norte-americanos serem produzidos em Hollywood, esta localidade de Los Angeles tornou-se representativa da indústria.
O facto de o Sul da Califórnia ter Sol ao longo de quase todo o ano e da grande exposição solar ao longo do dia beneficiar as filmagens exteriores, levou os cineastas e produtores de cinema a centralizarem as suas produções nesta região da Costa Oeste. Hoje em dia, a maioria dos estúdios de filmagens estão em Burbank, também em Los Angeles, mas muitas das grandes produções são feitas noutras cidades e até noutros países. Durante os períodos das duas grandes guerras, as produções do cinema europeu foram escassas, enquanto o cinema de Hollywood crescia em popularidade com filmes como "E Tudo o Vento Levou" e "Casablanca", atraindo inúmeros cineastas europeus para estas paragens.
A partir do final da Segunda Guerra Mundial, a influência mundial do cinema norte-americano manteve-se e hoje continua a ser uma referência para o público da maioria dos países, que geralmente prefere esta cinematografia aos filmes do seu país. Invertendo esta tendência, no âmbito do desporto, as modalidades mais populares nos EUA são muitas vezes menos apreciadas no resto do mundo. Os norte-americanos são grandes adeptos de basquetebol, basebol, futebol americano e hóquei no gelo, modalidades que levam à criação de equipas representantes de cada Estado e que disputam um campeonato interestadual nacional.
As provas da NBA tornaram-se famosas em todo o mundo, levando a maioria dos melhores jogadores de basquetebol a jo­garem neste campeonato. O basebol é uma modalidade pouco apreciada na Europa. mas nos EUA são necessários grandes estádios para acolher as principais provas da mesma. O futebol americano, uma variante do rugby, pouco tem a ver com o futebol convencional praticado nos outros países.
Trata-se de um desporto competitivo de equipa que recompensa a velocidade, agilidade, capacidade táctica e força dos jogadores que se empurram, bloqueiam e se perseguem uns aos outros. O futebol convencional não é tão apreciado como na Europa e no resto do mundo, mas o "desporto-rei" tem vindo a conquistar fãs nos EUA, com a contratação de estrelas internacionais, tais como David Beckham, para a equipa do Los Angeles Galaxy, bem como devido ao êxito da selecção norte-americana feminina, campeã mundial em 1991 e em 1999.
Outras competições de destaque nos EUA são o Masters de Golfe, o US Open de ténis e as corridas de automóveis, caracterizadas por circuitos de grande velocidade e colisões espectaculares, das provas de NASCAR e da Fórmula Indy. De facto, o cinema e o desporto são dois dos maiores exemplos da cultura dos estados Unidos da América.
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Serpa Pinto: o cruzador de África

O explorador africano
"Assim como só o homem que, sendo pai, pode compreender a dor pungente da perda de um filho, assim também só o homem que foi explorador pode compreender as atribulações de um explorador."
Militar e explorador africano, Alexandre Alberto da Rocha Serpa Pinto nasceu em 1846, em Cinfães (Portugal). Aluno do Colégio Militar, alistou-se na arma de infantaria em 1863, sendo promovido a alferes no ano seguinte. Participou em acções em Moçambique, no âmbito das campanhas de ocupação da Zambézia, em 1869, ano em que se vê promovido ao posto de tenente. Em finais de 1877, já capitão, integrou com Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens (autores das obras "De Angola à Contra-Costa" e "De Angola às Terras de Iacca"), a supracitada expedição científica, autorizada pelo ministro da Marinha e Ultramar, José de Melo Gouveia, e subsidiada com um crédito de 30 contos de réis. Os encargos da missão eram vários: observações quanto à topografia, sistemas fluviais e clima, agricultura, zoologia, costumes e raças dos povos indígenas. De tudo isto fez Serpa Pinto registo, como homem do seu tempo, figurando na obra que nos deixou vários mapas e desenhos.
Portugal pretendia confirmar os direi­ tos de soberania sobre as terras onde, há séculos, exercia efectivo domínio, valorizando-as, assim como aos povos que as habitavam. O interior de Angola e Moçambique passou a interessar os vários governos que, para além de desejarem conhecer a fronteira exacta dos nossos domínios, temiam a ambição estrangeira sobre esta zona. A verdade é que Portugal queria para si os territórios compreendidos entre Angola e Moçambique (o célebre projecto do Mapa Cor-de-Rosa que os ingleses acabariam por destruir com o seu ultimato de 1890, crise que ajudou ao descrédito da monarquia) e olhava apreensivo para um Livingstone, calcorreador da zona dos Grandes Lagos, descobridor da nascente do rio Congo, um Stanley, que lhe seguia as peugadas ("Dr. Livingstone, I presume?"), percorrendo o mesmo rio até à foz e muitos outros estrangeiros que "mordiscavam" a zona por nós pretendida. A consciência nacional despertou, então, para o perigo que rondava as nossas possessões africanas. Graças ao entusiasmo de alguns bravos, nomeadamente, Luciano Cordeiro, fundou-se a Sociedade de Geografia de Lisboa, destinada a defender os nossos interesses em África, foi sob os seus auspícios que partiu a expedição dos nossos três homens.
A bifurcação da expedição
Os três exploradores rumaram para Angola munidos de boa aparelhagem científica adquirida em Paris e Londres e de grandes do­ ses de quinino. Chegaram a Luanda no dia 6 de Agosto de 1877, no vapor "Zaire". Os três decidiram começar por fazer o reconhecimento dos sertões, apesar de, ao longo de toda a viagem, sofrerem inúmeros problemas com os carregadores. Em Cabinda, avistaram Stanley, explorador anglo-americano, ao serviço do terrível Leopoldo II da Bélgica, o qual acabara de descer o Zaire: "Foi comovido que apertei a mão de Stanley, homem de pequena estatura, que a meus olhos assumia proporções de vulto colossal"
Na figura (em cima): As viagens portuguesas na África Austral, na 2ª metade do século XIX.
Reconhecendo a impossibilidade de subir o curso do rio, optaram por Benguela como via de penetração para o Bié, a primeira grande etapa da viagem. Antes de chegarem ao Bié, os exploradores com as tarefas divididas - Ivens encarregado dos trabalhos geográficos, Capelo de meteorologia e ciências naturais, e Serpa Pinto do pessoal auxiliar da expedição - passam por Quilingires e Caconda, registando Serpa Pinto dados curiosos: "Nos Quilengues, o adultério é coisa de grande estimação para os maridos, sendo que por lei fazem pagar ao amante multa que se traduz em gado e água-ardente. A mulher que não tem cometido algum adultério é mal vista do marido, que não aumenta o seu haver por esse meio."
Em Caconda, fica decidido que Serpa Pinto partirá para o Huambo, com a finalidade de obter carregadores. Durante o percurso, recebe uma carta dos companheiros que o deixa angustiado: "Diziam-me que tinham resolvido seguir sós ( ... ) Só o pouco ou nenhum conhecimento do sertão africano que então tinham os meus companheiros podia desculpar um tal proceder. ( ... ) Que seria de mim, logo que se soubesse que toda a minha força consistia em dez homens? ( ... ) Devia seguir avante? Tinha o direito de arriscar as vidas dos dez homens que me cercavam e que dormiam tranquilos junto de mim?"
O intrépido explorador decidiu avançar e, depois de 20 dias sofridos, Serpa Pinto chegou ao Bié, onde, na povoação de Belmonte, se instalou na casa de Silva Porto. Aí reencontra os seus companheiros de viagem: "Eles, confirmando o que me tinham escrito, disseram-me que iam continuar sós e que me deixariam uma terça parte de fazendas e material, salvo as coisas indivisíveis que guardariam."
Coberto de sanguessugas, Serpa Pinto achou-se muito melhor e, enquanto Ivens e Capelo seguem para o Norte, explorando a zona do Cuango e procedendo ao levantamento de toda a região entre os rios Zaire e Zambeze, ele dirige-se para sul, insistindo na travessia de África de modo a alcançar a costa oriental, essa sim, importante para o reconhecimento da soberania portuguesa entre as duas possessões. I vens e Capelo, com muita dificuldade, vão até às nascentes do Cuanza, encontram o rio Lucala e atingem a Fortaleza do Duque de Bragança. A sua primeira expedição termina na terra de Iacca.
A falta de meios e as condições adversas impedem-nos de atingir a meta por eles estabelecida (a segunda expedição de Capelo e Ivens realizou-se em 1884-85 e destinou-se à tentativa de ligar Moçâmedes a Quelimane). Serpa Pinto lá se dirigiu para o Zambeze, anotando no seu diário, a par dos registos científicos, o dia-a-dia de um explorador.
Rumando para o Sul
Mais uma vez, a doença (paludismo) e as febres altas acometem Serpa Pinto, esmorecendo-lhe o ânimo. São as cartas de Silva Porto que o animam: "Estou velho, mas rijo e forte; se o meu amigo se vir num desses trances, vulgares no sertão, em que a esperança se perde, faça-me chegar às mãos uma carta sua porque no mais curto espaço possível eu serei consigo e comigo irão todos os recursos, todos os socorros".
Restabelecido, Serpa Pinto lançou-se à aventura, prosseguindo por caminhos difíceis, através do Alto Cuanza e do Alto Cuango. Chegou ao Zambeze muito doente e, não podendo continuar pelo curso do grande rio, que o levaria à costa moçambicana do oceano Índico (a sua meta), rumou pelo Calaári, ladeando o lago Makarikari, até Pretória. Daí, foi completar a viagem em Durban, onde chegou a 19 de Março de 1879. Uma travessia de quatro mil quilómetros chegava ao fim, embora também ele tivesse falhado, uma vez que não conseguira estabelecer a ligação entre Angola e Moçambique. Contudo, a sua odisseia foi acolhida na pátria com grande entusiasmo, pois muitos julgavam-no morto.
Transformado em herói nacional, Serpa Pinto é solicitado pelas Sociedades de Geografia europeias a conferenciar sobre a sua experiência em África. Nomeado cônsul português em Zanzibar, aí permanece pouco tempo. Em 1889, comandou uma missão científica ao Alto Chire, a fim de preparar a implantação de uma via férrea que estabelecesse a comunicação entre o lago Niassa e o oceano Índico, através do Chire e do Zambeze. Os ingleses não suportam Serpa Pinto naquelas paragens, acusando-o de ter atacado as tribos de Macolos (rebeldes apoiados e armados pela Inglaterra) e, no seu ultimato de 1890, exigem a retirada do major Serpa Pinto do Chire, assim como a retirada de toda e quaisquer forças militares portuguesas. Caso contrário, ameaçam, Portugal teria de se haver com o poderio militar dos "velhos aliados" ... A nação sofreu um grande choque, aproveitado pelos republicanos para desacreditarem a monarquia.
Serpa Pinto mereceu as mais altas condecorações nacionais e foi ainda ajudante de campo do rei D. Carlos. A sua popularidade começou a declinar, sobretudo entre os meios republicanos, mas hoje, volvidos 100 anos sobre a sua morte, o grande explorador oitocentista é lembrado pela tenacidade com que atravessou, ainda que doente e com poucos carregadores, o inóspito continente africano. Como ele próprio escreveu: "Vencer as suas paixões indómitas, vencer os seus hábitos materiais e morais da vida civilizada, são os dois grandes trabalhos do explorador. Aquele que o conseguiu atingirá o seu fim, cumprirá a sua missão." E Serpa Pinto cumpriu a sua .
Um portuense em África
António Francisco Ferreira da Silva acrescentou ao seu nome o apelido Porto, aos 18 anos, por ter sido a cidade onde nasceu. Silva Porto terminou os seus dias no Bié, justamente no ano do ultimato inglês. Este "velho sertanejo", como lhe chamava Serpa Pinto, foi o fundador da povoação de Belmonte, em 1847 (depois chamada Silva Porto e actual Cuito, capital da província angolana do Bíé). Percorreu os mais "longínquos sertões africanos, tendo de sustentar cruento combate com um gentio ávido de rapina", a ele se ficou a dever um melhor conhecimento do Bié. Também Silva Porto tentou uma travessia para alcançar a costa oríental africana, acompanhando mercadores árabes.
Durante a viagem, encontrou o Dr. Livingstone, com o qual trocou informações. O portuense acabou por desistir da travessia quando se encontrava no Alto Zambeze. No entanto, pombeiros seus (chefes dos carregadores) atingiriam Moçambique. Regressou a Portugal mas a saudade fê-lo voltar a África, constatando que um grande incêndio lhe tinha destruído todos os seus haveres. Sozinho, sem os apoios da Sociedade de Geografia ou do rei D. Luís, aos quais pedira ajuda, reconstruiu as instalações de Belmonte. Já capitão-mor do Bié, uma revolta de indígenas contra os colonos portugueses levou-o ao desespero. Não conseguindo demover os chefes da rebelião, envolveu-se na bandeira nacional, sentou-se em cima de um barril de pólvora e fê-lo explodir. Um estranho suicídio de um sertanejo determinado, explorador destemido e autor de vários relatos, nomeadamente "Apontamentos de um Portuense em África".
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Broadway - um mundo de sonhos

A magia da Broadway
Quando se visita Nova Iorque pela primeira vez, torna-se imprescindível visitar a Broadway, o símbolo mundialmente famoso da magia do teatro. Antes dos espectáculos começarem, acendem-se milhões de lâmpadas que transformam a noite em dia; nessa hora, a Broadway torna-se verdadeiramente um local encantado.
Em plena Manhattan, nesse bairro dos teatros e cinemas encontram-se mais de 30 casas de espectáculos, localizadas a Leste e Oeste da longa avenida em diagonal chamada Broadway, entre as ruas 41 e 53. Um passeio por essas ruas equivale a percorrer a história do teatro. Por exemplo, no Nederlander, na rua 41, outrora chamado National, Orson Welles, então com 22 anos, encenou em 1937 a sua controversa produção do Julius César, na qual os soldados de César envergavam uniformes fascistas.
Grande parte da mística da Broadway deriva da lendária rua 42, exaltada no musical de 1980, do mesmo nome. Essa comédia musical, de ritmo contagiante, apresentava a Broadway como o objectivo máximo daqueles que aspiravam tornarem-se estrelas do palco. Praticamente todos os anos, jovens desconhecidos tornam-se famosos. Há mais de meio século, um jovem cantor magrinho fez sua grande estreia cantando no show de Benny Goodman, no agora desaparecido Paramount Theater, na rua 43. O seu nome, evidentemente, era Frank Sinatra.
E a corista de The Pajama Game, de 1954, que era suplente de Carol Haney, a protagonista número dois? Carol adoeceu, a corista entrou em cena e dançou e cantou maravilhosamente bem. Ela chamava-se Shirley MacLaine; havia um produtor cinematográfico assistindo ao espectáculo, e foi assim que ela se tornou uma grande estrela do palco e da tela.
A Times Square nasceu em 1904, quando o New York Times edificou o prédio e mudou o nome da praça, que dantes se chamava Long Acre Square; é ali que a Broadway bifurca com a Sétima Avenida. Para Oeste, ficava naquele tempo a chamada «Cozinha do Inferno» (Hell's Kitchen), desordeiro bairro operário frequentemente retratado nos melodramas de Jimmy Cagney. A um quarteirão para Leste, ficava a linha férrea elevada da Sexta Avenida. Passado pouco tempo, na Times Square e nas ruas vizinhas foram construídos novos e elegantes teatros, com os elaborados letreiros de néon que deram à Broadway o cognome duradouro de «Grande Caminho Branco» (The Great White Way).
Em 1908, Florenz Ziegfeld, produtor das famosas Ziegfeld Follies, colocou o maior painel luminoso jamais visto até então (com 24 m de comprimento e 14 m de altura) na fachada do seu New York Theater. Continha 2.973 m2 de vidro, pesava oito toneladas e levou 18 km de fio eléctrico. Em torno das suas letras gigantescas, um desenho em ziguezague de raios faiscantes parecia explodir, num irromper de chamas que lambiam o título da peça, Miss Innocence, e o nome da estrela, Anna Held, famosa por banhar-se em leite como a lendária Cleópatra.
Se a Times Square é o coração da Broadway, então uma estátua de George M. Cohan na sua extremidade norte simboliza o seu pulsar. Este extraordinário empresário, compositor, director, cantor e bailarino morreu em 1942, mas continua presente; é conhecido no mundo inteiro através de um filme de Hollywood, Yankee Doodle Dandy, e de um musical da Broadway, George M.! Os que nunca conheceram o verdadeiro George M. Cohan viram Jimmy Cagney, Joel Grey ou Mickey Rooney no papel dele.
A rua 44 é uma das ruas da Broadway preferidas por muitos turistas, onde têm lugar as lendárias festas de estreia no Sardi's, «a renomada sala de jantar das artes do teatro». Há seis teatros na rua 44, incluindo o Helen Hayes, uma sala internacional, o Majestic, cenário de 42nd Street, o Broadhurst, onde a comédia de Neil Simon, Broadway Bound, muito naturalmente conquistou a Broadway. E há o Shubert, onde A Chorus Line, uma exaltação aos musicais da Broadway, esgotou lotações durante vários anos.
A maravilhosa continuidade do teatro mundial está ilustrada na rua 45. Aqui fica o Booth Theater, assim baptizado em honra ao grande actor do século XIX, Edwin Booth, cujo Hamlet esteve em cena durante 100 representações consecutivas. John Barrymore estreou no Hamlet em 1922, mas já falava em abandonar o papel após umas 60 actuações. Uma delegação de personagens do teatro pressionou-o para desistir ao fim da 90.a actuação, pois ninguém devia bater o recorde de Booth. «Cavalheiros», replicou Barrymore. «Parem de viver no passado. Representarei o Hamlet exactamente 101 vezes.» E assim fez.
No Imperial, Drood, a versão musical do romance que Charles Dickens deixou inacabado ao morrer, mostrava uma abordagem inglesa de music-hall ao enredo gótico do romance, rematada por um número irresistível: a cena era interrompida em plena actuação para assinalar o ponto em que ficou o romance de Dickens. Os actores dirigiam-se então ao público, solicitando uma votação para determinar quem era o assassino e, consequentemente, qual seria o fim. «A atmosfera do teatro», disse o Times, «fica tão divertida como se se tratasse de uma audiência composta exclusivamente por ginasiais.»
Uma marca de qualidade da Broadway são os bons elencos. Em 1986, Arsenic and Old Lace, uma comédia acerca de duas velhinhas que serviam vinho envenenado aos seus hóspedes, esteve em cena no Teatro da rua 46, com Jean Stapleton, a Edith Bunker da televisão. Quando estreou, em 1941, o papel do sobrinho louco e homicida das velhas foi desempenhado por Boris Karloff, o monstruoso Frankenstein do famoso filme de 1931. Isso deu a Karloff, 10 anos mais tarde, uma deixa imortal: «Matei-o porque ele disse que eu era parecido com Boris Karloff.»
O Biltmore, o Atkinson, o Edison, o Barrymore e o Palace estão na rua 47. Para aqui têm vindo grandes peças de todo o mundo. Da França, Red Claves, de Jean-Paul Sartre, pro­tagonizada por Charles Boyer, veio para o Mansfield, cujo nome foi substituído em 1960 em homenagem ao crítico de teatro do New York Times, Brooks Atkinson. No Edison estiveram duas peças do dramaturgo sul-africano Athol Fugard, Sizwe Banzi is Dead e The Island.
O Barrymore deve o seu nome a Ethel, que com os seus irmãos Lionel e John formou um formidável trio de actores. Isso porque os irmãos Shubert prometeram a Ethel dar o seu nome a um teatro, se ela assinasse um contrato com eles. Ela assim fez, e eles cumpriram o prometido; Ethel inaugurou o teatro a 20 de Dezembro de 1928, com The Kingdom of God. O recorde do teatro, porém, foi detido de 1947 a 1979 pela peça de Tennessee Williams, A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo), que estreou a três de Dezembro de 1947, com Jessica Tandy, Kim Hunter, Karl Malden e Marlon Brando, que tinha na época apenas 23 anos, num inesquecível desempenho como Stanley Kowalski. (Em 1979, este recorde foi finalmente batido pelas 872 representações de I Love My Wife.)
Há 55 anos, o Palace arriscou em Judy Garland, que estava com 29 anos e tinha sido despedida pela MGM, pois as suas depressões nervosas haviam atrasado demasiados filmes. Judy tentara suicidar-se, e os seus amigos não estavam seguros de que ela tivesse suficiente autoconfiança para voltar ao palco. Mas o Palace passou a ter lotações esgotadas em todas as sessões; os fãs de Judy estavam decididos a encorajá-la, com vibrantes aplausos.
O último dia de Judy Garland no Palace, 24 de Novembro de 1951, foi um momento alto na história da Broadway. Judy terminou o espectáculo cantando A Couple of Swells, de Irving Berlin, vestida de mendiga, exactamente como cantara com Fred Astaire no filme Easter Parade. Chamada a bisar, sentou-se simplesmente na beira do palco e cantou Over the Rainbow. Houve momentos em que chorou, e momentos em que foi o público quem se emocionou até às lágrimas. Foi três vezes chamada ao palco pelos aplausos, mas mesmo assim a plateia não se ia embora. Judy estava manifestamente exausta, de modo que alguém gritou: «Agora somos nós que vamos cantar para Judy!» Com a orquestra tocando Auld Lang Syne, os espectadores começaram a cantar, com a voz de ouro do grande tenor lírico Lauritz Melchior soando acima das outras todas. Numa sala apinhada, 1.686 pessoas, incluindo muitas que adoravam Judy Garland desde os tempos em que ela era a Dorothy do filme O Feiticeiro de Oz, aplaudiam e soluçavam abertamente.
No Teatro Cort, na rua 48, a peça »O Diário de Anne Frank», em 1957, transportava-nos instantaneamente àquele sótão em Amesterdão, onde uma adolescente de 12 anos e a sua família se escondiam dos nazistas. Nessa história verídica, os nazistas conseguem descobri-los, é claro, e levam Anne, cujo papel era desempenhado por Susan Strasberg, para um campo de concentração, onde ela morre. Quem não se lembra de Joseph Schildkraut no papel do pai de Anne, lendo a sua derradeira anotação no diário: «Apesar de tudo, continuo acreditando que as pessoas no fundo são boas.», mas «Ela me deixa envergonhado.» O rio Mississippi foi evocado no palco do Teatro Eugene O'Neill, na rua 49, em Big River, peça baseada no Huckleberry Finn, de Mark Twain. Show Boat, o melhor musical sobre o rio Mississippi, estreou em 1927, mas foi constantemente levado novamente à cena inúmeras vezes. Basta dizer «He just keeps rollin' a!ong» e o mundo inteiro saberá que se está falando de «Ol'Man Riven».
No inverno de 1986-1987, a peça de Bernard Shaw, You Never Can Tell esteve em cena no Circle In The Square, na rua 50. A presença de Shaw na Broadway data de Arms and the Man, de 1894. Em 1957, My Pair Lady, adaptado do Pigmaleão, de Shaw, no Mark Hellinger Theater, na rua 51, foi outra peça que esteve em cena e que fez igualmente grande sucesso. Quando se visita pela primeira vez Nova Iorque, deve-se visitar obrigatoriamente o American National Theater and Academy (ANTA), na rua 52. Neste local emblemático, passaram peças como: Our Town, com Henry Fonda no papel de director de cena, e Harvey, com James Stewart como Elwood P. Dowd e Helen Hayes como Veta Louise Simmons.
Também no teatro da Broadway na esquina da rua 53, a peça Les Miserables, versão musical do romance clássico francês de Victor Hugo, que fora o sucesso londrino de 1986, ao estrear nos Estados Unidos da América em Março de 1987, primou por um sucesso extremo. As suas vendas adiantadas de entradas, que totalizaram uma soma de 11 milhões de dólares, registaram o maior recorde de todos os tempos da Broadway. Todas as noites, multidões de espectadores reuniam-se sob a bandeira tricolor francesa, gigantesca e esfarrapada, suspensa na entrada do teatro, e entravam na fila para ver as barricadas de rua e os esgotos de Paris, evocados num palco da Broadway. Também no começo da década de 1980, estava em cena aqui, a peça Evita, com Patty LuPone cantando, noite após noite, Don't cry for me, Argentina ...
Mas para visitar aquele que é, por muitos, considerado como a quintessência dos teatros da Broadway, dever-se-á visitar o Winter Garden, no nº 1634 da Broadway. Al Jolson inaugurou-o a 20 de Março de 1911. Nesse palco, abriu ele inúmeras vezes os braços, com as mãos calçadas de imaculadas luvas brancas, e gritou a frase histórica: «Pessoal! Vocês ainda não ouviram nada!»
Na década de 1980, o Winter Garden tornou-se palco de um belíssimo musical britânico da autoria de Andrew Lloyd Webber, extraído de Old Possum's Book of Practical Cats, de T. S. Eliot. O musical chama-se Cats, e a Broadway chorava, bem como os diversos locais do mundo por onde esta peça tem passado, quando a gatinha maltratada, chamada Grizabella, pára diante do holofote e principia a sua canção. Com Cats, chega ao fim este breve artigo dedicado às cerca de três dezenas de salas de espectáculos numa dúzia de ruas, que no seu conjunto se chamam Broadway. É aqui o mundo dos sonhos!
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Tesouros da Igreja Ortodoxa

Tesouros da Igreja Ortodoxa Finlandesa
No Santuário da Catedral de Uspenski, em Helsínquia, reina uma atmosfera calma e reverente. Neste local sagrado, encontram-se pequenos candeeiros que tremeluzem entre importantes ícones antigos que pendem das paredes e velas de cera que impregnam o ar com um odor a mel. As figuras sagradas do ícone que domina a sala olham do alto da sua armação dourada para as pessoas que se deslocam sobre o magnífico chão de mármore, com passos silenciosos e cautos.
Fig. 1 - Interior da Catedral de Uspenski, Helsínquia.
A maior e mais famosa das igrejas ortodoxas da Finlândia é o tesouro da nossa herança espiritual. Nas suas paredes, mesas e armários, encontram-se dezenas de objectos valiosos: um belo altar decorado com ouro e pedras esplendorosamente pintados, candelabros com ícones em miniaturas neles primorosamente gravados.

Fig. 2 - (da esquerda para a direita): Estola do início do século XIX. Capa de asperges usada pelo superior do mosteiro nos serviços de culto, início do século XIX. Paralelamente usado pelo bispo, princípio do século XIX, doados ao Mosteiro de Valamo pelo Czar Alexandre I.

Os tesouros da Igreja Ortodoxa Finlandesa, toda a propriedade cultural da nação, acrescentam um suavizante toque oriental e da mística bizantina à nossa herança europeia e nórdica. O interesse pela Igreja Ortodoxa e pela religião é muitas vezes despertado pela qualidade dos objectos.

Fig. 3 - Ícone funerário da Virgem do século XIX (Mosteiro de Petsamo). As mãos e o rosto são de têmperas sobre madeira. O vestido e a auréola são de contas de vidro e diversas jóias coloridas.

No século XVI, a Reforma derrubou a Igreja Católica Romana na Finlândia, mas a Igreja Ortodoxa manteve uma base na Carélia. O Mosteiro de VaIamo, situado numa ilha do lago Ladoga, transformou­se no seu centro mais importante. O Mosteiro de Konevitsa também teve a sua base aqui. Existiram cinco mosteiros na região de Kakisalmi e outro em Petsamo.
Fig. 4 - Cruz de madeira com o crucifixo em têmperas. Suurlabri, Aanisniemi.
Nos anos 40, a fé ortodoxa foi espalhada pela Finlândia por refugiados da Carélia, que reforçaram as pequenas congregações já existentes. Mais de 50 000 finlandeses pertencem à Igreja Ortodoxa.

Fig. 5 - Virgem de Tibvina. Ícone do século XVII. Têmpera sobre madeira de tília. Igreja se Santo Elias, em Vyborg.

As congregações ortodoxas possuíam tesouros artísticos insubstituíveis, quase todos salvos da destruição durante a guerra e trazidos para a Finlândia. Os tesouros não estão preservados apenas na Catedral de Uspenski. O Mosteiro de Valamo alberga um ícone da Virgem de Konevitsa, o mais antigo da Finlândia. Diversas igrejas e o Museu da Igreja Ortodoxa, em Kuopio, exibem ícones a óleo maravilhosamente dourados.

Fig. 6 - S. Basílio Magno, S. Gregório de Nissa e S. João Crisóstomo. Ícone do século XVIII. Mosteiro de Valamo.

Normalmente, quando abandonamos a Catedral de Uspenski, sentimo-nos como se tivesse-mos estado em contacto com a espiritualidade da Igreja Ortodoxa.
Fig. 7 - Toalha decorativa do século XIX (Mosteiro de Petsamo).
As palavras do patriarca grego S. Basílio, do século IV, adaptam-se perfeitamente a este templo:
« Aquilo que a palavra diz ao ouvido, oferece a arte silenciosamente em imagens.»
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As origens da vida

A vida na Terra
A idade da Terra tem sido indicada como sendo de 4500 milhões de anos, mas até cerca de 500 milhões de anos depois da sua formação não teria sido possível qualquer tipo de vida. Na realidade, de início a Terra não era, provavelmente, mais do que um amontoado disperso de rochas. No entanto, as reacções nucleares de elementos radioactivos instáveis dentro das rochas provocou um aumento de temperatura e, à medida que a temperatura aumentava, as rochas derreteram e os gases libertaram-se.
A pouco e pouco, os elementos mais pesados foram formando um núcleo derretido no qual flutuava uma crosta de material mais leve, e todo este conjunto era rodeado por uma atmosfera gasosa composta principalmente por hidrogénio. Em combinação com outros elementos, como o carbono, o azoto, o oxigénio e o enxofre, o hidrogénio teria formado metano (CH4), amoníaco (NH)), vapor de água (H2O) e ácido sulfídrico (H2S). Não se encontrava presente oxigénio livre, mas o dióxido de carbono (CO2) deve ter sido libertado do núcleo derretido através da actividade vulcânica.

Fig. 1 - A Terra no seu estado inicial, há cerca de quatro mil e quinhentos milhões de anos, assemelhava-se provavelmente a uma paisagem quente, rochosa, nua e vulcânica.

Nessa altura, a Terra seria um lugar muito hostil para a vida, tal como a conhecemos, mas à medida que o planeta arrefecia as condições iam-se tornando mais favoráveis. Algum do hidrogénio - o elemento químico mais leve de todos - escapou-se da força gravitacional da Terra e foi libertado para o espaço interestelar, fazendo com que a atmosfera se reduzisse menos fortemente. O vapor de água condensou-se e caiu como chuva, criando oceanos vastos e pouco fundos. Tempestades eléctricas assolavam a Terra e a radiação ultravioleta do Sol era intensa. Relâmpagos, calor e ultravioletas - tudo isso forneceu a energia necessária para que se dessem reacções químicas entre os gases simples presentes na atmosfera. As moléculas mais complexas, formadas deste modo, foram arrastadas pelas chuvas para os oceanos, pouco profundos, formando aquilo que John Burdon Haldare - descreveu como uma «sopa quente diluída». Dentro desta «sopa» pôde então ocorrer outra reacção química que deu origem a outras moléculas ainda mais complexas ­ as moléculas a partir das quais a vida nasceria.
Em 1924, um químico soviético, Alexander Oparin, expôs a teoria da «biogénese primária» para explicar a origem da vida na Terra. Propunha ele que a determinada altura no passado as condições no planeta teriam favorecido uma geração espontânea de vida a partir de produtos químicos orgânicos pré-formados. Esta teoria é ainda hoje largamente aceite.
A prova experimental
A fim de testar a ideia de Oparin, e para melhor se compreender os processos que conduziram à síntese pré-biótica das moléculas complexas da vida, os cientistas tentaram recriar as condições que se julgava terem estado presentes na atmosfera na Terra dos primeiros tempos. A primeira e a mais famosa destas experiências foi levada a cabo por Stanley Miller, em 1953. Fechou quatro gases (metano, amoníaco, vapor de água e hidrogénio) num frasco e utilizou uma descarga eléctrica (para simular os relâmpagos) como fonte de energia que provocasse a reacção química. Quando os produtos da reacção foram analisados, verificou-se que uma variedade de moléculas orgânicas simples tinham sido formadas, incluindo um certo número de aminoácidos (os blocos construtores de proteínas). A partir daí, experiências semelhantes revelaram o aparecimento de numerosas moléculas biologicamente importantes.
As moléculas da vida
Os organismos vivos são compostos por quatro grandes grupos de compostos orgânicos, junta­ mente com uma variedade de substâncias inorgânicas. Os compostos orgânicos são açúcares, aminoácidos, lípidos e bases de azoto. Em condições favoráveis, estas moléculas são capazes de se unir e formar ligações químicas que constituem moléculas maiores no processo da polimerização. Por exemplo, uma molécula de açúcar simples, ou monossacárido, pode formar uma ligação com outra molécula de açúcar, constituindo um dissacárido. Se este processo se repetir muitas vezes, forma-se um polissacárido - por exemplo, o amido.
Os aminoácidos polimerizam-se e formam proteínas. Encontram-se vulgarmente cerca de vinte aminoácidos diferentes nos organismos vivos e é a sequência precisa que determina a identidade da proteína. As proteínas podem consistir em muitos milhares destes aminoácidos; o número de sequências diferentes possíveis (proteínas) é teoricamente infinito. Talvez a função mais importante das proteínas seja catalisar, ou realizar, todas as reacções quimicas que ocorrem na célula. Tais proteínas chamam-se enzimas.
Os lípidos são gorduras e óleos. Na sua forma mais simples consistem em longas cadeias de átomos de carbono e de hidrogénio ligados a uma molécula de glicerol, e têm a propriedade geral de não se misturarem na água. Os lípidos desempenham muitas funções dentro da célula: são importantes como armazéns de alimentos, por exemplo, e também como um dos maiores componentes de construção de membranas biológicas, que são estruturas que unem as células e regulam o transporte intercelular de metabólitos.
As bases de azoto são importantes constituintes de ácido desoxirribonucleico (ADN) e ácido ribonucleico (ARN) - o material genético. Eles ocorrem também num certo número de outras moléculas importantes, como o trifosfato de adenosina (TFA), um composto que é capaz de armazenar e transferir energia para outras moléculas.
O ADN e o ARN
O ADN desempenha uma função dupla: para além de conter uma informação codificada que dá à célula instruções sobre a maneira como construir todas as enzimas e outras proteínas necessárias para executar as complexas reacções da vida, ele passa também esta informação a gerações sucessivas. O ADN tem a estrutura de uma hélice dupla, que consiste em dois filamentos; cada um deles é uma sequência alternada de moléculas de açúcar e de fosfato, a partir das quais se projectam as bases de azoto. As bases nos dois filamentos emparelham uma com a outra apenas de uma maneira bastante específica e complementar, e é esta propriedade que torna o ADN uma molécula tão notável.

Fig. 2 - Os primeiros gases na Terra foram o hidrogénio, o oxigénio, o metano e o amoníaco. Mais de mil milhões de anos depois do seu aparecimento, à medida que o oxigénio se foi acumulando na atmosfera e limitando a penetração de raios ultravioletas, as moléculas formaram bases nucleicas simples.

Para além do ADN, um segundo ácido nucleico aparece nas células: é o ARN. Há vários tipos de ARN, que diferem do ADN porque contêm ribose de açúcar em vez de desoxirribose, e porque a base de azoto é uracil em vez de timina. As moléculas do ARN são também muito mais pequenas do que as do ADN e aparecem como fitas simples.
Quando a vida emerge
Torna-se claro, a partir de experiências efectuadas, que os polímeros tanto dos aminoácidos como dos nucleótidos podiam ter sido sintetizados no ambiente pré-biótico; estas moléculas eram formadas independentemente umas das outras, e só mais tarde a sua síntese se tornava interdependente. A maneira como isto aconteceu constitui o mistério central da origem da vida. Podem ser estabelecidos alguns critérios que definem a vida:
1 - Um organismo vivo deve ser uma entidade separada - deve ter uma fronteira entre ele e o seu ambiente.
2 - Um organismo vivo deve ser capaz de executar as reacções químicas que são necessárias para se manter a si próprio.
3 - Um organismo vivo deve ser capaz de se reproduzir.
Fig. 3 - A experiência de Miller foi realizada numa tentativa para se recriar a primitiva atmosfera da Terra, a fim de se compreender a formação das moléculas básicas. Têm-se apontado várias células - «protótipos» diferentes. Alexander Oparin e Sidney Fox (famosos cientistas americanos) propuseram teorias semelhantes baseadas no comportamento de certas macromoléculas em solução. Fox aqueceu aminoácidos juntos para produzir uma substância semelhante à proteína, chamada «proteinóide». Em solução a proteinóide formou «microsferas» - pequenas gotículas de solução rodeadas por um invólucro proteinóide. Estas microsferas revelaram algumas propriedades muito semelhantes à vida: eram capazes de retirar substâncias (incluindo enzimas) a partir da solução; podiam dividir-se, juntar-se e associar-se em cadeias e, em certas condições, pareceram mesmo crescer.
Oparin sintetizou gotículas semelhantes a partir de uma variedade de materiais. Chamou a essas gotículas «coacervantes». Tanto Oparin como Fox sugeriram que estruturas semelhantes a estas deram origem a células vivas, mas esta proposta tem sido objecto de muitas discussões.
Uma ideia alternativa é a de que as primeiras células tinham invólucros lipédicos não muito diferentes das membranas biológicas dos organismos actuais. As membranas biológicas são largamente compostas por fosfolípidos. Estes são moléculas de lípidos que, para além das cadeias de hidratos de carbono repelentes da água e gordos, contêm um grupo fosfato apreciador de água (hidrófilo). À superfície da água, estas moléculas distribuem-se espontaneamente, formando uma camada ou película. Isto deve-se ao facto de a parte hidrófila da molécula procurar uma associação com a água, ao passo que a parte gorda é repelida. Se a água é agitada, a película superficial rompe-se e formam-se esferas chamadas ·«lipossomas». Tem sido sugerido que uma posterior elaboração de lipossomas podia ter conduzido à formação de um invólucro celular viável.
O metabolismo primitivo
Muitas das reacções que têm lugar na célula necessitam de energia, de tal modo que nos primórdios da história da evolução teria sido necessária a existência de uma capacidade de «ruptura» das moléculas presentes no ambiente, com uma libertação de energia. As células retiram energia a partir de uma série de reacções que envolvem a divisão de moléculas complexas em moléculas mais simples. A energia libertada é então armazenada em TFA até ser necessária. O TFA, ou qualquer outra molécula semelhante rica em energia, teria inicialmente existido, pré-formada, no ambiente, mas as vias metabólicas para a sua síntese evoluíram desde então. As decomposições biológicas produziam, para além de energia, o dióxido de carbono - e isto pode ter tido implicações importantes para a evolução posterior.

Fig. 4 - A estela-do-mar do Ordoviciano (platanaster ordovicus) foi um dos primeiros invertebrados na Terra. A sua simetria radial representa uma das primeiras formas a organizar-se fora da aglomeração amórfica de células que constituía os primeiros organismos. Viveu há cerca de quinhentos milhões de anos, mas os seus descendentes não diferiram muito na fora; apenas os braços se tornaram menos largos.

Os genes ou enzimas

Embora tenha sido controversa a questão sobre qual dos dois evoluiu primeiro, parece claro que a capacidade das primitivas formas de vida para se reproduzirem (de tal modo que as duas novas células são as mesmas que a célula-mãe), dependia de ácidos nucleicos, mas não de proteínas. No entanto, a reprodução sem enzimas (embora possível) é extremamente lenta. A questão importante devia ser, talvez, como é que se desenvolvia a relação gene-enzima, em vez de se saber quem é que apareceu em primeiro lugar.
Pode ter acontecido que em determinado período uma proteína se desenvolvesse e tivesse a possibilidade de catalisar a polimerização nucleótica. O polímero nucleótido, assim formado, pôde então ter sido capaz de especificar a sequência da enzima que o polimerizou - isto é, inicialmente a relação ácido nucleico-proteína pode ter funcionado em ambas as direcções, com enzimas catalisando a polimerização das sequências nucleóticas que controla de outras enzimas novas.
O início da evolução
As primitivas formas de vida teriam sido micróbios unicelulares capazes de executar certas reacções de polimerização de moléculas pré-formadas no ambiente. Elas obtinham a energia para estas reacções dividindo outras moléculas menos complexas na «sopa orgânica». À medida que as células se multiplicavam, estas moléculas orgânicas pré-formadas esvaziavam-se, e os organismos começaram a competir entre si pelos compostos orgânicos, de certo modo raros, de que necessitavam.
Fig. 5 - Os organismos unicelulares são as formas de vida mais simples, e como tal julga-se terem sido as primeiras.
Os organismos capazes de executar reacções mais complexas de síntese e divisão teriam sobrevivido, ao passo que outros incapazes de tais modificações teriam morrido, anunciando assim o início da evolução biológica.
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Aviadores portugueses

Os pioneiros dos Céus
Na figura (em cima) partida do "Lusitânia" junto à Torre de Belém, em Lisboa.
Quando se fala nos grandes feitos da aviação portuguesa, dois nomes se destacam, os de Gago Coutinho e de Sacadura Cabral, navegador e piloto, respectivamente, que efectuaram pela primeira vez a travessia aérea do Atlântico Sul. A 30 de Março de 1922 saíram de Lisboa e foram necessários três aviões para que, a 17 de Junho, amarassem com êxito no Rio de Janeiro. Esta primeira travessia, baseada somente na navegação astronómica feita a partir do avião, encheu de orgulho os portugueses. Mas na realidade, nessa década e na seguinte, muitas outras viagens pioneiras foram realizadas.
Os relatos das suas viagens, em edições amarelecidas pelo tempo, revelam toda a aventura e dramatismo que viveram, os dias de incerteza e inquietude, o desafio de uma luta árdua contra os elementos e as limitações tecnológicas da época nos céus africanos e asiáticos. Impressões pessoais, escritas com grande entusiasmo, quase todas dedicadas a companheiros ausentes, vítimas de desastres de aviação. Livros cuja venda revertia para os familiares desses mesmos mortos. Como se todos os homens que tivessem voado juntos pertencessem à mesma e única família.
Viagem até Macau no aeroplano "Pátria"
José Manuel Sarmento de Beires (1892­ -1974) nasceu em Lisboa. Em 1916, terminou o curso de engenheiro militar na Escola de Guerra. Um ano mais tarde, com o posto de alferes, fez o primeiro curso de pilotagem militar efectuado em Portugal. Em Julho desse ano, promovido a tenente, partiu para França, onde frequentou cursos de aperfeiçoamento e se especializou como piloto de caça. Em 1919, regressou a Portugal para o Grupo de Esquadrilhas de Aviação "Repúbbica".
Sarmento de Beires foi o primeiro piloto a efectuar uma missão de voo nocturno em Portugal, a 22 de Janeiro de 1920. Nesse ano tentou alcançar a Madeira a bordo do avião "Cavaleiro Negro". Com ele, ia António Jacinto da Silva Brito Pais (1884-1934), outra figura grada dos primeiros tempos da aviação nacional.
Nascido em Vila Nova de Milfontes, também Brito Pais havia ingressado na Escola de Guerra em 1907 para cursar Infantaria. Promovido a alferes em 1910, participou em operações militares no Sul de Angola, regressando em 1912 à metrópole, por doença. Devido à sua acção brilhante nas trincheiras da Flandres, recebeu a Cruz de Guerra e a Torre e Espada.
Detentor de um "brevet" de piloto­ aviador desde 29 de Novembro de 1917, distinguiu-se em combate nos céus de França, incluído em esquadrilhas francesas. No fim da I Grande Guerra foi colocado no comando do Grupo de Esquadrilhas de Aviação "República". É então que, com Sarmento de Beires, irá tentar a malograda ligação aérea à Madeira, em 1920. O naufrágio dá-se a 400km de Lisboa, depois de 1.500km de viagem e de o nevoeiro - o terrível inimigo dos aviadores de então - ter feito abortar a aterragem na ilha. Foram recolhidos no mar pelo navio "Gambia River".
Em 1924, os dois homens, acompanhados do então oficial-mecânico Manuel Gouveia - o qual, pouco depois, terminaria o curso de piloto-aviador, atravessando em 1927, com Jorge Castilho e Sarmento de Beires, o Atlântico Sul, num voo nocturno pioneiro, a bordo do "Argos" - realizaram a primeira viagem aérea Lisboa-Macau.
Sobre Manuel Gouveia (1890-1966), Sarmento de Beires teceu elogiosas palavras: "( ... ) no meio da indiferença e da desconfiança quase gerais, o seu gesto constitui um exemplo raro de fé, de idealismo e de dedicação".
Em Junho de 1921, o aeroplano "Breguet XVI", com motor Renault de 300 cavalos, estava nos hangares da actual cidade da Amadora. Enquanto os mecânicos o preparavam para a grande viagem, Brito Pais escolhia o nome e mandou inscrever na tela da fuselagem o verso dos "Lusíadas": "Esta é a ditosa PÁTRIA minha amada".
O "Pátria" efectuou os primeiros voos nos arredores de Lisboa e, o facto de Gago Coutinho e Sacadura Cabral estarem a realizar a viagem Lisboa-Rio de Janeiro, levou Sarmento de Beires e Brito Pais a colocarem de parte o projecto inicial de tentar a travessia do Atlântico Sul.
Assim, somente em 1924 o "Pátria" descolou da actual cidade da Amadora rumo a Vila Nova de Milfontes (Sul de Portugal – Alentejo). Ali chegados, a aeronave foi baptizada pelo bispo de Beja, D. José do Patrocínio Dias. Maria do Céu (a irmã de Brito Pais) quebrou no cubo da hélice a tradicional garrafa de champanhe. As palavras de Sarmento de Beires: "O pai tirou do dedo o anel brasonado da família e entregou-o ao filho que vai partir. No capitão Brito Pais, concentrava-se naquele instante a tradição impoluta de uma família inteira."
Na figura (em cima) - Sarmento de Beires e Brito Pais juntos ao aeroplano "Pátria" em Rangum (Índia).
A 7 de Abril, partem decididos a estabelecer a ligação a Macau. Manuel Gouveia, viajaria de barco até Tunes, onde se juntaria à tripulação. A viagem começou mal, devido a um forte temporal. Indiferentes ao perigo, fazem descolar o "Pátria" em direcção a Tunes, mas o mau tempo obrigou-os a escalar Málaga e depois Oran: "As cordas zunem, as asas estalam, tudo range. Mãos crispadas nas alavancas de comando, sentimos o aparelho que se despenha, se furta debaixo de nós, que nos abandona no espaço, que parece ir despe­daçar-se em pleno voo. O pesadelo dura alguns segundos."
Embarcado Manuel Gouveia em Tunes, o voo decorre sem problemas de maior, passando por Tripoli, Homs, Bengazi e Cairo.
Viagem a Timor
Humberto Cruz (1900-1981), natural de Coimbra e detentor dos cursos de artilharia, de piloto aviador e de piloto de voo sem visibilidade exterior, serviu, a partir de 1927, em várias esquadrilhas da Força Aérea e chegou mesmo a comandar a base aérea de São Miguel. Entre 1930 e 1931, na companhia de outro aviador, Carlos Bleck, Humberto Cruz realizou, aos comandos do avião "Jorge Castilho", a primeira viagem aérea Lisboa-Guiné-Angola e regresso, numa distância de 20.160km. O percurso foi feito num total de 167 horas.
Humberto Cruz escreveu a propósito: "O glorioso navegador (Jorge Castilho) do Atlântico Sul, a quem a Pátria tanto deve; aquele que soube marcar no Grande Oceano a rota do 'Argos', o hidroavião que, pela primeira vez, navegou uma noite inteira ligando os dois continentes e duas pátrias, estabelecendo um recorde durável que nós não soubemos perpetuar na memória do mundo; o sábio aviador iria acompanhar-nos na nossa empresa", escreveu. Mas foi em 1934 que, juntamente com o primeiro-sargento mecânico da Aeronáutica Militar, António João Gonçalves Lobato (1909-1935), na avioneta Leopard Moth "Dilly" fez a viagem Lisboa­Timor-Lisboa.
Este é um dos maiores feitos da aviação portuguesa e o facto de o avião ser relativamente frágil enobrece ainda mais a façanha. A 25 de Outubro de 1934, saíram da Amadora com destino a Timor, a bordo do "Dilly". No dia do regresso, a 21 de Dezembro de 1934, haviam percorrido 42.670km, voando 268 horas e 25 minutos.
O voo de ida atravessou a África do Norte, com paragens em Argel, Tripoli, Bengazi e Tobruk, o Médio Oriente, com passagem por Gaza e Basra, internando-se depois pelo actual Paquistão e Índia, com as etapas a terminarem em Jask, Karachi, Allhabad, para finalmente rumar ao Sudeste Asiático e às Índias Orientais Holandesas, passando por Akyab, Banguecoque, Prachuab, Singapura, Soerabaia, Rambang e Díli, onde foram recebidos com grande entusiasmo, a 7 de Novembro de 1934: "Os indígenas de Timor são mais dóceis e subordinados do que geralmente se acredita ( ... ) Não existia já um português em Timor, há tantos anos que a nossa força naquelas ilhas é nula, pois a força que existe é tirada deles mesmos", comenta.
Os aviadores saíram de Díli a 13 de Novembro e aterraram na actual cidade da Amadora (Portugal) a 21 de Dezembro, pouco antes do Natal, como desejara Humberto Cruz. Galardoado com a Torre e Espada, publicou diversas obras sobre aviação, tendo falecido a 10 de Junho de 1981. António Lobato foi escolhido como companheiro de viagem por Humberto Cruz, devido à sua competência, carácter alegre, correcção, aprumo e camaradagem. No ano seguinte ao da viagem, em 1935, morreu num desastre de avião perto de Viseu. "Morreu o Lobato!". A mensagem que ecoou, na sua simplicidade, transmitia a memória e o carinho colectivos que o País conservava de tão jovem e corajoso ás da navegação aérea.
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Os vinhos portugueses: história, actualidade e futuro

Os vinhos portugueses
A cultura da vinha em Portugal já remonta ao século VII a. C. Diz-se que os Romanos, quando por aqui estiveram, apreciavam muito os vinhos provenientes das redonde­zas de Lisboa e de Setúbal, o que só prova que tinham bom gosto, como qualquer adorador de Baco que tenha provado os vinhos de Colares, Carcavelos e Setúbal (Moscatel) pode constatar.
Mas não ficou por aí a história dos vinhos portugueses. Segundo dizem os historiadores, e são eles quem sabe, o Infante D. Henrique teria enviado caravelas a Chipre e ao Levante buscarem cepas com que, «viticulturalmente» falando, povoaram a Madeira, para grande delícia de futuros «gourmets».
Também os vinhos de Monção, possíveis antepassados dos actuais vinhos verdes, já no século XV, depois de exportados por Viana do Castelo, satisfaziam os mais exigen­tes paladares ingleses. Os hábitos alteram-se, e o consumidor inglês, influenciado por aquilo que na altura ainda não se chamava publi­cidade e «marketing», passou a preferir os vinhos de Riba Doyro, que o Marquês de Pombal, (que aliás tudo leva a crer ter sido entendido na matéria, pois foi da sua quinta de Oeiras que foram «exportados» os primeiros Carca­velos para a Imperial Corte do Meio), estadista de visão, prote­geu, mandando delimitar a região, agora chamada do Douro, com enormes marcos de pedra traba­lhada, dos quais alguns ainda per­manecem nos locais em que foram implantados, criando em 1756, com prerrogativas majestáticas, a Companhia Geral de Agricultura das "Vinhas do Alto Douro, e com­ batendo quaisquer veleidades con­correnciais (mandando arrancar, por exemplo, as vinhas da Bair­rada, medida que só foi desagravada pela Rainha D. Maria, que as mandou replantar).
Historicamente falando, as coi­sas parecem ter ficado neste pé até 1907-1912, altura em que os últi­mos governos da Monarquia e os primeiros da República avançaram com a redefinição da região do Vinho do Porto (que passou a chamar-se do Douro) e instituíram as sete outras regiões demarcadas agora existentes; e, tirando a nova redefinição da região do Douro (em 1932) e a criação do Entre­posto de Vila Nova de Gaia (1926), as coisas ficaram por aí até esta nossa IIª República que, querendo também incensar Dionísio, criou cinco novas regiões demarcadas.
O que representam os vinhos portugueses
Deixando a história, o que é que representam hoje os vinhos portu­gueses? Portugal é um dos principais produtores mundiais de vinho, que é igualmente um dos mais importantes produtos de exportação (cerca de 140 mil euros/ano), mais de 200 mil postos de trabalho (só no sector da produção propriamente dita), cerca de 300 mil explorações vitivinícolas e uma produção média anual de cerca de 10 milhões de hectolitros, dos quais perto de um quinto se destina à exportação. No entanto a produ­ção tem altos e baixos o que leva a que Portugal tenha por vezes de importar vinho para garantir o abastecimento do mer­cado interno, sem faltar aos com­promissos externos já assumidos. Por exemplo, em 1979, importámos 500 mil hl de vinho comum.
Contudo o vinho não é só núme­ros, cifras, graduações e outras coi­sas desse teor, e qualquer de nós que tenha regado lauto repasto com um fino Bucelas ou um encorpado Dão, ou colocado a pedra de remate de frugal refeição com uma cálida de aguardente Moscatel de Setúbal, não deixará de saber que o vinho é também um elemento de convívio, uma fonte de alegria, um fugaz momento a ser relembrado. No entanto, há pessoas que não conhecem os vinhos portugueses, ou que, conhecendo-os empirica­mente, não estão a par das suas denominações e características. Para uns e outros, dá-se a seguir uma breve resenha dos vinhos por­tugueses, suas origens e caracterís­ticas, e como devem ser bebidos.
Vinhos do Porto e da Madeira
Para começar, temos o vinho do Porto, oriundo da região do Douro, que se espraia pelo Vale do Douro acima, de cerca de 100 quilómetros do Porto até à fronteira espanhola. O vinho do Porto tem um teor alcoólico compreendido entre os 19º e os 22° e quanto a cor pode ser branco, aloirado, tinto aloirado ou tinto. Os Vintages (colheitas de um só ano de reconhecida qualidade) envelhecem em garrafa depois de terem sido engarrafados entre o segundo e o terceiro anos de idade.
Os L.B.V.s (Late Bottled Vintages - colheitas tardiamente en­garrafadas) diferem dos anteriores por serem engarrafados entre o quarto e o sexto anos de idade. Há também os vinhos do Porto enve­lhecidos em cascos comuns e com a indicação de idade. O vinho do Porto bebe-se de preferência como aperitivo, para acompanhar queijos ou sobremesas, ou depois dos doces e das frutas. A região do Douro produz, para além do vinho do Porto, vinhos de mesa que são comercializados sob a designação regional de Douro, e, numa pequena mancha de terreno, um vinho generoso que é comercializado sob o nome de Moscatel de Favaios.
O Madeira, vinho licoroso produ­zido na ilha do mesmo nome, tem entre 18º e 20° e pode ser de vários tipos, conforme as castas de que é produzido; o Malvasia é muito doce, encorpado, de cor carregada e acentuado perfume; o Sercial é seco, leve, de cor clara e suave­ mente perfumado; o Verdelho e o Boal são tipos intermédios entre os dois anteriores, sendo o Verdelho mais parecido com o Sercial e o Boal mais parecido com o Malva­sia. Existe também a designação de Solera, que é atribuída a vinhos de determinada colheita e quali­dade comprovada, envelhecidos em casco e que, durante certos períodos e de acordo com determi­nadas regras, poderão ser lotados com outros vinhos. O Madeira pode ser bebido nas mesmas oca­siões que o Porto.
Outros vinhos generosos
O Carcavelos, excelente vinho generoso hoje unicamente produ­zido em uma pequena mancha de 6 há, tem entre 18 e 20° e caracteriza-se pelas suas qualida­des especiais, de aveludado aroma e sabor inconfundível. O Carcave­los deverá ser bebido a acompa­nhar queijos ou depois de frutas e sobremesas.
O Moscatel de Setúbal, vinho generoso produzido nos concelhos de Palmela e Setúbal tem uma gra­duação alcoólica entre os 18º e os 20°, uma tonalidade que vai do topázio claro ao topázio queimado, um perfume suave e um delicado sabor que o torna inconfundível. Pode ser bebido como aperitivo ou para acompanhar queijos ou sobre­ mesas. Nesta região, e suas imedia­ções, também se produzem vinhos de mesa tintos Periquita, que são encorpados, com elevado extracto seco, quando novos com acentuado sabor e aroma a fruto, melhorando com o envelhecimento, e com graduação alcoólica não inferior a 12°.
Os vinhos de mesa
Os vinhos verdes, designação que desde 1973 beneficia do registo internacional de origem e «marca colectiva», e que desde 1949 é reconhecida pelo Office Internacio­nal de la Vigne et du Vin, são pro­duzidos em 45 concelhos do No­ roeste, têm graduações alcoólicas que oscilam entre os 8º e os 11,5°, e elevado teor em ácido láctico e ani­drido carbónico, o que, pelo seu alto poder dessedentante, faz com que os vinhos verdes sejam extre­mamente agradáveis de beber na época quente. Os vinhos verdes brancos vão muito bem com ostras e mariscos de concha. Os tintos são óptimos para se acompanhar carnes vermelhas, grelhados e car­nes guisadas.
O Dão, produzido nas bacias do Dão e do Mondego, em um teor alcoólico médio de 12º e deve ser consumido com crustáceos e pei­xes frios (branco), charcutarias quentes, criação ou caça de penas (tinto muito encorpado), carnes brancas (tinto medianamente encor­pado), carnes vermelhas, grelha­dos e carnes guisadas (tinto encor­pado). O Dão tinto é caracterizado pelo sabor aveludado, pelo deli­ cioso aroma a fruto e pela viva cor de rubi. Melhora com o envelheci­mento, adquirindo cor acastanhada e um acentuado «bouquet». O Dão branco é leve, de cor citrina e tem um acentuado aroma e sabor a fruto, que se deve às cas­tas de que é produzido.
O Colares, vinho de areia produ­zido na freguesia do mesmo nome e em terrenos de areia solta das freguesias de S. Martinho e de S. João das Lampas, todas do conce­lho de Sintra, tem, quando tinto, uma graduação oscilando entre os 10,5º e os 11°; quando novo, é áspero e adstringente, mas o enve­lhecimento faz com que amacie e adquira um extraordinário aroma e uma tonalidade de casca de cebola. Deve ser bebido muito velho e a uma temperatura de 18°, e pode acompanhar charcutarias quentes, criação e carnes brancas. O branco, de teor, alcoólico mais elevado, entre 11º e 12°, apresenta uma cor citrina, é fresco, com um agradável aroma a fruto, também melhora com o envelhecimento e deve ser bebido, o velho, a 12°, e o novo a 10° C. O Colares branco é um excelente acompanhamento para crustáceos e peixes frios.
Por último o Bucelas, vinho branco com graduação entre 11º e 11,5°, produz-se em pequena região centrada na vila do mesmo nome, a 25 km a Norte de Lisboa. Bas­tante acídulo quando jovem e seco, ganha características organolépti­cas inconfundíveis após envelheci­mento. É de se beber o Bucelas com crustáceos e peixes frios, ace­pipes e charcutarias frias ou quentes.
Para além das regiões demarca­ das, existem outras que não o são, como a de Lafões, ilha do Pico, Alentejo, Ribatejo, etc., e ainda outras duas, já referidas, as da Bairrada e do Algarve, em que a implementação prática da demar­cação se encontra presentemente em curso. Não se encontra no âmbito deste artigo pormenorizar as características de cada uma des­tas regiões e dos vinhos que as mesmas produzem, mas não que­ remos deixar de referir o vinho do Pico, néctar que em tempos passa­ dos foi muito apreciado na Corte Imperial Russa e que hoje é desco­nhecido mesmo da maioria dos portugueses que apreciam vinho.
As perspectivas para o futuro
No entanto e regressando ao lado prático das coisas, nem tudo são rosas para os vinhos portugue­ses. É certo, que o momento difícil da acessão de vendas de vinho às então colónias já foi ultrapassado, mas levantam-se agora os proble­mas decorrentes da integra­ cão de Portugal na União Europeia, problemas que só poderão ser resolvidos melhorando­ -se e estandardizando-se qualida­des, rentabilizando-se uma produ­ção com métodos por vezes data­dos e combatendo-se a excessiva pulverização da propriedade vitivi­nícola.
De tudo isto e da vontade de todos, produtores, expositores e organismos oficiais, depende que os vinhos portugueses continuem a manter a imagem de alta qualidade com que presentemente contam e mesmo que a consigam melhorar no futuro.
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As mais belas lendas do Brasil

A lenda do Curupira
O Curupira é um ser de cabelos vermelhos, corpo peludo, dentes verdes e pés virados. Um duende brasileiro. Seria uma criatura horripilante se não fosse bonzinho. Ele protege os animais da floresta de caçadores maldosos que matam os seus filhotes. Só tolera caçadores que caçam por necessidade. Grita, assobia, imita os bichos para atrapalhar os homens que o seguem até se perderem para sempre no mato.
Um certo dia o Curupira encontrou um índio caçador dormindo na floresta. A criatura tinha muita fome e decidiu comer o coração do homem, que parecia apetitoso. O índio acordou apavorado, mas fingiu não ter medo. Como se fosse muito natural, o Curupira pediu um pedaço do coração do homem. O índio, que não era tolo, pediu para o Curupira fechar os olhos e tirou duma bolsa um coração de macaco. O Curupira comeu, gostou e pediu mais. O caçador, vendo a ingenuidade do outro, pediu em troca um pedaço do coração do duende. Não tendo visto o índio sofrer nada e acreditando que tinha comido o seu coração, o Curupira, que não era lá muito esperto, enfiou a faca no seu próprio peito e caiu morto. O índio fugiu e jurou não voltar mais à floresta.
Um ano se passou quando Jacira, filha do índio, muito vaidosa, pediu ao pai um colar diferente. O caçador lembrou-se que o Curupira tinha dentes verdes que brilhavam como esmeraldas. Voltou à floresta e achou o esqueleto encoberto pelo mato. Quando o índio tentou arrancar os dentes da criatura, o Curupira voltou à vida, recompondo todo o corpo num passe de mágica. O COISA-FEIA agradeceu ao homem por tê-lo ressuscitado. Coitado, não sabia de nada e resolveu retribuir a bondade, dando um arco com flechas mágicas. Era só apontar para uma ave ou um animal e atirar. Nunca erraria o alvo. No entanto, avisou que se apontasse para um bando de bichos, acabaria morto por eles.
O índio tornou-se o maior caçador de todos os tempos. Um dia, esquecendo a recomendação do Curupira, atirou num bando de pássaros, só para ver se acertava em mais de um ao mesmo tempo, exibindo-se para os amigos. Um pássaro morreu, mas os outros atacaram-no. O pobre índio ficou então todo despedaçado. Era a cabeça para um lado e as pernas para outro. O Curupira viu tudo e, com pena, remontou o índio com uma cera encantada. Como nada é tão simples nesta vida, aconselhou o homem a não comer ou beber nada muito quente, senão derreteria para sempre. Essa era a última vez que poderia ajudá-lo. Um dia, a mulher do índio serviu-lhe um prato tão apetitoso que o guloso comeu tudo super quente e super rápido. Coitado, derreteu todinho. Moral da história: Se alguém mata um bichinho indefeso, acaba encontrando o Curupira, ou seja, cedo ou tarde acaba por se dar muito mal.
A lenda do Saci
O Saci é um negrinho de uma perna só, que usa um chapéu vermelho e segura sempre um cachimbo. Pede tabaco a toda agente que encontra. É danado e bastante travesso e adora atrapalhar a vida das pessoas. Vive atiçando os pobres dos cães, assusta constantemente os gatos, dá nós no rabo dos cavalos e deixa o feijão queimar na panela. Briga é com ele mesmo, o pestinha.
Certo dia um carpinteiro e os seus companheiros tinham que construir um barracão no meio da floresta. Como estavam longe do sítio em que moravam, decidiram dormir ali mesmo, quando o dia acabasse. Estavam todos descansando em volta de uma fogueira, conversando e jogando cartas. O carpinteiro resolveu passear, aproveitando o luar na floresta. Sentou­ -se num tronco de árvore perto de um rio, preparando o seu cachimbo. De repente, apareceu um Saci e o homem quase morreu do coração pois nunca tinha visto uma criatura como aquela.
O Saci, muito sem-vergonha, pediu um pouco de tabaco para o seu cachimbo. O carpinteiro, fingindo não ter medo, ofereceu o que tinha. O Saci disse que assim não queria, tinha que ser picadinho. O pobre homem picou o tabaco com um canivete tremendo mais do que vara verde. Mas nem assim o Saci estava satisfeito. Bem cínico, per­guntou ao coitado se ele trabalhava com madeira. Pediu, então, uma PERNA-DE-PAU. Pediu não, mandou o homem fazer. Não queria mais ter só uma perna, queria ser como toda a gente. Isto não era um defeito de nascença, pois todos os sacis nascem assim, só com uma perna. Mas ele queria duas e pronto. Voltaria em três dias. Se a encomenda não esti­vesse pronta, tornaria a vida do homem num inferno.
O carpinteiro contou a história aos outros que não acreditaram em nada. Três dias depois, apareceu o saci, cheio de razão, cobrando a PERNA-DE-PAU. Desta vez, os homens presenciaram a apa­rição e desataram a correr para tudo que era lado, cada um mais apavorado que o outro. O Saci ameaçou toda a gente e eles iam ver só o que era desgraça. O carpinteiro disse que cumpriria a promessa. Pensou então numa forma de enganar o Saci. Queria trabalhar rapidinho, terminar a obra e sumir. Achava que terminaria tudo antes do terceiro dia. O Saci, muito esperto, fez de tudo para atrapalhar o serviço. Dava tudo errado naquela obra. Os pregos desapareciam, a madeira quebrava e o trabalho atrasou como nunca. O Saci voltou como tinha prometido. Deu mais três dias para o carpinteiro, que não tinha mais desculpas. Fez uma perna de madeira bem bonitinha, do tamanho do Saci e até pintou de preto para combinar com a cor negra da sua pele.
O Saci até que gostou da perna, mas abusando da paciência do outro, pediu uma perna para cada saci da família. O homem, apavorado, ia passar o resto da vida fazendo pernas para tantos sacis que apareceram. Estes iam todos brigando entre si para serem os primeiros. O carpinteiro teve então uma ideia para acabar com a confusão. Construiu um baú bem grande, jogou um monte de grãos de feijão dentro e disse para o Saci que quem pegasse mais grãos, ganhava a perna. Era um truque, pois a ideia era trancar aquele monte de sacis dentro do baú. O problema é que o saci mais chato de todos já tinha uma perna e não tinha interesse na disputa. O homem não teve dúvida, arrancou a perna do Saci e jogou-a na caixa de madeira. O bando de sacis atirou-se para pegar a perna, inclusive o danadinho. Rapidamente, o carpinteiro fechou o baú com um enorme cadeado. Levou-o para a floresta, onde ainda deve estar até hoje. Tomara, entretanto, que ninguém tenha aberto o baú, pois existem sempre aqueles dias em que nada dá certo e isso pode ser sinal que haja um saci livre andando por aí.
A lenda do Papagaio e o Tamanduá
O Papagaio é um pássaro de bico torto. Ficou assim no tempo em que as aves ainda falavam. Era o bicho que mais falava na floresta. Não fechava a boca até conseguir o que queria. Enchia a paciência de toda a gente. O Tamanduá é um bicho de focinho comprido com um grande nariz para sugar formigas. Seria muito feio, se não fosse tão querido.
As florestas eram muito sem graça. Naquela época, as flores, as folhas e as frutas eram todas brancas. As aves e os outros bichos da floresta, cansados daquela monotonia de cores, reuniram-se em assembleia para discutirem e acharem uma solução. É claro que o Papagaio, sempre metido, coordenava a reunião. Falava o tempo todo sem chegar a conclusão alguma, até que o Tamanduá interrompeu. Sugeriu que se pintasse a floresta. O Gavião, que voa bem longe, poderia ir até às nuvens, onde vive a deusa das florestas, e pedir tinta de todas as cores. Todos adoraram a sugestão, menos o invejoso papagaio que queria ter ele tido a brilhante ideia. O Gavião foi falar com a deusa. Ela deu-lhe as tintas, mas pediu que não fizessem muita bagunça na natureza.
A ave foi e voltou muitas vezes, até trazer tinta suficiente para a grande obra. O Papagaio ofereceu-se para cuidar das latas até começar a pintura. Curioso, abriu as latas e derrubou tudo no chão. Só pensava em si mesmo. Resolveu então pintar-se todinho, usando todas as cores. Só não teve tempo de pintar o bico e os pés, pois os outros bichos chegaram. Estes ao verem o sucedido quiseram dar uma surra no Papagaio. No entanto, um sapo sensato pediu que parassem, afinal todos sabiam que o papagaio era uma criatura fútil e egoísta. O Tamanduá, sim, era responsável e deveria tomar ele conta de tudo. Afinal, era ele o dono da ideia. Ficou então decidido que o papagaio seria afastado do cargo. E lá foi o Gavião falar com a deusa da floresta. Contou tudo o que tinha acontecido, pediu desculpas e mais tinta. A deusa precisava da tinta para um arco-íris, mas deu mais uma hipótese para a bicharada.
Os animais começaram a pintar a floresta enquanto o Tamanduá coordenava o trabalho. O Papagaio, muito egoísta, pediu que lhe dessem tinta para o bico e os pés. Queria pintá-los de dourado. Os outros animais não lhe deram qualquer tipo de importância ao pássaro arrogante. Ele se emburrou e se escondeu para não ter que ajudar ninguém. Este ficou então atrás de uma árvore bisbilhotando os outros trabalhando.
Quando a floresta estava quase pronta, a deusa apareceu para visitá-los. Ficou surpresa com a belíssima combinação de cores. Disse que não conseguiria fazer um trabalho tão perfeito sozinha. Os bichos organizaram uma grande festa para comemorar, mas o Papagaio não foi convidado. O Papagaio não tinha ainda o bico torto, tinha o bico mais bonito de todas as aves. O Tamanduá não tinha um focinho comprido, tinha o focinho mais bonito de todos os bichos. O Papagaio, sempre vingativo, resolveu transformar o Tamanduá num bicho ridículo.
Lembrou que o Tamanduá tocava flauta na banda da floresta. O pássaro malvado fez uma flauta de bambu e disse para o Tamanduá que era mágica. Um presente da deusa da floresta. Com ela poderia tocar o som mais lindo do mundo, só que deveria ser tocado com o focinho dentro. O Tamanduá enfiou o focinho na taquara. Coitado do bicho, ficou preso. Ninguém conseguia tirá-lo. O Gavião correu para a deusa da floresta pedindo socorro. A deusa, com a ajuda dos bichos mais fortes, arrancou o bambu, que voou longe, acertando em cheio no bico do Papagaio.
Foi assim que o Tamanduá ficou com o focinho comprido e o Papagaio com o bico torto. Para completar, a deusa resolveu castigar ainda mais o Papagaio. O bicho tagarela ia passar o resto da vida falando, não o que ele pensasse, só o que ele ouvisse. Por isso, os papagaios repetem tudo que a gente fala.
A lenda da Iara, a Sereia
Uma sereia é uma mulher com rabo de peixe. No mundo inteiro, ouvem-se histórias de sereias que vivem no mar, em lagos e rios, encantando os homens com canções sedutoras. A Iara vivia num lago escondido no meio da floresta. Era muito bonita. Tinha cabelos negros muito longos e olhos tão verdes quanto a água do lago. A sereia cantava as suas músicas estranhas, deitada sobre uma pedra, apanhando o Sol como tal como todas as meninas gostam de fazer. Um índio chamado Jaguarari caçava na floresta quando ouviu aquele som maravilhoso que vinha detrás das árvores. Escondendo-se atrás de um arbusto, espiou a moça. Só conseguia observar da cintura para cima, não vendo o seu rabo de peixe FURTA-COR. Ficou lá ouvindo a cantoria até adormecer enfeitiçado. Quando acordou, a moça não se encontrava mais lá.

O rapaz voltou para a aldeia muito triste por não ter tido coragem de falar com ela. Não sabia o seu nome, nem de onde vinha. Desde aquele dia, passou a procurar a moça nas tribos das redondezas. Ninguém sabia de uma menina tão bela que cantasse músicas tão lindas. Decidiu voltar para o lago pois ela poderia aparecer por lá. O índio era o mais belo dos rapazes. Era forte, alto, um grande caçador. Sabia tudo de plantas e animais. Todas as moças queriam casar com ele. Mas o moço só pensava na desconhecida. Um dia, a sereiazinha apareceu nadando no lago e então ele pôde ver um rabo de peixe enorme batendo na água. Não podia acreditar que a moça era uma sereia. Nunca tinha visto uma, só tinha ouvido lendas muito antigas contadas pelos seus antepassados. Ela começou a cantar aquelas melodias estonteantes e ele ficou ainda mais apaixonado. Aproximando-se do rapaz, disse que se chamava Iara. Convidou-o para nadar com ela. Não sabia que ele era diferente. Nunca tinha visto um homem também. Quase arrastou o Jaguarari para o fundo do lago. O moço apaixonado explicou que poderia morrer afogado. Assustada, Iara desapareceu no lago. O coitado nunca mais teve sossego. Só pensava na amada. Não queria saber de caçar ou pescar, só queria vê-la outra vez. Não queria mais viver sem ela. Remava dia e noite pelos lagos daquela imensa floresta até o dia que, numa noite de luar, a sua canoa desapareceu. Aquela estranha canção podia ser ouvida por toda a parte. Era Uma canção feliz. Dizem que Iara levou o Jaguarari para sempre.

A lenda do Lobisomem
Um lobisomem é metade lobo e metade gente. É o primeiro de uma família de sete filhos. Normalmente é magro e amarelo. Nas noites de lua cheia, de preferência nas sextas-feiras, transforma-se em lobisomem e ataca toda a gente ou bicho em busca de sangue. Antes do amanhecer, procura sempre um cemitério, onde se transforma de novo em homem. Num povoado à beira do rio, vivia uma família de sete filhos. O mais novo era fraquinho e amarelado, com aquela cor de lobisomem.
Toda a gente dizia que ele era um. O pobre moço fingia não ouvir aquela fofoquice. Afinal, mesmo que fosse um, não tinha culpa. A natureza tinha-o feito assim. Um dia, pescando no rio, viu uma bela moça lavando roupa. Não deu muita importância, pois achava que não tinha muitas hipóteses com as mulheres.
De repente, uma trouxa de roupa da moça caiu na água. O rapaz, todo heróico atirou-se e salvou a trouxa da correnteza. Ela, agradecida, pediu que ele fosse até sua casa, onde a mãe lhe daria roupas secas e um chá quente para não se constipar. O moço acabou aceitando o convite. Acabaram se apaixonando e começaram a namorar. Os rumores na cidade aumentaram e todas as pessoas perguntavam para a menina se ela tinha a certeza que o namorado não era um lobisomem. Ela começou a ficar desconfiada, mas gostava tanto dele que não podia nem queria a acreditar.
Um dia, sexta-feira à meia-noite, a mocinha sentou-se no jardim de sua casa, apreciando a lua cheia. O namorado tinha ido para casa cedo, com a desculpa de uma dor de cabeça. Estava lá, sonhando com o seu amado, quando um bicho horroroso, que mais parecia um cão enorme, pulou na sua frente. A coisa horrorosa atacou a moça, mordendo o seu braço. A moça gritava como louca e conseguiu fugir para casa não tendo dormido nada naquela noite onde quase morreu de susto.
No dia seguinte, bem cedo, foi ver o namorado e contar a história, aos prantos. O rapaz sorriu, achando tudo palermice. No entanto, este entre os seus dentes tinha um fio vermelho do tecido da blusa da sua amada. Esta apavorada, viu que o seu namorado era mesmo um lobisomem. Não teve medo naquele momento, porque não era noite e já era Sábado. Decidiu que, por amor, salvaria o seu querido da maldição. Perguntou a toda a gente o que fazer. Ninguém sabia. Ouviu falar de um homem que morava na mata, bem longe da cidade, e que poderia ajudá-la. Um velhinho negro com cabelos brancos era a sua última esperança. Este disse para ela não se preocupar e que se tivesse amor pelo rapaz e coragem para ir sozinha a um cemitério de noite e tudo estaria resolvido.
Para isso precisava espetar um espinho de laranjeira que tivesse sido plantada à meia-noite de uma sexta-feira com lua cheia. Para sorte da moça, o preto velho tinha o hábito de plantar laranjeiras à meia-noite de sextas-feiras de lua cheia. Era meio caminho andado.
A moça foi confiante para o cemitério. Tremia de medo enquanto um vulto apareceu atrás de um túmulo, era ele. Quando se ia transformar, zum, ela pulou em cima do bicho fincando o espinho nas suas costas. O monstro peludo deu um grito horripilante e transformou-se no namorado da moça. Estava salvo do encantamento. Casaram e, graças a Deus, tiveram só cinco filhos, todos fortes e bem corados. Existem pessoas que não acreditam, mas se forem à meia-noite numa sexta-feira ao cemitério quem sabe se não serão confrontadas com um lobisomem?
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