Cabo Verde: um arquipélago de contrastes

Cabo Verde: a fusão entre o calor, a música e alma das gentes
O dia-a-dia de Cabo Verde
Quando o Sol nasce em Santo Antão, os primeiros raios iluminam as pessoas que se movem como formigas nos carreiros talhados nas encostas da ilha, ao mesmo tempo que um pouco mais a Sul, os habitantes da Ilha do Fogo saem da sombra do cone vulcânico e se dirigem para os campos de cinza a fim de irrigarem a vinha e o cafezal. Mais tarde é já o bulício que toma conta da cidade do Mindelo, em São Vicente, enquanto bandos de turistas amolecem nas praias da Ilha do Sal, embalados pelo calor dos trópicos.
Na figura (em cima): O mercado de Assomada, em Santiago.
A meio da tarde, o Platô da cidade da Praia fervilha de gente e, na mesma ilha de Santiago, os comerciantes de Assomada tentam aliciar os últimos clien­tes. Quando o dia começa a pôr-se acendem-se as luzinhas da aldeia de Fontainhas, em Santo Antão, enquanto os últimos banhistas se retiram do aconchego das dunas da Boavista. Já noite feita, os corpos estremecem ou enlaçam-se nas discotecas da Praia e do Mindelo, enquanto, vindo sabe-se lá de onde - certamente da alma - uma voz crioula embala todas as ilhas ao som das "mornas", das "coladeiras" e do "funaná". E amanhã é outro dia e tudo recomeça.
Na figura(em cima): Costa Leste de Santiago.
A relação Cabo Verde-Portugal
Entre Portugal e Cabo Verde existe uma forte ligação. Foi na época do arranque da Expansão de Portugal que foram descobertas as ilhas de Cabo Verde e as marcas deixadas pela colonização portuguesa ainda hoje estão bem presentes, mesmo após mais de 30 anos de independência. Os traços portugueses são visíveis na língua - o crioulo, embora o sotaque varie de ilha para ilha, deriva 90 por cento do português -; na arquitectura colonial, mais marcadamente no Mindelo e em São Filipe; nas construções militares (o fortim do Mindelo e o forte da Cidade Velha); até na moeda - Cabo Verde é o único país onde ainda circula o escudo; e não deixa de ser impressionante o conhecimento que os cabo-verdianos têm da actual realidade portuguesa, dada a forma dedicada como acompanham as emissões da Televisão Portuguesa e a forma apaixonada como seguem o futebol português.
Na figura (em cima): paisagem da ilha do Sal.
À descoberta das ilhas
Cabo Verde é um arquipélago semelhante a uma palete de cores tão diferentes, com paisagens tão distintas e com uma identidade tão exclusiva que quase todas são únicas dentro do seu género.
A Ilha do Sal: onde o Sol domina
No estremo Sul da ilha do Sal, na vila de Santa Maria, a pouco mais de 18 quilómetros da capital, Espargos, surge esta vila onde o mar salta à vista com uma cor que não engana. Esta é a zona turística por excelência de Cabo Verde. Aqui podem-se encontrar os melhores hotéis de todo o arquipélago, excelentes restaurantes e esplanadas. Ao percorrer-se as ruas de Santa Maria, depressa se apercebe que as atenções se centram em dois pontos: o largo principal, que começa a ganhar animação a partir do pôr-do-sol e, acima de tudo, o extenso areal que compreende a praia de fina areia clara, aconchegada pela ligeira ondulação esmeralda que faz a delícia dos banhistas.
Um pouco por toda a parte podem-se observar animadas partidas de futebol, com miúdos e graúdos a exibirem os nomes dos seus ídolos nas suas camisolas, como Figo e Rui Costa. Mas, o ex-líbris da praia é sem dúvida o pontão de madeira que, ao longo do dia, é chamariz de muitas e muitas pessoas que, atraídos pela sua beleza, ali efectuam longos e aprazíveis passeios. Este pontão de madeira, composto por tábuas de madeira meio soltas servem de "porto" para pequenas embarcações que descarregam o peixe, muitas delas com tubarões a bordo -, mas também são utilizadas como local predilecto de pesca à linha, de convívio, ou como "prancha" para os mergulhos das crianças no mar. É de facto um local onde se pode ficar horas a fio a ver desfilar pessoas, a observar a recolha e a amanha do peixe, a escutar conversas alheias ou, pura e simplesmente, a olhar o mar e a assistir à passagem dos numerosos cardumes que se abrigam debaixo do pontão.
Na figura (em cima): O pontão de Santa Maria (ilha do Sal).
Outro ponto de interesse nesta ilha do Sal situa-se em Pedra Lume onde se pode observar e entrar num túnel escavado no rebordo da cratera de um vulcão extinto, onde estão localizadas as salinas que deram o nome à ilha. Olhando em redor pode-se observar bem desenhados os contornos da cratera e, no seu interior, distinguem-se diversos "lagos" de água a partir dos quais era extraído o sal, que apresenta duas tonalidades: no lado mais perto do mar, a água é azul (menor concentração de sal); no lado oposto, é de um tom rosa (maior teor de sal).
Na figura (em cima): As Salinas de Pedra Lume.
Outra das grandes atracções da ilha do Sal, na direcção de Palmeira, é Buracona, uma entrada de mar, rocha adentro que, à medida que a maré sobe, enche um socalco su­perior talhado na rocha em jeito de plataforma, formando uma calma e apetecível piscina natural, enquanto uns meros metros abaixo continua o turbilhão de ondas, remoinhos, cascatas e o som surdo do mar a bater nas rochas "splash".
Ilha da Boavista
A Boavista, a ilha onde nasceu a "morna", é maior que o Sal, mas os seus conceitos não diferem muito. O tempo, aqui, também é para ser sorvido nas praias - mais bonitas e menos povoadas que no Sal - e na exploração de alguns, poucos, pontos de interesse turístico. A ilha dá as boas-vindas em Rabil, mas o breve caminho leva os visitantes até Sal Rei, a capital, que não é mais que uma média aldeia portuguesa. Uma volta pela vila permite identificar o porto; o fronteiro ilhéu de Sal Rei, onde repousam os vestígios do Forte Duque de Bragança; e, um pouco mais para dentro, o Largo Santa Isabel, onde se centra a localidade e onde se distingue a igreja do mesmo nome.
Na figura (em cima): litoral da ilha da Boavista.
O resto é paisagem, ou, melhor, praia. Aqui, em Sal Rei, a praia de Chaves merece uma paragem obrigatória. É uma linda baía de vestida de dunas e que se distingue pela silhueta sempre presente da chaminé de tijolo da antiga fábrica de cerâmica - que contrasta com os esbeltos coqueiros que a rodeiam -, cujas fundações estão invadidas pelas areias da praia. A luz baça do Sol emoldura este cenário de sonho, fechando com chave de ouro as belas vistas, o descanso e a bela vida na ilha da Boavista.
Na figura (em cima): piscina natural de Buracona, em frente às grutas da Praia da Varandinha (ilha da Boavista).
Ao percorrer-se a via pitoresca entre Sal Rei e Rabil, pode-se vislumbrar uma vegetação surpreendente, com tamareiras, coqueiros, árvores e arbustos que tingem a área de verde, tudo devido a um poço nas redondezas que confere ao local a imagem de um oásis. E como todos os oásis implicam desertos, a ilha da Boavista também tem o seu, a uma distância não muito longa e, quando lá se chega, percebe-se então porque é a ilha mais próxima do continente africano. É como se parte do deserto do Sahara tivesse viajado cerca de 500 quilómetros pelos ares sobre o Atlântico e pousasse suavemente nesta zona da ilha. Dunas, dunas e mais dunas.
No Sul da ilha, predominam as praias: a da Varandinha é uma praia deserta batida pelo verde do mar, entrecortada por rochas que formam pequenas prainhas e estranhas concavidades e, um pouco mais à frente, a de Santa Mónica, ou do Curralinho, que goza a justa fama de ser a mais bonita da Boavista. Trata-se de um extensíssimo areal a perder de vista - é o maior de todo o arquipélago -, pontuado aqui e ali por banhistas ocasionais que se sentem isolados de tudo e de todos e apenas entregues aos prazeres do astro-rei e que, na época certa - Junho, Julho e Agosto - podem presenciar o espectáculo extra da desova das tartarugas.
Na figura (em cima): Navio fantasma no Cabo de Santa Maria.
O Norte da ilha da Boavista é conhecido pelo número de embarcações naufragadas ao largo, por se tratar de uma costa extremamente rasa, e foi assim que surgiu uma das suas maiores atracções turísticas: a embarcação espanhola "Cabo de Santa Maria" que está encalhada, há mais de 40 anos, mesmo junto à areia da ponta Antónia, e a sua visão faz lembrar um "navio fantasma", tal a corrosão e a destruição que o mar nele exerceu. Um pouco mais ao largo, podem-se observar, por vezes, alguns caçadores de tesouros que procuram o "Santa André" , um galeão que, segundo consta, está repleto de moedas de ouro e prata e de um leão em ouro maciço.
A Ilha de Santiago
Nesta ilha, o primeiro contacto com a cidade da Praia, capital do arquipélago, é um pouco "assustador", porque o bulício é muito maior que noutras paragens, como seria de esperar de uma urbe que alberga cerca de 120 mil habitantes, e numa ilha que, apesar de ser a maior em dimensão, possui metade dos habitantes de todo o arquipélago. A vida nocturna seduz qualquer visitante mas, também as praias e o Platô, o centro histórico erguido num socalco calcário em forma de "tabuleiro" poderão igualmente agradar os turistas de outras paragens bem distantes. Mas além de algum encanto que possui, a Praia é, também, o ponto de partida para se tomar conhecimento do resto da ilha, com dois caminhos possíveis: partir pela estrada que vai pelo lado oeste até ao norte e regressar pela mesma via, ou, no regresso, fazer a estrada que acompanha a costa leste de Santiago.
Não muito distante da Praia, ergue-se a primeira colónia edificada pelos portugueses, designada de Ribeira Grande mas que, hoje, é conhecida por Cidade Velha. Aqui, podem-se encontrar os mais bem conservados vestígios da presença portuguesa, nomeadamente no Forte de São Filipe, erguido precisamente para assinalar a soberania lusa e para defender a população e os seus bens do assédio de que foram alvo ao longo dos tempos. Do alto das muralhas acanhoadas, tem-se uma ampla vista sobre a antiga povoação e sobre o largo vale - a fazer lembrar um "canyon" - verdejante que se abre atrás do forte e que se prolonga até ao mar.
Na figura (em cima): Cidade Velha - Forte de São Filipe.
Dentro do povoado pode-se ainda passear pela praça do pelourinho manuelino, onde os escravos eram punidos mas que serve agora de descanso aos idosos que observam as mulheres a apanhar sol à porta das casas, os homens que bebem grogue na esplanada da praia e as crianças que se divertem em animados jogos de rua.
Na figura (em cima): São Jorge de Órgãos.
No lado Ocidental da ilha de Santiago, pode-se assistir a uma mutação constante da paisagem e das cores. Aqui, o visitante pode-se deleitar com o centro de artesanato em São Domingos, ou então com as deslumbrantes paisagens em torno de São Jorge dos Órgãos, uma povoação florida de buganvílias multicolores e que é o "pulmão" da ilha por possuir o único jardim botânico do país, anichada no sopé do monte Órgãos - assim chamado pelo facto dos seus picos fazerem lembrar os tubos dos órgãos de igreja.
Na figura (em cima): Praia do Tarrafal.
Ainda na ilha de Santiago, ao passar a agreste serra da Malagueta chega-se à vila do Tarrafal, uma estância de veraneio dos habitantes da Praia, que durante o ano não é propriamente concorrida, mas que é bastante frequentada aos fins-de-semana e no Verão. É a praia mais afamada de Santiago e os seus contornos, propagandeados em postais e revistas, fazem lembrar algumas paragens das Caraíbas, pelo número de coqueiros que nascem no areal. A costa leste da ilha é diferente, mais recortada, mais agreste, com o mar um pouco mais revolto mas, em compensação, é composta por um desfile de sucessivas baías e entradas de mar que funcionam como refúgios, nichos de areia escura ou clara onde os barcos dos pescadores descansam da faina.
A Ilha do Fogo
A ilha do Fogo é a ilha mais quente de todo o arquipélago e a cidade de São Filipe não foge à regra. Esta cidade é uma das mais antigas cidades de Cabo Verde e são tais os seus encantos que é considerada por muitos que a visitam como a mais bonita do arquipélago. Muita da beleza da urbe deve-se ao contingente de emigrantes radicados nos Estados Unidos, que envia donativos a fim de que os monumentos e as habitações sejam recuperados, o que permite olhar com muito agrado para as casas pintadas em cores alegres e para os típicos "sobrados" em excelente estado de conservação.
Na figura (em cima): São Filipe, a capital da ilha do Fogo.
A cidade de São Filipe divide-se em duas partes, a "bila baxo" e a "bila riba", indicando que trepa pela encosta da ilha a partir do mar, e os referidos "sobrados" - casas de dois andares em que o andar superior, pertencente aos donos, possui uma varanda, enquanto os criados ou escravos não podiam sair do piso inferior - distribuem-se de igual forma pelas duas zonas, tal como os muitos jardins e praças que se encontram impecavelmente arranjados.
Na figura (em cima): Vulcão da ilha do Fogo.
Ainda que São Filipe seja muito cativante, a maior atracção da ilha encontra-se no vulcão que se ergue a 2.829 metros de altura, um vulcão que, volta não volta, assusta os moradores com as suas mais ou menos cíclicas erupções. "A última, em 1995, não saiu do cone, mas sim de uma cratera que abriu de lado, e não foi comparável com a de 51, quando jorrou lava durante 6 meses, cobrindo grande parte da ilha."
A Ilha de São Vicente
Na figura (em cima): O litoral da ilha de São Vicente.
A ilha de São Vicente tem um pouco de tudo: algumas montanhas, praias, terreno árido, pedaços de solo fértil e, acima de tudo, o Mindelo, a segunda maior cidade de Cabo Verde mas que, na realidade, é a capital cultural do arquipélago e senhora de um ambiente e de uma mística muito próprias. Nesta cidade pode-se passear: pela Praça Amílcar Cabral, mais conhecida por Praça Nova; pelo Largo da Pracinha da Igreja que é o centro histórico da cidade, ou então pela Avenida Marginal.
Nesta ilha pode-se ainda apaixonar pelas bonitas estâncias de fim-de-semana dos mindelenses, em Calhau, num cenário de cortar a respiração com dois vulcões extintos a debruçarem­ se sobre o mar; em São Pedro, uma lindíssima praia que abriga uma aldeia de pescadores ou então na Baía das Gatas, uma povoação semelhante a Calhau mas que fica a "abarrotar" em Agosto, quando tem lugar o afamado festival de música, que arrasta visitantes de várias partes do Mundo.

Na figura (em cima): Imagem da cidade de Mindelo (São Vicente).

Vistas as praias, as baías e as comunidades de pescadores resta a montanha, e nada melhor que ir à maior elevação (775 metros) de São Vicente, o monte Verde - o único que fica desta cor na época das chuvas.

Na figura (em cima): Antigo palácio do governador portugûes do Mindelo, actual Tribunal Judicial e Palácio do Povo.

A Ilha de Santo Antão: a "Suíça" de Cabo Verde

Na figura (em cima): Fontainhas - aldeia-presépio erguida a meia encosta na ilha de Santo Antão.

A ilha de Santo Antão, cujos contornos são bem visíveis a partir de São Vicente é a ilha mais verde de todas. Ela é sulcada por montes e vales e é a única ilha onde o nome do país faz sentido. Mas quem quiser tomar contacto com esta "Suíça" em ponto pequeno, deve estar preparado para andar, andar muito, pois só assim é possível captar a sua essência e a sua beleza.
Na figura (em cima): Hortas, plantações em Santo Antão.
Nesta ilha, no lugar de Covas que é, nem mais nem menos, que a cratera de um vulcão extinto, uma enorme cratera - com o fundo completamente cultivado - e de rebordos bem desenhados, pode-se observar toda uma paisagem em redor constituída por imensas plantações de todo o tipo de produtos agrícolas, árvores, frutos, plantas endémicas, animais e água, muita água a escorrer pelas vertentes e a ser canalizada para a irrigação.

Na figura (em cima): O cultivo dos campos e o trabalho nos trapiches tradicionais na ilha de Santo Antão.

É de facto vale bem a pena visitar este esplêndido arquipélago a meio caminho entre a América do Sul e a Europa, e perto do continente africano. Cabo Verde, aqui retratado duma forma resumida, pois muito haveria a dizer sobre outras ilhas e outros lugares, é de facto um arquipélago que não prima pela homogeneidade mas que é unido num todo pela música “morna”, pelo calor do Sol e das suas gentes simples e afáveis que tão bem sabem receber os visitantes.

1 comentário:

  1. Moro no Rio de Janeiro, cidade repleta de belezas naturais.
    Encantei-me pelo Arquipélago de Cabo Verde, tão bem descrito pelo autor, com comentários interessantes sobre as Ilhas mais importantes.
    Nasceu assim, o desejo de conhece-lo, o que farei em breve!
    Leonor Carneiro Aguiar(Rio de Janeiro-Brasil)

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